A carta, o silêncio e a metáfora da vida. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  – Hoje acordei em fuga. Tentando me esconder do quanto romântico costumo confessar, porque há sentimentos que a gente esconde não por covardia, mas por uma delicadeza antiga, como quem guarda uma fotografia amarelada dentro de um livro para que ninguém veja, mas também para que o tempo não a destrua. Acordei assim, com o coração feito uma varanda depois da chuva, molhado de lembranças, olhando para longe, esperando que alguma coisa voltasse pela estrada, mesmo sabendo que certas voltas não dependem mais da vontade da gente, mas de uma dessas leis secretas da existência que Deus escreveu em silêncio e que nós, pobres aprendizes da saudade, tentamos decifrar com lágrimas, cartas e metáforas.

Porque talvez seja isso mesmo: a vida é uma grande metáfora. A gente pensa que está vivendo fatos, mas está atravessando símbolos. Uma porta que se fecha não é apenas uma porta; é um capítulo que se recusa a continuar. Uma mão que falta não é apenas uma ausência; é um país inteiro que desaparece do mapa íntimo da gente. Uma carta que não chega não é apenas papel perdido no caminho; é uma esperança que ficou sentada à beira da estrada, olhando a poeira levantar, esperando por um mensageiro que talvez nunca tenha saído.

E eu fiquei pensando, com essa tristeza que hoje amanheceu dona de mim, se é o silêncio da carta que dói ou se é a dor da carta que silencia; se na carta está a dor calada, dobrada em quatro, guardada no envelope do orgulho; ou se está na dor o silêncio da carta, como se o coração fosse uma caixa de correio abandonada, cheia de palavras que ninguém veio buscar. Há perguntas que não querem resposta, querem apenas companhia. E esta, talvez, seja uma delas. Porque quem sofre de amor não procura explicação; procura um colo invisível onde possa descansar a cabeça sem ser julgado pela fragilidade de ainda sentir.

Senti-me como quem estende a mão no escuro e não encontra outra para tocar. E não há solidão maior do que essa: a solidão de quem ainda tem ternura nos dedos, mas já não tem destino para o carinho. A casa pode estar cheia, a rua pode estar movimentada, o mundo pode gritar suas urgências pela janela, mas dentro da gente existe um quarto fechado onde só mora o nome dela. E esse nome, quando passa, arrasta cadeiras, abre gavetas, derruba calendários, mexe em coisas que eu julgava arrumadas, como se a memória fosse uma criança desobediente brincando com objetos sagrados.

Tudo que é triste guerreia às vésperas. A tristeza nunca chega de repente; ela manda seus sinais, seus emissários, seus presságios. Primeiro vem uma música que a gente não devia ouvir. Depois vem um perfume atravessando a rua como se tivesse alma. Em seguida, uma lembrança se senta ao nosso lado sem pedir licença. E quando percebemos, a batalha já começou dentro do peito, com a saudade empunhando antigas bandeiras e o coração, coitado, defendendo uma fortaleza que há muito tempo perdeu seus portões.

Eu fui feliz um dia quando estava ao lado dela. E digo isso sem revolta, sem cobrança, sem a pretensão mesquinha de transformar o amor em dívida. Fui feliz porque a presença dela acendia em mim uma luz que eu não sabia possuir. Fui feliz porque há pessoas que não chegam apenas à nossa vida; chegam à nossa linguagem, mudam o modo como pronunciamos o mundo, reorganizam os móveis da alma, ensinam ao silêncio uma música mais mansa. Com ela, até os dias comuns pareciam carregar um segredo. Uma tarde qualquer deixava de ser uma tarde qualquer. Um café tinha gosto de eternidade. Um olhar bastava para absolver a semana inteira.

Mas há amores que, mesmo indo embora, não fazem barulho de partida. Saem devagar, como quem não quer acordar os móveis da casa, e deixam atrás de si uma ausência disciplinada, educada, quase cruel, porque não grita, não quebra nada, não faz escândalo; apenas permanece. E permanecer, às vezes, dói mais do que partir. O amor que se foi sem se retirar completamente vira esse retrato virado para a parede: a gente não olha, mas sabe que está ali; a gente não toca, mas sente sua moldura dentro do peito.

Por isso escrevo esta crônica como quem escreve uma carta que talvez não precise chegar. Não para pedir volta, porque o amor, quando amadurece na dor, aprende também a não implorar o que deve ser livre. Não para acusar o destino, porque o destino, esse velho escriba de mãos invisíveis, escreve muitas vezes com uma tinta que só entendemos depois. Escrevo porque o coração chora, e quando o coração chora, a palavra vira lenço, vira ponte, vira oração sem altar. Escrevo porque há dores que, se ficarem caladas, apodrecem; mas quando encontram a literatura, viram rio, viram céu nublado, viram metáfora, viram uma forma digna de continuar de pé.

Mas a crônica, meu Deus, a crônica ainda é uma forma de continuar amando sem pedir licença ao destino, nem pedir volta, mesmo que o coração chore. Ela é esse lugar onde a saudade pode entrar sem ser expulsa, onde o passado se senta à mesa sem precisar explicar por que voltou, onde a ausência ganha cadeira, copo d’água e nome. A crônica não ressuscita o que se perdeu, mas impede que o perdido morra de qualquer jeito. Ela recolhe os cacos e, com paciência de mãe, transforma ferida em linguagem.

Quem sabe se a vida não é mesmo uma grande metáfora? Talvez amar seja atravessar uma ponte sabendo que, do outro lado, ninguém prometeu permanência. Talvez perder seja aprender que nem toda distância é geográfica. Talvez sofrer seja descobrir que dentro de nós existe uma capela pequena, escondida, onde ainda rezamos por aquilo que já não nos pertence. Talvez a carta seja o corpo da palavra, o silêncio seja sua alma, e a dor, esse pássaro escuro que pousa nos ombros da noite, seja apenas a maneira que o amor encontrou de continuar respirando quando já não pode mais abraçar.

Hoje acordei mais romântico do que sou, mais triste do que queria, mais humano do que ontem. E se isso é fraqueza, aceito. Porque há uma coragem secreta em confessar a própria saudade. Há uma nobreza em não transformar ausência em rancor. Há uma grandeza em amar sem algemar, lembrar sem ferir, sofrer sem perder a ternura.

Que esta carta, portanto, não peça nada. Que ela apenas exista. Que seja como uma vela acesa na janela de uma casa distante: não obriga ninguém a voltar, mas diz que ali ainda mora uma luz. Que seja como o mar falando sozinho à noite: ninguém responde, mas ele continua dizendo suas verdades à areia. Que seja como a vida, essa imensa metáfora que nos fere e nos ensina, nos toma e nos devolve, nos quebra e, às vezes, pelas mãos misteriosas da palavra, nos refaz.

Porque amar, mesmo em silêncio, ainda é amar.

E escrever, quando tudo dói, é a maneira mais bonita de não morrer por dentro.

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