O reinado das pequenas horas. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – A luz estava baixa sobre o vale quando desci à varanda com a lata de verniz e o pincel de cerdas macias, decidido a devolver ao portão do jardim a cor que o verão lhe toma ano após ano, e foi nesse intervalo exato, entre o fim do azul e o primeiro poste aceso na ladeira, que Nerivaldo atravessou a rua com o chapéu na mão e o sorriso que eu já tinha visto em outras cidades, em outros anos, em rostos diferentes, o sorriso de quem chega trazendo um presente e deixa no ar, sem perguntar em voz alta, o preço do embrulho.
Pedi que entrasse. Conheço essa espécie de visita como conheço uma dobradiça velha: por dentro, pela marca que deixa no ferro. Nerivaldo elogiou o banco de trabalho, disse que oficina bem cuidada é sinal de homem de palavra, cumprimentou a figueira, aceitou o café que lhe servi sem que pedisse, e só então pôs a proposta na mesa, embrulhada na seda mais gentil: uma rede de hotéis queria duzentas peças em três meses, o contrato pedia exclusividade, o nome do cliente ele revelaria no ato da assinatura, e tudo aquilo, acrescentou passando a mão no tampo de cedro que eu tinha lixado pela manhã, era uma chance que ele próprio insistira em me conseguir, porque acreditava no meu talento, porque éramos amigos de longa data, porque o mundo gira melhor quando a gente ajuda a girar. Enquanto falava, consultou o relógio duas vezes, mediu o ateliê com o olhar de quem calcula o que cabe dentro dele e deixou suspensa uma pausa calibrada, posada exatamente no lugar em que a minha resposta devia nascer. As gentilezas dele tinham um livro-caixa escondido por trás, e eu aprendi a ler essas contas na mesma estação em que aprendi a ler veio e fibra na madeira: a gentileza que chega com nota de rodapé é um contrato, e contrato se lê inteiro antes da assinatura, inclusive a parte escrita no silêncio.
Agradeço a estima, Nerivaldo, disse eu, servindo-lhe mais café, e agradeço a visita também. Faço as minhas peças no meu tempo, entrego a quem eu escolher, e prefiro que o nome do cliente chegue antes da exclusividade e depois da mesa, que é onde ele sempre sentou. Se um dia voltar sem pressa nenhuma no corpo, o café continua o mesmo e a porta também. Ele riu como ri quem perde uma jogada mas anota o endereço, apertou a minha mão com força de quem guarda um número, despediu-se com elegância e desceu a ladeira ajustando o chapéu contra o vento que a noite trazia do rio. Não guardei dele nem o gosto do rancor nem a sombra do medo. O lobo se reconhece pelo rastro, e reconhecer é trabalho que se faz em silêncio, com atenção e sem ódio, como se escolhe a ferramenta certa no meio de outras ferramentas, cada uma servindo para aquilo que serve.
Fiquei na varanda depois que ele sumiu na curva, e o pensamento veio com a calma das coisas que já pensaram muito antes de serem pensadas. Reinos, os meus, são pequenos, e não penso em ampliá-los: reino sobre o que a minha mão decide fabricar, sobre a admiração que escolho distribuir, sobre a porta que se abre e a que se fecha, sobre a palavra que dou e a que guardo. Para quem sonha com impérios, isso é quase nada; para quem já viu gente entregar um país inteiro em troca de um abraço com cláusula de exclusividade, isso é um território inteiro. A atenção que dedico aos rastros é a mesma que dou ao tempo de secagem do verniz, necessária, técnica, e minúscula diante do que a obra inteira continua pedindo, porque a vida de um homem é maior do que a vigilância que empresta aos lobos, maior até do que a soma de tudo o que eles poderiam tomar.
Anastácia chegou quando as estrelas faziam fila sobre o vale. Luthier de Recife, alugara há um mês a casa azul do outro lado da rua para restaurar os instrumentos da orquestra, e a nossa amizade nasceu na padaria da esquina, quando ela me pediu emprestada a serra de banco para raspar um bordo teimoso e eu pedi em troca que me ensinasse por que toda madeira de violino parece pronta para cantar. O jantar tinha sido ideia dela, proposta com a franqueza de quem não pede licença alheia para desejar, e ela subiu a ladeira com uma garrafa debaixo do braço e o violino no estojo, entrou pelo portão que eu tinha acabado de envernizar, olhou o brilho, olhou a mim e disse que a casa estava ficando bonita por fora e por dentro, nessa ordem, e riu antes de eu poder rir. Servi figos do quintal, queijo de Minas, o pão que eu tinha feito para a ocasião, e ela falou do som adormecido dentro da madeira, do tempo que uma tampa leva para aceitar a forma que o luthier impõe, da paciência como matéria-prima, e eu percebi que estava diante de alguém que governava o próprio ofício com o mesmo cuidado com que eu governava as minhas horas, e essa descoberta me encantou mais do que qualquer elogio que já recebi em vida.
Depois do prato, ela destampou o violino e afinou-o contra o barulho leve da rua, e quando o primeiro arco atravessou a primeira nota o cão do vizinho parou de latir no meio do latido e sentou-se a escutar, o que fez de Anastácia, nas minhas contas, a dona do cão mais culto da ladeira. Tocou algo que ela chamou de modinha sem nome, inventada na viagem, e o vale lá embaixo recebeu a música como recebe a chuva, sem discutir a direção. A mão dela procurou a minha sobre o tampo da mesa, ou foi a minha que procurou a dela, e a verdade é que a distância entre as duas mãos tinha virado, naquela hora, uma decisão tomada por quatro. Bebemos o vinho devagar, rimos das nossas manias de oficina, e a noite foi crescendo no tamanho exato da nossa vontade.
Quinta-feira eu volto para Recife, disse ela ao me ajudar a levar as xícaras para a cozinha, o ateliê está cheio de encomenda e o meu tempo tem dona, e a dona sou eu. Gosto de partir quando a coisa está boa, assim a coisa boa fica boa na memória e sobra vontade de voltar. Então nós dois guardamos as coisas do mesmo jeito, respondi, e ela riu com o riso de quem entende a metade do que foi dito e aprova a metade inteira. Nenhum de nós pediu ao outro o resto da vida, e a noite valeu exatamente o tamanho que teve, que era o tamanho de uma noite inteira, o que, já o digo por experiência, é um dos maiores tamanhos que uma noite consegue ter.
Acompanhei-a até o portão, e ela desceu a ladeira com o estojo às costas, parando duas vezes para olhar o vale de cima, e eu fiquei na porta o tempo que leva uma boa despedida curta, a de quem sabe que o mundo é redondo e que as padarias da esquina existem para essas coisas. Voltei ao portão com a lata ainda pela metade e terminei o serviço à luz do poste, passei a última mão de verniz no sentido da fibra, com aquela atenção tranquila que se dá ao que se faz bem feito e sem testemunha, e o cheiro do verniz se deitou sobre o cheiro do jasmim como um gato em cima de outro gato, estranho e manso. Lá embaixo, a cidade continuava acendendo as suas luzes uma por uma, do jeito que acende todas as noites, sem pedir que ninguém a admire, e a casa, lá em cima, segurava o seu pequeno reino de tábuas, ferramentas, figos e horas. Quando entrei, deixei o portão aberto no ângulo de sempre, encostado no jasmim, porque um portão recém-pintado é uma coisa que ainda está acontecendo, e eu tinha vontade de deixar a noite continuar acontecendo um pouco mais antes de fechar o meu dia.
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