A primeira-dama que virou problema: rejeição a Janja explode e vira “fogo amigo” na campanha de Lula

Com 60% de imagem negativa e 52% de desaprovação à sua atuação no governo, Janja se torna alvo até dentro do próprio PT. A pressão para que ela reduza o protagonismo e dê espaço a Alckmin revela o tamanho do desgaste que a primeira-dama impõe à reeleição de Lula.

A influência de Janja no governo e na campanha de Lula deixou de ser um tema restrito aos bastidores do Palácio do Planalto. Pesquisas recentes escancaram o que aliados do presidente já admitiam em reserva: a primeira-dama se tornou um dos nomes mais rejeitados da política nacional, e esse desgaste começa a cobrar seu preço eleitoral.

Segundo levantamento da Latam Pulse divulgado em março de 2026, 60% dos brasileiros têm uma visão negativa de Janja, índice que a coloca entre as figuras mais rejeitadas do país, atrás apenas dos presidentes da Câmara e do Senado. Já a pesquisa PoderData de junho apontou que 52% dos entrevistados desaprovam a atuação da primeira-dama no governo federal, sendo a rejeição ainda mais expressiva entre jovens de 16 a 24 anos (61%), pessoas com ensino superior completo (72%) e moradores da região Sul (70%).

O problema não é apenas externo. Dentro do próprio PT, a presença cada vez mais frequente de Janja em comícios, agendas e reuniões de coordenação passou a ser tratada como um fator de desgaste. Após o primeiro turno das eleições de 2026, no qual Lula terminou atrás de Flávio Bolsonaro (PL), as críticas internas se intensificaram. Petistas passaram a considerar a primeira-dama “inconveniente” e a afirmar que ela “se mete em tudo”.

O episódio que expôs a crise

O estopim veio na reunião da cúpula do PT em Brasília, em 6 de outubro. A ex-senadora Kátia Abreu (PT-TO), coordenadora da campanha no Tocantins, fez a declaração mais aplaudida do encontro: “Menos Janja e mais Alckmin”.

A fala não foi um caso isolado. Em entrevista ao Globo, Kátia Abreu foi direta ao questionar o papel da primeira-dama: “Qual é a prioridade: aparecer ou eleger o marido?”. A ex-senadora defendeu que o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) deveria ter mais espaço por sua capacidade de diálogo com o centro, empresários e o mercado financeiro, setores que Lula precisa conquistar para reverter o quadro eleitoral.

A reação de Janja foi imediata. Em mensagem de texto enviada a Kátia Abreu, a primeira-dama afirmou que não vai aparecer menos na campanha por decisão do “meu marido”, ou seja, do próprio Lula. A assessoria de Janja reforçou que “independentemente do que falem, Janja seguirá na campanha” e que sua participação é “legítima e sempre respaldada pelo presidente”.

O peso da rejeição

O que preocupa aliados de Lula é que a rejeição de Janja supera a do próprio presidente fora da esquerda, segundo institutos de pesquisa. A campanha, no entanto, ainda aposta na primeira-dama como instrumento para engajar eleitoras, uma estratégia que setores do partido consideram arriscada diante do alto índice de desaprovação.

A insatisfação interna vai além da questão eleitoral. Relatos de aliados indicam que Janja interfere em decisões de campanha, decide quem sobe nos palanques e nos carros de som, e até mesmo controla o acesso de informações ao presidente. “O problema é que todo mundo tem medo da Janja. Muito medo. E não sabe como dizer isso ao presidente”, revelou uma liderança próxima a Lula ao Estado de Minas.

O que está em jogo

A discussão sobre o papel de Janja não é apenas sobre gênero ou sobre o direito da primeira-dama de participar da campanha do marido. Trata-se de uma avaliação pragmática sobre o que funciona e o que não funciona numa eleição que Lula não pode se dar ao luxo de perder. Como resumiu Kátia Abreu, “se alguém está exorbitando negativamente num processo eleitoral, ele precisa ser chamado”.

O próprio PT já deu sinais de que a pressão surtiu efeito: a campanha decidiu reduzir a exposição de Janja no segundo turno e ampliar a presença de Alckmin. Resta saber se a medida chegará a tempo de evitar que a rejeição da primeira-dama continue a contaminar a candidatura do presidente.

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