Carta a Carlos Lapa
Carlos Lapa, o amigo de uma vida inteira
Carlos Adílson Pinto Lapa nasceu no Recife, em 7 de dezembro de 1944, e construiu uma trajetória de dedicação à vida pública de Pernambuco. Foi prefeito de Carpina e, em 1986, elegeu-se deputado estadual, chegando a vice-presidente da Assembleia Estadual Constituinte de 1989, a Casa Joaquim Nabuco, onde atuou até 2003. Foi também suplente de deputado federal, tendo exercido mandato na Câmara dos Deputados.
Mais do que os cargos, o que se destaca é o jeito: uma liderança reconhecida pela cordialidade, pela disposição ao diálogo e pelo respeito às pessoas, com trajetória lembrada com carinho por quem conviveu com ele. Ao lado da esposa, Graça Lapa, ex-prefeita de Tracunhaém, construiu uma família — é pai da ex-deputada estadual Ana Carla Lapa, e manteve amizades que atravessaram décadas, como a que dá origem à carta a seguir.
Abaixo, a homenagem do médico e amigo Edson Moura
Por Edson Moura
Meu querido amigo Carlos Lapa,
Ao recordar nossa caminhada, sinto uma grande alegria por ter conhecido você e construído uma amizade que atravessou os anos. Nossa convivência começou quando integrávamos uma bancada forte na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Compartilhávamos o compromisso de exercer nossos mandatos com responsabilidade e respeito aos interesses da população pernambucana.
Foi naquele ambiente de trabalho, debates e decisões que nossa amizade nasceu. Aos poucos, fomos nos conhecendo melhor, compartilhando ideias, conversando sobre a vida e descobrindo afinidades que permaneceram muito além da atividade parlamentar.
Nessa lembrança, há um lugar especial para o deputado federal Sérgio Guerra, nosso mentor intelectual. Sua inteligência e sua visão política nos ajudavam a dar direção ao trabalho e a refletir sobre nossas responsabilidades com Pernambuco. Mas Sérgio também era uma pessoa muito boa, alegre e brincalhona, que tornava nossa convivência mais agradável.
Uma das lembranças que mais me fazem sorrir é a curiosidade dele para descobrir sua idade. Você, sempre vaidoso, com o cabelo preto e aquela aparência jovem, despertava as brincadeiras de Sérgio. Ele lutava desesperadamente para descobrir quantos anos você tinha e queria saber o que fazia para continuar tão novo. Aquelas conversas rendiam boas risadas e ficaram guardadas na minha memória.
Nossa amizade também cresceu nas viagens. Recordo com carinho nossa ida a Nova York e Orlando. Nessa viagem estavam também Sérgio Guerra e João Boiadeiro, secretário de Agricultura do governador Miguel Arraes. Sérgio seguiu para Miami e depois voltou ao Brasil. Foram momentos de conversas, passeios e brincadeiras, nos quais tivemos a oportunidade de conviver sem a pressa e as obrigações do cotidiano parlamentar.
Guardo dessas viagens a lembrança do seu bom humor, da sua alegria e do prazer que era estar em sua companhia. Além do interesse comum por Pernambuco, havia entre nós uma amizade que se fortalecia nas coisas simples: uma conversa, uma brincadeira, uma experiência compartilhada.
Depois, a vida foi conduzindo cada um por outros caminhos. Eu me afastei da política porque não tinha condições financeiras de continuar e porque preferi dedicar minhas forças à medicina, profissão à qual entreguei a maior parte da minha vida. Você também, posteriormente, se afastou da vida parlamentar. Os mandatos passaram, mas nossa amizade permaneceu.
Cada um construiu sua família, criou seus filhos e enfrentou as responsabilidades da vida. Hoje, ao olhar para trás, reconheço o valor dessas histórias e das pessoas que estiveram ao nosso lado. Você faz parte das minhas boas lembranças e ocupa um lugar de carinho na minha trajetória.
Com o passar dos anos, vieram também os problemas de saúde. Eu enfrento minhas dificuldades cardíacas, pulmonares e o diabetes. Você enfrenta seus próprios desafios, entre eles a rotina da hemodiálise, três vezes por semana, durante quatro horas a cada sessão.
Como médico e como amigo, sensibiliza-me pensar no que essa rotina exige de você. São muitas horas de tratamento, semana após semana, que pedem paciência e disposição para continuar.
Lembro de quando lhe perguntei se não gostaria de considerar um transplante renal. Você me respondeu que, aos 81 anos, preferia continuar com o tratamento e seguir sua caminhada daquela maneira. Ouvi sua resposta com respeito e carinho, reconhecendo sua vontade e a maneira como escolheu enfrentar essa etapa.
Hoje, mais do que os cargos que ocupamos, valorizo a amizade que construímos. Penso no amigo alegre e brincalhão, nas viagens que fizemos e nas conversas que tivemos. Recordo Sérgio tentando descobrir sua idade, seu cabelo preto, sua vaidade e as risadas que compartilhávamos.
Meu querido Lapa, quero lhe dizer de maneira simples e sincera: gosto muito de você. Sou grato pela nossa convivência e por tudo de bom que ela deixou em minha vida.
Que Deus lhe dê força para enfrentar o tratamento, serenidade nos dias difíceis e muitas alegrias junto à sua família. Que ainda possamos conversar, recordar nossas histórias e rir das brincadeiras daquele tempo. Sua amizade continua sendo motivo de carinho e gratidão para mim.
Receba um abraço afetuoso do seu amigo, Edson Moura.
FONTE: Folha de Pernambuco
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