A esperança é um bicho que voa. Por Cícero Belmar
Coisas favoráveis são sempre bem-vindas. Então, que ela ficasse à vontade não só ali, na cadeira, mas em qualquer canto da casa. Gostei daquela visita surpresa. Esperança é coisa bacana, é crença no futuro, é certeza de que o melhor está por vir. Que venha, mesmo sendo a metáfora que voa!
Tive até vontade de cumprimentar, dar bom-dia, àquele inseto que é verde nas patas, no tórax, nas asas. Mas a esperança não entende português e de minha parte não sei falar com grilos. Ela ficou quietinha, as antenas longas a perscrutar o ambiente onde veio parar.
Naquele instante, sete da manhã, eu tinha que me organizar para sair. O horário do trabalho se aproximava. Parei o que escrevia no computador, fui tomar banho, trocar de roupa, comer alguma coisa e sair. Antes de abrir a porta, vi que o inseto continuava com suas pequenas garras firmes na extremidade da cadeira.
Aquele gafanhoto verde, que não tinha força para trazer felicidade nas asas, curiosamente, agregava em mim uma expectativa. Pensei, pode ser mera crendice, mas a esperança é sempre uma promessa. Era como se o fato de ela estar ali me anunciasse algo de bom para o dia.
Segui para meus compromissos e, no final da tarde, voltei, esquecido da esperança na sala. O dia transcorreu como qualquer outro, tudo igual e previsível. A única coisa que quebrava a rotina, naquele dia, era a presença do inseto. Pousado no mesmo lugar.
Parecia uma estátua verde, como quem dormia. Mesmo quietinha, constatei, despertava em mim um otimismo. Esperança é assim mesmo, seduz pela expectativa de realização das coisas que desejamos. Mais tarde, fui dormir.
No dia seguinte – bom dia, rotina –, fui direto à sala. Abri a janela, liguei o computador, como sempre faço, logo cedo. Sentei-me na cadeira para escrever qualquer coisa. Então, me dei conta de que a esperança não estava mais ali. Caiu da cadeira. Estava no chão, morta.
Pesquisei e descobri que alguns insetos, perto de completar o ciclo da vida, procuram um lugar tranquilo, onde apenas cumprem o tempo exato. Ficam como se perdessem a capacidade de voo. É a vida se cumprindo. No dia anterior, portanto, ela entrou pela janela não para me trazer felicidade ou me prometer algo. A esperança encontrou a janela aberta e seguiu em frente. Simples assim: ali era um lugar bom para morrer.
Resisti em levá-la ao lixo. Empurrei-a até a porta, fiquei olhando para o cadaverzinho, sem saber o que fazer com ele. Foi justamente nessa hora que minha vizinha, Suely, abriu a porta do seu apartamento. “Uma esperança morta?”, surpreendeu-se. Com cara de bobo, eu disse que estava com pena de pôr no lixo. Ela arrematou: “Realmente, esperança é bom, mesmo dessas que voam”.
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