AINDA ESTAMOS A TEMPO. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – O telefone tocou hoje, naquela hora exata em que a tarde, cansada de sustentar o peso inteiro do dia, começa a entregar, um a um, os seus tesouros mais suaves de luz ao crepúsculo, e eu, que já não contava com toque algum, senti no peito aquele sobressalto antigo, daqueles que a gente pensava ter perdido para sempre, o sobressalto dos tempos em que qualquer chamada podia mudar o rumo de uma vida, e jurei, jurei por um segundo inteiro e absurdo, que era você. Não era. Claro que não era, e talvez isso pouco importasse, porque o essencial não estava na voz do outro lado da linha, mas naquilo que o toque acordou dentro de mim, feito um galho seco que de repente se lembra de que ainda guarda seiva: a certeza luminosa e inquieta de que ainda existem pessoas para quem eu não disse o que devia ter dito, pessoas que tomaram outros rumos, que se afastaram, que se calaram ou que eu deixei que se calassem, e que continuam, no fundo do seu silêncio, à espera de uma palavra que ainda pode chegar até elas.
Pois é curioso o modo como tratamos as palavras que saem do coração: nós as guardamos como quem guarda uma garrafa rara de vinho para uma ocasião que nunca chega, sempre convencidos de que haverá um amanhã mais propício, um telefonema mais calmo, um encontro mais bonito, uma tarde mais generosa, e o amanhã vem, e o amanhã passa, e a ocasião vai se adiando, até o dia em que descobrimos que o endereço mudou sem aviso, que as estradas se separaram sem ruído, que a mesa onde a gente conversava já tem outros rostos, que a distância, essa senhora silenciosa, tomou posse daquela sala, e então aquela frase, aquela frase pequena e imensa, que poderia ter mudado tudo ou, quem sabe, apenas consolado, fica morando dentro da gente como um hóspede que ninguém convidou, ocupando o quarto, a memória, as madrugadas, o vão das conversas que ainda podem encontrar outra hora.
Lembro de uma amizade que esfriou sem briga, daquelas que se desfazem devagar, como o açúcar que se dissolve no fundo da xícara sem que ninguém mexa a colher. Lembro de um amor que tomou outro caminho sem receber a palavra que merecia, e que levou consigo, como quem guarda numa mala sem etiqueta, aquilo que eu deixei para dizer depois. Lembro de um homem mais velho, desses que ensinam a gente sem levantar a voz, que a vida foi mudando de cidade, de hábitos, de conversas, sem que ele soubesse o quanto tinha ficado dentro de mim. E a vida segue, e a vida empurra, e a gente aprende, com o tempo, a viver ao lado das palavras não ditas, como se aprende a conviver com aquilo que ainda procura forma. Mas convenhamos: elas ficam pulsando ali, debaixo da pele, como a cicatriz que ainda pulsa, e de vez em quando, numa tarde como esta, numa hora como esta, elas acordam inteiras e pedem passagem.
O crepúsculo demora, feito um ator que prefere permanecer mais um pouco no palco, estendendo a própria sombra pelas calçadas e espalhando no horizonte um pedaço de ouro que parece ter sido deixado ali apenas para lembrar que a luz não desaparece quando muda de intensidade. Durante muito tempo acreditei que ele fosse apenas a imagem da transformação, daquele instante em que uma coisa deixa de ser exatamente o que era para aprender outra forma de permanecer. E é. Mas hoje, naquela fração de segundo em que o telefone tocou e eu pensei que era você, compreendi que ele é também outra coisa: o crepúsculo é a prova de que ainda resta luz. Ainda resta luz. E tudo o que a luz alcança ainda está a tempo. Ainda está a tempo o telefonema que se adia, a carta que se guarda na gaveta, a visita que se promete, o perdão que se ensaia em silêncio, o abraço que o peito já decorou, a frase que a gente sabe de cor e não tem coragem de dizer. Ainda estamos a tempo de permitir que a vida carregue o testemunho do que sentimos.
Ainda há tempo de procurar aquele amigo e dizer que a amizade nunca esfriou de verdade, que apenas adormeceu. Ainda há tempo de procurar aquele amor e dizer que a falta que ele faz tem temperatura, tem cheiro, tem a marca exata do lugar que ocupava na casa. Ainda há tempo de agradecer a quem nos ensinou, de perguntar a quem se calou o porquê do silêncio, de dizer a quem está ao nosso lado que está ao nosso lado e que sem ele a estrada seria um deserto. Ainda há tempo de escrever, de telefonar, de bater na porta, de atravessar a rua, de alcançar uma janela que continua acesa do outro lado.
E é por isso que eu decidi: enquanto a tarde ainda espalha sua luz, eu vou dizer. Vou dizer àqueles que fazem parte da minha vida que os amo, que me fazem falta, que a vida com eles tem outra temperatura, outra música, outra claridade. Vou dizer não com as palavras bonitas que eu sei fabricar, mas com as palavras verdadeiras, que são as únicas que encontram lugar. E se alguma palavra chegar depois de muita demora, chegará ainda assim com o calor de quem decidiu atravessar a distância, e isso, convenhamos, já é uma forma de presença.
Talvez seja essa a pergunta que valha a pena carregar quando a tarde mudar de cor: para quem ainda não disse o que sente? Há sempre um telefone que não toca, uma gaveta onde as palavras dormem encolhidas, uma rua que se evita sem que se saiba explicar bem o motivo, e é para esses lugares que a pergunta aponta, mais do que para qualquer resposta pronta. As coisas realmente belas não precisam permanecer exatamente como eram para continuarem presentes dentro da gente; às vezes apenas mudam de lugar, de ritmo, de linguagem, e a espera, convenhamos, talvez seja apenas o sentimento procurando a coragem de encontrar voz. Que a palavra, quando enfim atravessar a distância, acenda na outra margem uma janela que talvez estivesse apenas esperando a sua luz, porque o tempo, esse viajante que nunca se detém, ainda oferece caminhos para tudo aquilo que a coragem decide alcançar.
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