Dentro de mim, a velha Matriz continua inteira, Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – Volto muitas vezes, pela força misteriosa da memória, à Praça de São José de minha infância, quando Carpina ainda cabia inteira dentro dos meus olhos e eu não sabia que as cidades também envelhecem, sofrem mutilações, perdem partes de si mesmas e, mesmo continuando de pé nos mapas, nas placas e nos documentos, podem deixar de reconhecer o próprio rosto. Eu brincava por aquelas ruas com os amigos, conhecia as casas, reconhecia as famílias, sabia de cor os caminhos da praça e tinha diante de mim a antiga Igreja Matriz de São José como uma presença natural, quase inseparável daquele chão, como se tivesse nascido junto com a cidade e como se ninguém pudesse imaginar que um dia ela deixaria de existir.
Aquela igreja não fazia parte apenas da paisagem de minha infância, porque pertencia também à minha própria história. Foi ali que fui batizado e foi ali que recebi a crisma, e por isso aquelas paredes, aquelas portas, aquela arquitetura e aquele espaço possuíam para mim uma intimidade que eu ainda não sabia explicar. Naquele tempo, certas coisas eram vividas antes de serem compreendidas, e a fé, a família, a praça, os amigos, a igreja, as casas próximas e os caminhos repetidos formavam uma espécie de tecido contínuo em que a vida seguia sem que eu percebesse que um dia precisaria recorrer à memória para reencontrar aquilo que estava diante de mim.
Recordo especialmente um fim de manhã, quando a luz já se aproximava do meio dia e deixava a praça clara, aberta, quase sem sombras. Foi então que vi Edilma, prima de Dione, Selma, Abelardo e de outros daquela família conhecida que morava nas proximidades da Praça de São José, diante de um cavalete voltado para a antiga Matriz. Ela pintava a igreja, e eu me aproximei por curiosidade, como faz um adolescente que interrompe por alguns minutos as brincadeiras para observar alguma coisa diferente acontecendo no território familiar de seus dias.
Não sei quanto tempo fiquei ali, porque a memória raramente conserva os minutos com a mesma fidelidade com que guarda certas imagens, mas daquela manhã permaneceu em mim, com uma nitidez que ainda hoje me surpreende, o cavalete colocado diante da Matriz, quase como uma pequena sentinela de madeira voltada para aquela arquitetura que ainda estava inteira, bela e viva na paisagem da cidade. Edilma pintava, eu observava e a igreja permanecia diante de nós, imóvel, familiar, incorporada à praça de tal maneira que parecia impossível imaginá-la ausente daquele lugar.
Foi naquele instante, sem que eu soubesse explicar por quê, que alguma coisa me entristeceu. Eu não conhecia ainda as palavras patrimônio, preservação, memória urbana ou identidade histórica, não compreendia que uma cidade também é formada pelos edifícios que testemunharam a passagem das gerações, pelas praças onde as pessoas se encontraram, pelas fachadas que acompanharam infâncias inteiras, pelas igrejas onde famílias celebraram batismos, crismas, casamentos, despedidas e tantos outros momentos silenciosamente depositados dentro das paredes. Eu apenas sentia, e hoje penso que talvez o olhar tivesse compreendido antes da razão.
A antiga Matriz seria demolida, e sua ausência acabaria abrindo dentro de mim uma ferida que os anos não fecharam. Pelo contrário, o tempo apenas me deu instrumentos para entender melhor aquilo que eu senti sem saber nomear naquele fim de manhã, porque depois dela vieram outras perdas, outros pedaços de Carpina desapareceram, casas antigas deixaram de existir, fachadas foram modificadas, construções de valor histórico cederam lugar ao novo, ao moderno, ao urgente, ao conveniente, e a cidade foi perdendo, pouco a pouco, partes importantes daquilo que lhe dava rosto, continuidade e identidade.
Não penso que uma cidade deva permanecer imóvel, porque nenhuma cidade verdadeira sobrevive congelada no tempo e viver também significa transformar-se, mas existe uma diferença profunda entre crescer e apagar, entre renovar e destruir, entre acrescentar novas páginas à história e arrancar as anteriores como se jamais tivessem importância. O problema começa quando o novo exige a eliminação sistemática do que veio antes, quando a modernização se torna uma espécie de máquina sem retrovisor e quando a pressa do presente não reconhece o valor de conservar as marcas de uma cidade que já viveu outras épocas e que precisa dessas marcas para compreender a si mesma.
Uma cidade não é apenas o conjunto de ruas por onde circulamos, porque também é feita das lembranças que depositamos nessas ruas, dos encontros guardados nas esquinas, das conversas apoiadas nas calçadas, das tardes de infância que permanecem nas praças e das cerimônias que transformam uma igreja em parte da biografia de uma pessoa. O espaço físico e o espaço afetivo acabam se tornando uma só coisa, e é por isso que certas demolições provocam dores que nenhum cálculo urbanístico consegue medir.
Quando um edifício histórico desaparece, não perdemos apenas tijolos, madeira, portas, altares ou o desenho de uma fachada. Perdemos também uma espécie de testemunha, porque as novas gerações deixam de encontrar diante dos olhos aquilo que os mais velhos tentam contar com palavras, e quem viu passa então a carregar a responsabilidade de lembrar por aqueles que chegaram depois.
Talvez seja esse o destino de muitos de nós que conhecemos uma Carpina que quase não existe mais. Tornamo-nos guardiões involuntários de uma cidade invisível, feita de ruas antigas, casas desaparecidas, personagens que partiram, fachadas que mudaram e lugares que continuam vivos apenas porque alguém ainda consegue fechá-los dentro da memória e reconstruí-los com a força de um afeto que o tempo não conseguiu destruir.
Pergunto algumas vezes quanto de uma cidade pode ser destruído antes que ela deixe de reconhecer a si mesma, e não encontro uma resposta simples, porque uma cidade raramente perde sua memória num único gesto. O esquecimento costuma trabalhar devagar, primeiro desaparece uma casa, depois uma fachada, depois uma praça muda de feição, depois uma igreja é derrubada, e cada perda parece pequena quando observada sozinha, até que um dia percebemos que o conjunto inteiro se alterou e que aquilo que chamávamos de nossa cidade tornou-se outra coisa, ainda com o mesmo nome, ainda no mesmo lugar, mas já sem grande parte dos sinais pelos quais reconhecíamos a nossa própria história.
Minha dor pela antiga Matriz de São José talvez tenha sido a primeira consciência desse processo, porque não era somente a igreja que desaparecia. Era Carpina começando a perder um pedaço de si mesma, e havia em tudo aquilo algo ainda mais íntimo, porque eu também estava perdendo uma parte do cenário onde minha própria vida tinha começado. Ali fui batizado, ali fui crismado, naquela praça brinquei, por aquelas ruas caminhei com amigos e diante daquela igreja aprendi, sem perceber, que certos lugares entram dentro de nós e passam a compor aquilo que somos.
Quando eles desaparecem do mundo exterior, continuamos a procurá-los interiormente, e talvez seja por isso que eu escreva. Durante muito tempo pensei que minha relação com a escrita tivesse nascido apenas dos livros, das leituras, do jornalismo, das inquietações e das experiências acumuladas ao longo da vida, mas hoje desconfio que uma parte dela tenha nascido também daquela cidade perdida, da necessidade de impedir que determinadas coisas morram uma segunda vez.
Existe uma primeira morte, que acontece quando o edifício cai, quando a casa desaparece, quando uma praça se transforma por completo ou quando uma geração se vai, e existe outra morte ainda mais definitiva, que acontece quando ninguém mais se lembra. É talvez contra essa segunda morte que a escrita se levanta, não com a arrogância de vencer o tempo, mas com a esperança de conservar alguma coisa que o tempo tentou levar.
Por isso volto àquele fim de manhã e vejo novamente o cavalete diante da antiga Matriz de São José, vejo Edilma pintando, vejo o adolescente que eu era parado por alguns instantes, observando sem compreender inteiramente a força daquele momento. A igreja estava diante de nós, inteira, sob a claridade que antecedia o meio dia, ainda ocupando seu lugar na praça, ainda pertencendo à paisagem cotidiana de Carpina, e o cavalete permaneceu em minha memória como uma pequena sentinela voltada para aquela construção, talvez porque a própria lembrança tenha escolhido guardar exatamente essa imagem para me devolvê-la muitos anos depois, quando eu finalmente teria idade para compreender aquilo que o menino apenas sentiu.
Hoje sei que aquela cena continha uma lição, não aprendida numa escola nem encontrada num livro, mas recebida silenciosamente numa praça de minha cidade, uma lição sobre beleza, perda, pertencimento e memória. A velha Matriz já não ocupa o centro da Praça de São José, mas continua ocupando um lugar dentro de mim, e sua arquitetura ainda se ergue quando lembro, suas paredes retornam quando escrevo, a praça reaparece, os amigos voltam a correr pelas ruas e a luz daquele fim de manhã atravessa novamente a cena, como se por alguns instantes a memória conseguisse suspender aquilo que o tempo decidiu destruir.
Talvez seja esse o único poder que nos resta diante daquilo que não conseguimos impedir que fosse perdido, guardar o que vimos, contar o que vivemos e escrever aquilo que amamos antes que o esquecimento termine o serviço iniciado pelas demolições. Não sei por quanto tempo permanecerão vivas as lembranças daquela Carpina que conheci, mas enquanto eu puder transformar memória em palavra, uma parte dela continuará respirando, porque a igreja que a cidade deixou cair continua de pé onde nenhuma máquina alcança, onde nenhuma decisão administrativa consegue tocar e onde nenhuma reforma urbana possui força suficiente para apagá-la.
Dentro de mim, a velha Matriz continua inteira.
E enquanto minhas palavras encontrarem alguém disposto a lê-las, talvez ela também continue de pé dentro de outros.
Foto do acervo: Adelson Rodrigues
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