O que a mão não conseguiu dizer. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – O homem puxa a gaveta que permaneceu fechada durante anos, e a madeira oferece uma resistência que ele poderia vencer com um gesto mais firme, embora prefira insistir devagar, poupando alguma coisa que ainda não saberia nomear, até que os papéis aparecem, sobrepostos na desordem de uma vida que, em certo momento, precisou ser retirada dos olhos para que os dias continuassem. Reconhece a carta antes de tocar nela, pela dobra desigual, pela pequena mancha junto à borda, por essa intimidade com que certos objetos nos devolvem a uma circunstância inteira quando julgávamos conservar deles apenas uma recordação imprecisa. Segura a folha pelas extremidades e demora a abri-la; durante tanto tempo acreditara saber o que estava escrito ali que agora lhe custa admitir o receio de encontrar alguma coisa que a primeira leitura não lhe permitiu compreender.
A letra começa apertada, quase sem conceder passagem entre uma palavra e outra, e vai se alargando à medida que ocupa o papel, embora em alguns pontos recue, emende uma curva, deixe um traço suspenso sobre o qual a mão parece ter voltado com maior pressão. Ele acompanha essas pequenas alterações com uma atenção que não teve quando recebeu a carta, ocupado demais, naquele tempo, em procurar uma resposta que pudesse aceitar. Agora se detém diante de um intervalo antes de uma palavra, um espaço um pouco maior que os outros, e tenta imaginar o que terá feito a mão parar naquele lugar: o esforço de escolher, o temor de ferir, talvez um ruído vindo da rua, alguma ocorrência simples que sua saudade, inclinada a encontrar sinais em tudo, gostaria de transformar em confidência. Não pode saber, e essa impossibilidade o aproxima de quem escreveu de uma maneira estranha, porque pela primeira vez lhe permite existir fora das razões que ele próprio lhe atribuiu.
Lê a frase uma vez, com a entonação que lhe deu durante anos, e reconhece a antiga dureza, aquela certeza com que a repetiu para si mesmo até já não precisar do papel; depois torna a lê-la, demora numa palavra que antes atravessava depressa, deixa outra perder o peso que sempre lhe impôs, e alguma coisa se altera sem que uma única letra tenha saído do lugar. Incomoda-o perceber quanto de sua própria voz depositou naquela escrita, quantas vezes chamou de intenção alheia o que talvez fosse a continuação de uma conversa travada sozinho. A carta permanece diante dele, com seus limites, suas afirmações, aquilo que efetivamente foi dito, mas já não se oferece com a mesma facilidade à sentença que a memória havia preparado.
Seria cômodo descobrir agora uma declaração escondida, fazer daquele intervalo a prova de um sentimento que o tempo não conseguiu extinguir, e ele sente a tentação de avançar por esse caminho, de conceder à hesitação o significado que mais o favorece. Permanece, porém, diante da folha, suportando o que nela continua sem resposta, porque conhece o preço de alimentar uma esperança com palavras que ninguém pronunciou. O que o comove é pensar na mão viva sobre o papel, no instante em que ainda podia riscar, substituir, desistir da frase, antes de entregá-la a alguém que a receberia com toda a desordem de seus próprios sentimentos. Entre esses dois gestos, escrever e ler, coube uma distância que ambos talvez desconhecessem, embora estivessem tão próximos que poderiam ter estendido os braços.
Quando chega ao nome, o polegar procura o vinco, obedecendo ao hábito de dobrar a folha e devolver cada coisa ao lugar onde deixou de incomodar. Ele interrompe o movimento e alisa o papel sobre a mesa, com cuidado para não ceder à vontade de apagar as marcas. A tarde avança enquanto relê a última linha, agora sem exigir que ela o absolva ou lhe restitua o que perdeu, e só então percebe quanto tempo passou defendendo uma interpretação que lhe permitia continuar magoado sem voltar a perguntar. A gaveta permanece aberta, mas a carta ficará ali. Ainda precisa aprender a ler aquela frase sem levantar a própria voz sobre a mão de quem a escreveu.
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