A Chuva que Confessa. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Vinda das nuvens que se acumulam sobre o mar antes de avançarem para o continente, a chuva de julho chega a Pernambuco com uma pontualidade que nenhum calendário oficial jamais conseguiu registrar, e chega não como fenômeno que se explica pelos manuais de meteorologia, mas como uma personagem antiga que retorna às cidades para cumprir um compromisso que a memória guardou mesmo quando a razão insistiu em esquecê-lo. Ela desce primeiro sobre os telhados de Olinda e do Recife Antigo, depois avança para o interior, para Carpina e para as cidades da Mata Norte, onde bate nas telhas de barro com um som que os antigos moradores aprenderam a distinguir de todos os outros sons do mundo, um tamborilar que não é ruído mas linguagem, e que fala diretamente ao corpo antes de falar ao pensamento.

Nas varandas de Pernambuco, a chuva sempre teve o poder de aproximar o que o dia inteiro havia mantido separado. É nela que os homens interrompem o trabalho e se recolhem sob o beiral, é nela que as mulheres deixam a costura sobre o colo e ficam olhando o quintal se transformar num espelho líquido, é nela que as famílias inteiras se reúnem numa proximidade que nenhuma outra circunstância consegue provocar com tanta naturalidade. A varanda, que durante o resto do ano é apenas passagem entre a casa e a rua, torna-se durante a chuva um território sagrado, uma espécie de nave onde os corpos se abrigam e as vozes baixam de tom, como se a própria intensidade da água lá fora exigisse um recolhimento maior de dentro.

Mas nem toda relação com a chuva pernambucana nasce do conforto da varanda, pois existem aqueles que a procuram justamente para se expor, vestindo um short qualquer ou um bermudão desbotado, uma camiseta simples de malha que logo se cola ao corpo, e saem caminhando pelas ruas sem destino certo, como quem obedece a um chamado que a própria tristeza formulou. São os que descobriram, sem que ninguém lhes ensinasse, que a água que cai do céu tem o poder de se misturar às lágrimas e de apagar a diferença entre elas, permitindo que o rosto molhado esconda o choro sem precisar escondê-lo, porque na rua, sob aquele dilúvio generoso, ninguém pergunta se a água que escorre pela face nasceu da nuvem ou nasceu da dor. Caminham devagar, essas pessoas, atravessando ruas e esquinas como quem atravessa também um período interior mais difícil, e a chuva lhes presta um serviço que nenhuma outra circunstância presta com tanta discrição, o de testemunhar o sofrimento sem exigir explicação, o de acolher o desabafo sem pedir que ele se justifique. Há nisso uma forma silenciosa de coragem, a de sair de casa justamente quando o instinto mandaria recolher-se, e entregar ao céu aberto aquilo que o peito já não conseguia conter sozinho, como se a cidade inteira, molhada e cinzenta, se tornasse por um instante a única confidente possível para uma dor que não encontrava outra forma de sair.

O rádio, naquelas tardes de chuva forte, soava diferente, e isso não era ilusão de quem escutava mas propriedade real do ar carregado de umidade, que engrossava as vozes dos locutores e dava às músicas antigas uma densidade que os dias secos jamais permitiam. Era como se a chuva emprestasse ao aparelho uma gravidade nova, transformando a programação comum em trilha sonora de um ritual que se repetia sem que ninguém precisasse convocá-lo. E é impossível separar essa lembrança do cheiro que a chuva desperta ao tocar a terra seca, esse aroma que a ciência batizou com um nome técnico mas que a alma pernambucana sempre chamou simplesmente de cheiro de chuva, uma fragrância que atravessa décadas sem perder a força, capaz de trazer de volta, num único instante, tardes inteiras que pareciam definitivamente perdidas no tempo.

Existe uma fotografia que toda família do interior possui, ainda que nem sempre revelada em papel, e que mostra a casa vista de dentro para fora numa tarde de chuva, com as figuras dos habitantes desenhadas contra a luz cinzenta da janela, e essa imagem, mesmo quando existe apenas na lembrança, funciona como um pequeno museu particular onde se guarda não apenas um momento mas uma inteira filosofia de viver, aquela que ensina que a intempérie exterior pode se tornar abrigo interior, que aquilo que ameaça de fora pode, se bem recebido, transformar-se em razão de reunião e de afeto.

A chuva pernambucana de julho, por isso, jamais foi apenas água caindo do céu. Foi sempre uma espécie de mensageira da memória, que desce sobre os telhados para lembrar aos homens que existe um tempo mais lento e mais fundo do que aquele que as obrigações diárias impõem, um tempo em que é possível, ainda que por breves horas, recompor os vínculos que a pressa do cotidiano insiste em desfazer. E é também, para quem caminha sozinho pelas ruas molhadas, um tempo em que a dor encontra enfim permissão para se dissolver, misturada à água que escorre pelo rosto sem que ninguém precise saber de onde ela realmente vem. Talvez seja por isso que, mesmo hoje, quando as cidades cresceram e as varandas se tornaram cada vez mais raras, ainda existe em cada pernambucano um gesto instintivo de parar diante da janela quando a chuva começa. O corpo reconhece, antes mesmo que a mente formule o pensamento, que ali está acontecendo algo maior do que o simples cair da água, algo que atravessa gerações e que continuará atravessando, porque enquanto houver chuva sobre esta terra, haverá também, escondida dentro dela, alguma alma pernambucana que chora, que se cala, que se lava, e que, ao final, encontra a força para continuar, deixando para trás, em cada esquina, apenas o silêncio molhado das ruas.

Share this content:

Publicar comentário