A crônica domingueira. Por Magno Martins
Enraizado em Afogados da Ingazeira, chorei a perda de muitos amigos de infância para São Paulo, em debandada sob caminhões paus de arara, que só ouvia falar nos versos de Patativa do Assaré. Como a cena me comovia! A seca não nos matava de fome apenas. Matava também os nossos sentimentos, roubava companhias que nos faziam felizes.
Nas malas de cada irmão afogadense que desembarcava no Brás havia um manto de coragem e uma certeza: São Paulo saberia acolher a esperança deles. São Paulo parecia ter selado um pacto eterno com meus conterrâneos que davam adeus ao Pajeú: a cidade que oferecia o chão das oportunidades, para eles entregarem o coração do trabalho.
Resisti até o último pau de arara, mas três dos meus irmãos, não. Zeza, Ana e Marcelo, sei lá por quais razões, não se renderam ao apelo da terra da garoa. Preferiram o Rio de Janeiro, provavelmente embriagados pela canção de Gilberto Gil, do Rio que continua lindo e cheio de graça. O farol da esperança que acolheu a força e o sorriso deles só Vinicius de Moraes para explicar com a sua garota de Ipanema.
O tempo, o senhor da razão, foi me ensinando que São Paulo não poderia se perpetuar em minha vida como aquele retrato dolorido na parede e na alma de Drumond de Andrade. Comecei a admirar a capital paulista ouvindo Caetano Veloso. O cantor baiano eternizou o encontro das avenidas Ipiranga e São João. Com o “Trem das Onze”, Adoniran Barbosa também. Virou hino paulista, popularizando o bairro do Jaçanã, cujo famoso trem da música funcionou entre 1893 e 1965, ligando o centro da cidade à Cantareira.
Terra da Garoa, Selva de Pedra, Sampa, Paulicéia. São Paulo, a metrópole que nunca para, é um verdadeiro caldeirão de culturas, sabores e experiências. Com suas avenidas movimentadas, arranha-céus imponentes e uma cena artística vibrante, a cidade é um convite à exploração e às descobertas.
Lendo em bancos escolares ainda em Afogados da Ingazeira, descobri que o lema da cidade de São Paulo é Non ducor, duco, que significa “Não sou conduzido, conduzo”. O símbolo foi adotado oficialmente em 1888, e simboliza a história de liderança e iniciativa da cidade, que evoluiu de uma pequena vila para uma das maiores metrópoles do mundo.
Entre o inverno e a primavera a cidade se cobre de azaléia, que foi decretada a flor–símbolo de São Paulo em 1987. Essa beleza é uma imigrante, tem origem na Ásia. A azaléia floresce entre o inverno e a primavera colorindo a cidade com seus vários tons, fazendo de São Paulo uma musa inspiradora para poetas que a visitam e se encantam com os seus cantos.
Neste feriadão, curtindo pontos turísticos de São Paulo com meus filhos Magno Filho e João Pedro, descobri algo mais para perdoar a cidade da crueldade de roubar meus amigos de infância. Estou convencido que a capital paulista tem o charme de Paris, a cultura de Londres, a mistura de Nova York, o tamanho de Tóquio.
É grande, charmosa, culta, multitudo. Acabei amando as coisas estranhas da cidade. É a terra do café, mas seu principal viaduto é o Viaduto do Chá. Tem uma rua chamada Direita que não é tão direita assim. Tem uma Rua Formosa que é muito, muito feia. Tem uma Rua das Palmeiras que não tem sequer uma árvore, muito menos palmeiras.
A sofisticação da cidade está na Avenida Faria Lima, que concentra dinheiro e modernidade, numa Daslu, que concentra o luxo, numa Paulista, cartão de visitas da cidade. Descobri que São Paulo é muito mais do que só uma cidade de negócios, de turismo ou aquela que nunca dorme. É também uma cidade que recebe o mundo, os fãs de todos os tipos musicais, os manifestantes, os carnavalescos, os esportistas.
Em seu vai e vem frenético, eles até podem parecer turistas, mas são parte da cidade, movimentam ruas e negócios. Para quem chega de fora, seja do interior ou de outros países, São Paulo oferece o anonimato generoso que se transforma em pertencimento. É uma emoção indescritível descobrir refúgios verdes inesperados no topo da montanha, como o Pico do Jaraguá, em contraste com a imensidão urbana e o calor humano do Mercado Municipal.
Ninguém amou tanto São Paulo quanto o grande escritor Mário de Andrade. Seu amor era tão profundo que, no poema “Quando eu morrer”, ele expressou o desejo lírico de ter suas partes do corpo espalhadas pelas ruas do centro: “No Pátio do Colégio afundem / O meu coração paulistano: / Um coração vivo e um defunto. / Bem juntos.”
Lygia Fagundes Telles, a primeira-dama da literatura brasileira, ambientou clássicos como “As Meninas na capital” e sempre guardou um olhar afetuoso para a atmosfera paulistana, especialmente a da sua juventude nas arcadas do Largo de São Francisco. Ela costumava lembrar com encanto da icônica garoa paulistana: “São Paulo era uma cidade de névoa, uma cidade onde as pessoas caminhavam envoltas em mistério. Havia uma dignidade poética naquele cinza.”
Autor de “Não Verás País Nenhum” e profundo conhecedor das esquinas da cidade, o escritor Ignácio de Loyola Brandão definiu São Paulo como um ímã irresistível, focado na eletricidade de suas ruas: “São Paulo nos esmaga, mas nos alimenta. É uma cidade terrível e fascinante. Eu preciso desse ritmo, desse barulho, dessa gente caminhando rápido para sentir que estou vivo e produzindo.”




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