O dia em que tantos corações vieram ao encontro do meu

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC –  O dia vai recolhendo lentamente suas últimas claridades, e este 17 de outubro, que começou com a alegria de mais um aniversário, chega ao seu entardecer deixando dentro de mim uma emoção que dificilmente caberia nas palavras, porque durante todas essas horas recebi manifestações de carinho, mensagens de amizade, lembranças afetuosas e demonstrações de uma generosidade humana que me fizeram compreender, mais uma vez, que a verdadeira riqueza de uma existência não se mede pelo que conseguimos reunir ao longo dos anos, mas pela quantidade de sentimentos sinceros que despertamos nos corações daqueles que, de alguma maneira, cruzaram os caminhos da nossa vida.

Minha página do Facebook transformou-se hoje numa espécie de grande varanda iluminada, onde amigos de diferentes épocas, leitores, companheiros de caminhada, pessoas que conheço pessoalmente e outras que se aproximaram de mim através dos meus livros, das minhas crônicas, dos meus poemas e dos meus escritos jornalísticos chegaram trazendo suas palavras, seus abraços, suas felicitações e aquela delicadeza que somente os sentimentos verdadeiros conseguem oferecer. Cada mensagem parecia abrir uma janela para uma paisagem afetiva diferente, algumas devolvendo-me a presença de amizades antigas, outras revelando a beleza de vínculos construídos pela literatura, e tantas outras fazendo-me perceber que a palavra escrita, quando nasce da sinceridade, pode atravessar distâncias e estabelecer entre as pessoas uma intimidade que nem sempre depende da convivência cotidiana.

Confesso que fui profundamente tocado por essa manifestação coletiva de afeto, não pela quantidade de felicitações, embora tenha sido extraordinariamente generosa, mas pelo significado humano de cada gesto, pela lembrança de quem interrompeu por alguns instantes os compromissos do seu próprio dia para dedicar-me uma palavra, pela atenção de quem escreveu com ternura, pela alegria de quem compartilhou uma fotografia, pela delicadeza de quem deixou uma saudação e até mesmo pelo silêncio expressivo daqueles que, sem escrever uma única frase, fizeram chegar até mim sua presença através de uma curtida, de uma reação ou de um pequeno sinal de carinho, porque também existem sentimentos que sabem falar baixinho e nem por isso deixam de alcançar profundamente o coração.

Durante muitos anos, a literatura me ensinou a procurar nas palavras aquilo que tantas vezes permanece escondido nas profundezas da alma humana, e talvez por isso eu tenha aprendido a reconhecer que uma mensagem de aniversário pode carregar muito mais do que a simples formalidade de uma felicitação. Dentro de algumas palavras encontramos a permanência de uma amizade, a memória de um encontro, a delicadeza de uma admiração, a generosidade de um leitor que nos acompanha e, sobretudo, a certeza de que nossa passagem pela existência deixou pequenas sementes de afeto em lugares que nem sempre conseguimos alcançar com os próprios passos.

Hoje, enquanto acompanhava as mensagens que chegavam, pensei nas muitas estradas que percorri desde aquele menino nascido em Carpina, nas pessoas que participaram da construção da minha história, nos amigos que permaneceram ao meu lado através das transformações do tempo e naqueles que a vida me apresentou mais recentemente, como se cada novo encontro acrescentasse uma claridade à paisagem dos meus dias. Pensei também na extraordinária capacidade que os seres humanos possuem de oferecer alegria uns aos outros através de gestos aparentemente simples, mas capazes de transformar uma data pessoal numa celebração compartilhada, fazendo com que o aniversário de alguém deixe de pertencer exclusivamente a quem nasceu naquele dia e passe a integrar, ainda que por algumas horas, o território sentimental de tantas outras pessoas.

E como agradecer adequadamente a todos vocês, meus amigos, minhas amigas, meus leitores e leitoras, que fizeram deste aniversário uma experiência tão bonita? Como encontrar palavras que não pareçam pequenas diante da grandeza desse carinho, se justamente as palavras, minhas companheiras de tantos anos, parecem hoje insuficientes para traduzir a emoção que me acompanha? Talvez a resposta esteja na própria simplicidade da gratidão, nessa capacidade de reconhecer que nenhuma conquista literária, nenhum reconhecimento público e nenhuma realização pessoal substituem a alegria de perceber que somos lembrados com afeto e que, para além dos livros publicados e dos caminhos profissionais percorridos, permanecem as relações humanas que dão verdadeiro sentido à nossa passagem pelo mundo.

Quero agradecer especialmente àqueles que acompanham meus escritos, que encontram nas minhas crônicas alguma identificação com suas próprias experiências, que recebem meus poemas como quem acolhe uma confidência e que participam, através da leitura, dessa conversa permanente que mantenho com a vida. Um escritor pode passar horas diante de uma página procurando a palavra exata, atravessar noites perseguindo uma imagem, interrogar seus próprios sentimentos e entregar ao mundo aquilo que conseguiu transformar em linguagem, mas é no encontro com o leitor que sua escrita descobre novas possibilidades de existência, porque cada pessoa que lê acrescenta ao texto alguma coisa da sua própria história e permite que a literatura continue respirando para além das mãos que a escreveram.

Aos amigos de infância, aos companheiros de juventude, às amizades construídas ao longo da vida, aos colegas de profissão, aos que chegaram através das redes sociais e aos que me acompanham silenciosamente, deixo minha gratidão mais sincera. Não estabeleço diferenças entre a mensagem longa e a saudação breve, entre o comentário elaborado e a simples curtida, porque compreendo que o afeto possui muitas maneiras de se manifestar e que cada pessoa oferece aquilo que seu coração encontra como forma de expressão. Todos esses gestos chegaram até mim como pequenas luzes acesas numa mesma paisagem, compondo uma claridade que tornou este 17 de outubro particularmente inesquecível.

Existe uma beleza muito especial em perceber que o tempo, embora transforme tantas coisas, não consegue retirar de nós a capacidade de despertar e receber ternura. Pelo contrário, quanto mais caminhamos, mais compreendemos que os sentimentos verdadeiros constituem uma espécie de patrimônio invisível, construído sem escrituras, sem fronteiras e sem qualquer necessidade de reconhecimento material, porque sua riqueza reside justamente na liberdade com que são oferecidos. E hoje me senti cercado por essa riqueza, envolvido por uma corrente de amizade que atravessou distâncias, aproximou pessoas e fez da minha página uma extensão generosa dos abraços que a vida me concedeu.

Não gostaria que este agradecimento fosse entendido apenas como uma formalidade ao encerramento de uma data comemorativa, porque aquilo que recebi merece permanecer muito além das horas deste aniversário. Quero guardar cada manifestação de carinho como quem conserva uma flor entre as páginas de um livro especialmente querido, não para impedir que o tempo continue seu curso, mas para preservar a beleza de um instante que passou a fazer parte da nossa história. E desejo, sobretudo, que a ternura que hoje chegou até mim encontre também o caminho de volta para cada pessoa que a ofereceu, multiplicada em saúde, serenidade, alegria, amor e razões para continuar acreditando na generosidade da vida.

A noite já se aproxima, e com ela chega a hora de recolher as emoções deste dia, mas não encontro em mim qualquer sentimento de encerramento, porque a gratidão não termina quando o calendário muda de data, assim como a amizade não depende da permanência de uma celebração para continuar existindo. O que levo deste aniversário é a certeza de que ainda existem muitas razões para acreditar na beleza humana, muitos afetos que resistem à passagem dos anos e uma imensa comunidade de corações generosos que hoje me fizeram sentir, de maneira particularmente intensa, o privilégio de estar vivo.

A cada pessoa que escreveu, comentou, compartilhou, telefonou, enviou mensagens pelo WhatsApp, pelo Messenger ou pelo Instagram, e também àqueles que simplesmente curtiram minhas publicações ou deixaram uma reação carinhosa, quero dizer que nenhum desses gestos me pareceu pequeno. Todos chegaram ao lugar onde guardo aquilo que considero verdadeiramente precioso, e todos contribuíram para transformar este aniversário numa dessas experiências que não precisam de grandes acontecimentos para permanecerem entre as mais bonitas da nossa existência.

Se pela manhã anunciei que continuava apaixonadamente vivo, agora, quando este 17 de outubro se despede, descubro mais uma razão para permanecer assim: a extraordinária beleza de saber que minha vida encontra acolhimento, amizade e ternura em tantos outros corações.

A todos vocês, minha gratidão mais profunda, meu carinho mais sincero e o abraço generoso de quem termina este aniversário com a alma iluminada.

Porque hoje não recebi apenas felicitações. Recebi a confirmação de que o afeto, quando é verdadeiro, transforma a passagem do tempo numa celebração da própria vida.

Flávio Chaves

Recife, 17 de outubro de 2026.

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