Você foi o grande amor da vida de alguém e nunca soube. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – Você foi o grande amor da vida de alguém e nunca soube quanto de uma existência se movia ao ouvir seu nome, quanto futuro uma pessoa chegou a desejar apenas porque havia encontrado você. Entre os amores que viveu, os afetos que reconheceu e as histórias cuja importância o tempo confirmou, pode ter existido um sentimento que permaneceu fora do alcance da sua percepção, mesmo estando muito perto. Alguém conhecia o desassossego de estar ao seu lado com um amor que já não cabia na conversa, embora precisasse acomodá-lo entre assuntos comuns e palavras cuidadosamente escolhidas para não revelar demais. Essa pessoa podia fazer parte dos seus dias, acompanhar suas inquietações, conhecer histórias que poucos conheciam e, ainda assim, permanecer desconhecida justamente onde mais desejava ser reconhecida. Você sabia quem ela era, mas ignorava quem você era dentro dela, a extensão daquela vida interior em que sua presença havia aberto espaço para desejos que, antes de encontrá-lo, ela sequer sabia que possuía.
O amor lhe ensinara uma atenção capaz de distinguir, entre tantos gestos seus, aqueles que anunciavam uma alegria ou tentavam esconder uma tristeza. Conhecia o movimento das suas mãos quando procurava uma palavra, a alteração quase imperceptível da voz ao tocar num assunto doloroso, a maneira de rir antes de terminar uma história, como se a alegria não tivesse paciência para esperar pela última frase. Às vezes, percebia seu cansaço antes que você o confessasse e mudava o rumo da conversa para poupá-lo de uma pergunta, oferecendo uma delicadeza cuja origem você atribuía apenas à amizade. Você podia chegar entre dezenas de pessoas, permanecer poucos minutos e sair sem que nada de extraordinário tivesse acontecido; alguém, entretanto, levaria aquele encontro para o restante da semana, voltando a uma frase sua, ao instante em que os olhares se demoraram, à proximidade dos ombros num espaço apertado. O que mal encontrava lugar na sua memória continuava a crescer na lembrança de quem havia estado ao seu lado, como uma música que prolonga sua vibração depois que os instrumentos se calam.
Talvez essa pessoa tenha ouvido você falar de outro amor e permanecido ali, oferecendo atenção à história que, por dentro, lhe tirava o chão. Perguntou se você estava feliz, quis saber se era correspondido, encontrou palavras generosas para uma esperança da qual não participava como desejava, enquanto precisava conciliar a vontade de vê-lo bem com a dor de saber onde você procurava a felicidade. Depois, ao acompanhá-lo até a rua, prolongou a conversa, lembrou um assunto sem urgência, tentou conseguir mais alguns passos ao seu lado antes que a despedida devolvesse cada um à desigualdade de seus sentimentos. Você foi embora mais leve por ter desabafado; ela ainda precisou encontrar um modo de terminar a noite carregando o que ouvira e o que não conseguira dizer. E pode ter sido numa esquina assim, num lugar pelo qual você passou tantas outras vezes sem nada recordar, que alguém compreendeu quanto lhe custaria continuar tão perto sem jamais chegar.
Você pode conhecer alguém durante anos sem compreender o lugar que ocupa na vida dessa pessoa, porque existem palavras que, antes de alcançar a boca, precisam atravessar uma vida inteira de receios. Quem amava você também podia temer a perda da amizade que lhe permitia alguma proximidade, da liberdade de telefonar, da possibilidade de perguntar como foi o dia sem que a pergunta passasse a ser recebida com o cuidado constrangedor de quem procura não alimentar uma esperança. Talvez tenha havido uma declaração, e você tenha compreendido o sentimento sem alcançar sua profundidade, como quem avista da praia uma extensão de água e desconhece tudo o que se move debaixo dela. Você não estava obrigado a corresponder, e o respeito com que recebeu aquela revelação talvez não tenha sido suficiente para impedir o sofrimento. Pode ter reconhecido a sinceridade do que ouvia, desejado encontrar uma resposta menos dolorosa e percebido, diante daquele olhar, que não dispunha do único gesto capaz de torná-lo feliz.
Com o tempo, essa pessoa talvez tenha deixado de procurar você com a mesma frequência, recusado um convite, encontrado ocupações para os horários em que antes parecia estar sempre disponível. Você pode ter atribuído a mudança ao trabalho, a um namoro, ao movimento habitual da vida, sem perceber o esforço contido naquele afastamento, a disciplina dolorosa de reaprender os dias sem deixar em todos eles um lugar reservado à sua chegada. Uma notícia sua ainda desarrumava uma manhã, um encontro inesperado exigia uma longa caminhada antes de voltar para casa, mas houve também o primeiro domingo vivido sem esperar um telefonema, a primeira viagem em que a paisagem conseguiu ocupar os olhos por inteiro. Aos poucos, o mundo recuperava sua extensão, surgiam vontades que já não precisavam passar por você, e aquela pessoa descobria que podia levar consigo o que sentia sem entregar ao sentimento a direção de todos os seus passos.
Vieram outros encontros, talvez filhos, mudanças de cidade, trabalhos que exigiram coragem, alegrias que nasceram longe de você e possuíam sua própria grandeza. Se você a imaginasse imóvel no lugar de uma antiga espera, deixaria novamente de enxergá-la por inteiro, reduzindo uma existência ao amor que não encontrou correspondência. Ela viveu, foi amada, amou também, construiu uma história da qual você talvez conheça apenas notícias esparsas, e ainda assim pode ter conservado a lembrança daquele tempo numa região que os anos transformaram sem apagar. Certas lembranças se parecem com os leitos antigos dos rios, por onde a água já não corre, mas cuja forma permanece desenhada na terra; quem passa vê apenas uma curva do terreno, enquanto o chão conserva a memória da força que um dia o atravessou. Você pode ser essa curva numa vida que seguiu, encontrou outras águas e aprendeu a florescer sem a sua presença.
Se um dia alguém lhe contar que você foi o grande amor daquela pessoa, cenas que durante anos pareceram pequenas poderão adquirir uma profundidade que o deixará em silêncio. Você reconhecerá o cuidado escondido numa pergunta, a hesitação antes de uma despedida, o esforço de um sorriso depois de certas confidências, e terá vontade de percorrer de novo aquela história com a atenção que só agora consegue lhe oferecer. Talvez lhe venha à memória uma tarde em que falou com entusiasmo de seus planos, descreveu uma viagem, mencionou a pessoa com quem desejava compartilhar o futuro, enquanto alguém à sua frente o escutava com uma atenção que lhe pareceu apenas generosa. Você se lembrará de ter ido embora contente com a conversa, sem perceber quanto custara àquela pessoa desejar-lhe felicidade num caminho em que não estaria ao seu lado. Só então compreenderá que, naquela tarde, enquanto você falava da vida que pretendia construir, alguém se despedia em silêncio da vida que havia imaginado com você.
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