A força política e o carisma de Raquel Lyra viram o jogo em Pernambuco

Em apenas um ano, governadora transforma uma desvantagem que parecia quase intransponível em uma disputa na qual já aparece numericamente à frente de João Campos; avanço expõe o peso da gestão, da presença no interior e de uma liderança que passou a estabelecer vínculo próprio com o eleitor pernambucano

Há um ano, poucos poderiam imaginar a fotografia política que Pernambuco apresenta hoje.

Em agosto de 2025, João Campos parecia caminhar para a eleição estadual sob uma condição de amplo favoritismo. Pesquisa Genial/Quaest realizada naquele mês mostrava o então prefeito do Recife com 55% das intenções de voto, contra apenas 24% de Raquel Lyra. Eram extraordinários 31 pontos percentuais de vantagem para Campos.

Doze meses depois, aquela eleição aparentemente encaminhada desapareceu.

Na pesquisa DataTrends divulgada em 17 de agosto de 2026, Raquel Lyra aparece com 44%, contra 35% de João Campos no primeiro turno: nove pontos de vantagem para a governadora. Em uma eventual segunda rodada, Raquel registra 46%, diante de 38% do adversário. O mesmo levantamento aponta aprovação de 66% da administração estadual.

Mais importante do que uma pesquisa isolada, porém, é observar a tendência registrada também por outros institutos.

A própria Quaest, que um ano antes mostrava João 31 pontos à frente, apresentou em julho de 2026 uma realidade completamente diferente: Raquel com 43% e João com 37% no primeiro turno. No segundo turno, 45% para a governadora e 39% para Campos. A aprovação do governo estadual chegou a 68%, enquanto a desaprovação caiu para 23%.

É uma transformação política de grandes proporções.

O peso de enfrentar um sobrenome histórico

Para compreender a dimensão desse movimento, é preciso olhar para quem está do outro lado.

João Campos não chega a essa disputa carregando apenas seu próprio currículo político. É filho do ex-governador Eduardo Campos e bisneto de Miguel Arraes, duas das figuras mais importantes da história política recente de Pernambuco.

Eduardo governou Pernambuco por dois mandatos. Miguel Arraes comandou o estado em três períodos distintos e atravessou décadas como uma das principais referências políticas pernambucanas. João, portanto, é herdeiro de uma memória política, de um sobrenome conhecido em praticamente todo o estado e de uma estrutura partidária construída durante gerações.

E o próprio João não esconde essa herança.

Ao lançar sua candidatura ao Governo de Pernambuco em março deste ano, fez referência direta ao pai e lembrou a trajetória de Eduardo Campos em sua primeira campanha para governador. A memória de Eduardo permanece como um ativo político e afetivo importante de sua candidatura.

Raquel também possui origem em uma família política. Seu pai, João Lyra Neto, foi prefeito de Caruaru, vice-governador e chegou a governar Pernambuco após a saída de Eduardo Campos em 2014. Mas há uma diferença de escala: Raquel precisou construir uma identidade estadual própria diante de uma família adversária cuja marca política atravessa gerações e possui presença histórica no imaginário pernambucano.

É justamente aí que sua trajetória recente ganha dimensão.

Raquel construiu sua própria força

A ascensão da governadora não pode ser explicada apenas por engenharia eleitoral, troca partidária ou montagem de palanque.

Ela coincide com a melhora significativa da percepção sobre sua administração.

Segundo a Quaest de julho, a aprovação do governo passou de 62% para 68%. Mais revelador: 73% dos entrevistados disseram defender a continuidade do trabalho realizado ou apenas ajustes no que ainda não funciona. Apenas 24% defendiam uma mudança completa na administração estadual.

São números que ajudam a compreender um fenômeno político importante: Raquel começou a converter entrega administrativa em patrimônio eleitoral.

Estradas, abastecimento de água, saúde, educação, segurança, investimentos e presença constante nas regiões passaram a formar uma narrativa que não depende apenas do discurso eleitoral. A governadora colocou sua gestão na rua e fez do próprio governo sua principal vitrine política.

Esse talvez seja o maior trunfo de Raquel Lyra neste momento: enquanto o adversário pode recorrer a uma história política já consolidada, ela passou a disputar a eleição com aquilo que conseguiu construir no exercício do mandato.

O interior entrou definitivamente no jogo

Outro elemento decisivo foi a presença territorial.

Raquel tem origem política em Caruaru e conhece como poucos a dinâmica do Agreste e do interior pernambucano. Ao longo do governo, ampliou agendas fora da Região Metropolitana e levou a estrutura estadual para municípios onde muitas vezes a população enxerga o governador quase como uma figura distante.

A Folha de S.Paulo já havia identificado, em maio, que o avanço eleitoral da governadora coincidia com uma agenda intensa pelo interior e com a concentração do discurso em problemas locais. Naquele momento, o Datafolha já mostrava Raquel avançando e ultrapassando João em uma simulação de segundo turno.

Essa presença produz algo que pesquisa nenhuma consegue fabricar artificialmente: reconhecimento.

O eleitor pode gostar ou não de um governante. Mas, quando começa a associá-lo a obras, serviços e decisões que chegam ao cotidiano, surge um vínculo muito mais resistente do que o simples conhecimento de nome.

E surgiu também o carisma

Raquel nunca construiu sua imagem como uma política de espetáculo.

Seu perfil sempre foi mais associado à gestão, à firmeza e à cobrança por resultados. Mas o exercício do governo parece ter acrescentado uma dimensão nova à sua personalidade pública: proximidade.

A Raquel técnica continuou existindo. Mas apareceu também uma governadora mais espontânea, presente nas ruas, abraçando, conversando, dançando, entrando nas casas, enfrentando agendas extensas e falando diretamente com comunidades do litoral ao Sertão.

É nessa transformação que nasce parte de seu capital político atual.

Carisma não é apenas sorrir para uma câmera. Carisma político é conseguir estabelecer identificação.

E quando uma governadora alcança índices de aprovação próximos de 70%, passa a existir evidência de que uma parcela expressiva da população não está apenas reconhecendo obras — está reconhecendo uma liderança.

A maior dificuldade de João talvez seja explicar a virada

Durante boa parte de 2025, João Campos tinha diante de si o cenário que qualquer candidato gostaria de encontrar.

Era extremamente popular no Recife, havia sido reeleito prefeito com votação expressiva e aparecia muito à frente nas pesquisas para o governo estadual.

Além disso, carregava o sobrenome Campos, a memória de Eduardo, o legado de Arraes e uma estrutura partidária histórica.

Hoje, porém, a pergunta mudou. Já não é mais: como Raquel poderá alcançar João?

A pergunta passou a ser: como João permitirá que Raquel, que estava 31 pontos atrás há apenas um ano, chegue às portas da campanha competitiva e, em algumas pesquisas, à sua frente?

A própria campanha de Campos passou a reforçar a associação com o presidente Lula, que já gravou participação para seu programa eleitoral. A movimentação ocorre justamente num momento em que pesquisas mostram Raquel competitiva mesmo num estado em que Lula possui enorme força eleitoral.

E esse talvez seja outro sinal da dimensão adquirida pela governadora.

Ela conseguiu transformar uma eleição que parecia ser sobre a sucessão natural de um favorito em um plebiscito sobre a continuidade de seu próprio governo.

Nove pontos, mas com uma ressalva indispensável

A vantagem de nove pontos divulgada pela DataTrends é politicamente relevante, mas não significa que a eleição esteja decidida.

Outro levantamento divulgado praticamente no mesmo período, da Real Time Big Data, encontrou 43% para Raquel e 43% para João no primeiro turno, além de empate em 44% no eventual segundo turno. O instituto ouviu 1.600 eleitores entre 12 e 15 de agosto e apontou margem de erro de dois pontos percentuais.

Ou seja: os institutos divergem sobre o tamanho da vantagem, e alguns apontam empate.

Mas praticamente todos revelam uma realidade incontornável: a enorme distância existente em 2025 desapareceu.

E essa talvez seja a notícia politicamente mais importante.

Uma virada que já entrou para a história desta eleição

Independentemente do resultado das urnas, Raquel Lyra já conseguiu algo que parecia improvável há um ano.

Enfrentou um adversário que carregava favoritismo, elevada exposição nacional, forte presença digital, uma das estruturas partidárias mais tradicionais do estado e o peso simbólico de duas gerações que governaram Pernambuco.

E transformou uma diferença de dezenas de pontos em uma disputa aberta.

Não apagando o passado. Não tentando disputar sobrenomes. Mas construindo seu próprio presente.

A eleição ainda será dura. João Campos continua extremamente competitivo, possui uma candidatura robusta e conta agora com o apoio explícito de Lula. Nenhuma pesquisa permite tratar o resultado como definido.

Mas há uma conclusão que os números já autorizam:

Raquel Lyra deixou de ser apenas a governadora que buscava sobreviver politicamente a um adversário favorito. Tornou-se uma liderança com força eleitoral própria, capaz de enfrentar de igual para igual, e, em alguns levantamentos, superar, uma das mais poderosas tradições políticas de Pernambuco.

Em agosto de 2025, João Campos tinha 31 pontos de vantagem sobre ela. Em agosto de 2026, há pesquisa dando nove pontos de vantagem a Raquel.

Entre uma fotografia e outra existe muito mais do que uma oscilação eleitoral.

Existe uma mudança profunda na correlação de forças da política pernambucana.

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