A eleição dos 33 milhões que ficaram em casa
Lula ocupa as ruas, Flávio combate o clima de “já ganhou” e segundo turno transforma a abstenção numa das maiores reservas de votos da eleição presidencial
Mais de 33 milhões de brasileiros aptos a votar não compareceram às urnas no primeiro turno da eleição presidencial, uma multidão superior à população inteira de muitos países e suficientemente numerosa para modificar qualquer cálculo construído a partir do resultado de 4 de outubro. Quando Lula e Flávio Bolsonaro voltam às ruas, convocam militantes, reorganizam alianças e procuram conquistar eleitores que escolheram outros candidatos, existe uma terceira força silenciosa atravessando toda a campanha: o brasileiro que não votou e que, no próximo dia 25, poderá decidir sair de casa.
É justamente por isso que o segundo turno começa a adquirir uma natureza diferente daquela percebida imediatamente depois da abertura das urnas. Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa na frente, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%, mas essa vantagem, embora politicamente importante, não permite que nenhuma campanha trate a eleição como encerrada. Entre o resultado do primeiro domingo e a votação definitiva existe um território eleitoral enorme, composto não apenas pelos eleitores dos candidatos derrotados, mas também por milhões de pessoas que simplesmente não participaram da primeira escolha.
O Tribunal Superior Eleitoral registra que mais de 158,7 milhões de brasileiros estavam aptos a votar e aproximadamente 125,2 milhões compareceram às urnas, o equivalente a quase 79% do eleitorado. A diferença ajuda a explicar por que Lula e Flávio estão dedicando tanta energia à mobilização: convencer parte dos ausentes a votar pode ser eleitoralmente tão importante quanto arrancar votos diretamente do adversário. E existe um detalhe que as campanhas conhecem perfeitamente: a ausência no primeiro turno não impede ninguém de participar do segundo. Cada turno é considerado uma eleição independente pela Justiça Eleitoral.
A campanha de Lula decidiu enfrentar essa matemática com ocupação das ruas.
No domingo, 11 de outubro, uma grande manifestação favorável à reeleição do presidente ocupou parte significativa da Avenida Paulista, em São Paulo, enquanto mobilizações semelhantes eram realizadas em dezenas de cidades brasileiras. Segundo os organizadores, ocorreram atos em 76 municípios, incluindo Recife, onde manifestantes partiram da região do Parque 13 de Maio em direção ao Marco Zero. Nesta segunda-feira, 12 de outubro, a mobilização continuou no Rio de Janeiro, onde apoiadores de Lula ocuparam vários quarteirões da Avenida Atlântica, em Copacabana.
Não é difícil compreender a estratégia.
Lula precisa transformar presença nas ruas em voto, recuperar entusiasmo entre setores de sua própria base e principalmente criar entre os eleitores que não compareceram ao primeiro turno a sensação de que a disputa permanece aberta. Sua campanha também procura ampliar a participação dos jovens, segmento ao qual o próprio presidente dedicou boa parte de seu discurso na manifestação da Paulista, reconhecendo dificuldades de comunicação e pedindo maior envolvimento político dessa parcela do eleitorado.
Flávio Bolsonaro enfrenta problema diferente, mas igualmente perigoso.
Quem começa o segundo turno na frente precisa ampliar sua vantagem sem permitir que a própria condição de favorito transforme entusiasmo em acomodação. Por isso, enquanto Lula tenta produzir uma atmosfera de reação e virada, Flávio procura convencer seus aliados de que a eleição ainda precisa ser vencida. Em encontro com lideranças políticas, pediu mobilização e advertiu contra o sentimento de “já ganhou”, uma expressão simples que revela talvez o maior receio de qualquer campanha que larga na dianteira: o eleitor imaginar que seu voto deixou de ser necessário justamente porque acredita na vitória do candidato que prefere.
A abstenção, portanto, deixou de ser apenas uma estatística registrada depois da eleição e passou a integrar a estratégia antes dela.
Esse fenômeno modifica a própria natureza da disputa. Num cenário em que as preferências por Lula e Flávio já estão fortemente cristalizadas entre grandes parcelas da população, conquistar alguém que passou anos rejeitando um dos dois campos pode ser muito mais difícil do que convencer um simpatizante desmobilizado a comparecer à urna. O eleitor ausente não representa necessariamente neutralidade política. Pode ser alguém que possui preferência, mas não votou por desânimo, dificuldade logística, descrença, distância do local de votação ou simplesmente porque considerou que seu comparecimento não faria diferença.
É exatamente essa percepção que as campanhas tentarão destruir nas próximas duas semanas.
Lula precisa convencer seus eleitores de que existe uma virada possível e de que cada ausência facilita a vitória do adversário. Flávio precisa convencer os seus de que a vantagem do primeiro turno não é uma garantia e de que deixar de votar significa colocar em risco um resultado que parecia próximo.
Os dois candidatos, portanto, trabalham sentimentos opostos para chegar ao mesmo objetivo.
Um precisa alimentar esperança.
O outro precisa impedir acomodação.
Mas ambos precisam produzir presença.
As ruas ocupadas pelos apoiadores de Lula revelam essa tentativa de transformar mobilização social em energia eleitoral, enquanto o esforço de Flávio para acionar governadores, prefeitos, parlamentares e lideranças regionais procura criar uma estrutura capaz de preservar e ampliar os votos obtidos no primeiro turno. A eleição passa a ser disputada município por município, bairro por bairro, grupo de WhatsApp por grupo de WhatsApp, numa guerra de convencimento em que o adversário nem sempre é o candidato do outro lado.
Muitas vezes é a indiferença.
Esse talvez seja o elemento mais importante para compreender o segundo turno de 2026. A polarização costuma produzir a impressão de que praticamente todo brasileiro já escolheu um lado e que a campanha consiste apenas em descobrir qual deles possui alguns pontos percentuais a mais. Os números do primeiro turno mostram uma realidade mais complexa: dezenas de milhões de eleitores permaneceram fora da votação, formando uma espécie de país eleitoral invisível que agora passou a ser procurado pelos dois candidatos.
Não significa que esses 33 milhões comparecerão em 25 de outubro, muito menos que formarão um bloco político homogêneo. Seria incorreto tratá-los dessa maneira. Entre eles existem eleitores de direita, esquerda, centro, pessoas politizadas e outras completamente afastadas da campanha.
Mas basta que uma parcela se movimente de maneira diferente para alterar a eleição.
É por isso que carreatas, caminhadas, manifestações, encontros com lideranças e ofensivas digitais não devem ser observados apenas como demonstrações de força destinadas às câmeras. Existe uma operação eleitoral por trás das imagens. Cada campanha procura produzir a impressão de movimento, porque movimento chama movimento, entusiasmo combate desânimo e a percepção de que uma eleição ainda está viva pode levar até a urna quem anteriormente decidiu permanecer em casa.
As próximas pesquisas mostrarão se essa estratégia começa a produzir alterações nas intenções de voto, mas existe algo que nenhuma pesquisa consegue determinar com absoluta segurança semanas antes da votação: quem realmente comparecerá.
E talvez seja justamente nessa pergunta que esteja escondido o resultado.
O Brasil conhece os votos que Lula recebeu.
Conhece os votos que Flávio Bolsonaro recebeu.
Conhece também a distância que separou os dois no primeiro turno.
O que o país ainda não conhece é o voto de milhões de brasileiros que naquele domingo não entraram numa cabine eleitoral.
No dia 25 de outubro, a eleição presidencial poderá ser decidida não apenas por quem mudou de candidato.
Poderá ser decidida por quem mudou de ideia sobre ficar em casa.
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