GAZETA PERNAMBUCANA – O dia em que a França trocou de corpo.
GAZETA PERNAMBUCANA – Uma leitura antropológica da Revolução Francesa, celebrada em 14 de julho
Um povo pode viver séculos acreditando que o rei é a carne visível de Deus na terra, que o trono é um altar e que a fome do lavrador faz parte da ordem natural das coisas, tanto quanto a chuva ou a seca. E então, num único verão, esse mesmo povo pode decidir que nada daquilo era natural, que era apenas hábito disfarçado de eternidade, e derrubar o edifício inteiro com as próprias mãos. Foi isso que aconteceu na França entre o fim da primavera e o início do verão de 1789, e é isso que a data de hoje pede que se compreenda, não como efeméride escolar, mas como um dos raros momentos em que a humanidade trocou de corpo à vista de si mesma.
A Bastilha, tomada a 14 de julho, não guardava um arsenal temível nem multidões de prisioneiros políticos. Era antes um símbolo gasto, quase vazio de função prática, mas cheio de sentido simbólico, o que explica por que uma multidão faminta e mal armada se lançou contra suas pedras em vez de marchar sobre um alvo militarmente mais lógico. Todo rito de passagem precisa de um objeto para destruir, de um corpo antigo para enterrar, e a fortaleza que vigiava o leste de Paris cumpriu esse papel com a exatidão de um altar sacrificial. Ao arrancar suas pedras uma a uma nos meses seguintes e distribuí-las como relíquias por todo o país, o povo francês não estava apenas comemorando uma vitória militar. Estava fabricando memória, criando um objeto de culto para uma religião nova que ainda não tinha nome, mas que já sabia do que precisava se libertar.
O Antigo Regime como corpo doente
Para compreender a intensidade daquele gesto, é preciso olhar para a estrutura que ele derrubou não como um sistema político abstrato, mas como um corpo social hierarquizado até a náusea, em que cada categoria de pessoa ocupava um lugar fixado por nascimento e sancionado pelo altar. O clero rezava, a nobreza guerreava, e o terceiro estado, que reunia desde o camponês descalço até o burguês endinheirado de Lyon, trabalhava para sustentar os outros dois. Essa divisão em três ordens não era apenas econômica, era cosmológica: cada corpo social tinha uma função sagrada, e romper essa função era romper a própria ordem do mundo, como arrancar um órgão de um organismo vivo e esperar que ele continuasse respirando.
O que a crise fiscal da monarquia expôs, com sua dívida monstruosa herdada de guerras e de um luxo cortesão que já parecia obsceno aos olhos de quem passava fome nas ruas de Paris, foi que esse corpo estava doente havia muito tempo, apenas escondido sob camadas de cerimônia e de teologia política. A convocação dos Estados Gerais, pensada pelo rei como um remédio técnico para equilibrar as contas do reino, funcionou como um espelho colocado diante de uma sociedade que já não suportava olhar para si mesma sem se assustar. O terceiro estado, ao se recusar a votar por ordem e exigir o voto por cabeça, não estava apenas disputando um procedimento parlamentar. Estava dizendo, com a linguagem possível da época, que um padeiro e um camponês valiam tanto quanto um duque, e essa frase, hoje óbvia até a exaustão, era em 1789 um terremoto antropológico.
A linguagem que a Revolução inventou
Antes de 1789, ninguém falava em esquerda e direita como categorias morais. A expressão nasceu de um detalhe quase acidental, os deputados favoráveis a mudanças mais profundas sentados à esquerda do presidente da Assembleia, os defensores da tradição à direita, e o que era apenas geografia de plenário virou, em poucos anos, uma gramática universal para pensar o conflito humano. O mesmo se deu com a palavra povo, que deixou de designar uma massa passiva a ser governada e passou a nomear um sujeito capaz de agir sobre a própria história. A Revolução não apenas trocou governantes, ela fabricou um vocabulário inteiro, e é esse vocabulário, mais do que qualquer lei ou constituição promulgada naqueles anos, que ainda habita a boca de quem discute política em qualquer esquina do mundo hoje.
Há algo de profundamente antropológico nesse fenômeno. Toda cultura organiza sua experiência através de categorias que parecem naturais justamente porque foram inventadas há tempo suficiente para que ninguém mais se lembre da invenção. A cidadania, a soberania popular, os direitos do homem proclamados em agosto daquele mesmo ano não descreviam uma realidade que já existia, à espera de ser nomeada. Elas criaram a realidade que descreviam, no mesmo gesto duplo com que todo mito fundador cria o mundo que narra. Dizer que os homens nascem livres e iguais em direitos não era, em 1789, um enunciado sobre o que existia, mas uma aposta performativa sobre o que passaria a existir a partir daquela declaração, e o mundo ocidental inteiro ainda vive dentro dessa aposta, para o bem e para o mal.
O Terror como sombra da liberdade
Nenhuma leitura honesta da Revolução pode se furtar ao seu momento mais perturbador, o Terror que se seguiu poucos anos depois da queda da Bastilha, quando a guilhotina passou a funcionar como instrumento cotidiano de purificação política. Há uma tentação fácil, tanto de um lado quanto do outro, em resolver essa contradição pela via simples do julgamento moral, ou celebrando a Revolução e varrendo o Terror para debaixo do tapete, ou condenando a Revolução inteira a partir do Terror, como se um cancelasse o outro. Mas a antropologia ensina algo mais incômodo e mais verdadeiro: toda ruptura radical com uma ordem sagrada antiga precisa inventar uma nova forma de sacralidade para preencher o vazio que deixou, e o sangue, na maioria das culturas humanas, é o material com que se fabricam os novos altares.
A guilhotina não era apenas uma máquina de matar mais eficiente e menos dolorosa do que o machado, como seus criadores sinceramente acreditavam. Era um ritual público de purificação, encenado em praça aberta, com plateia, com liturgia própria, com um sacerdócio revolucionário que substituía o padre pelo tribunal e o pecado pela traição à pátria. Robespierre, que sonhava com uma república da virtude, acabou fabricando um mecanismo em que a virtude só podia ser provada pela disposição de matar em nome dela, o que é talvez a lição antropológica mais dura de todo o episódio: uma revolução que promete libertar o ser humano de toda autoridade arbitrária corre sempre o risco de se tornar, ela mesma, a mais arbitrária das autoridades, precisamente porque acredita falar em nome de uma verdade absoluta, o povo, a razão, a virtude, que ninguém tem o direito de contestar sem se tornar inimigo dela.
Pernambuco também ouviu o eco da Bastilha
Essa mesma linguagem, fabricada em Paris entre 1789 e os anos seguintes, atravessou o Atlântico e chegou a Pernambuco carregada de urgência. A Revolução Pernambucana de 1817, ocorrida menos de trinta anos depois, bebeu diretamente do vocabulário revolucionário francês, ainda que adaptado às condições de uma capitania colonial distante, escravista, e presa a uma metrópole que acabara de se mudar para o outro lado do oceano. Os líderes de 1817 falavam em liberdade e em soberania popular com as mesmas palavras que os deputados do terceiro estado haviam usado em Versalhes, mas aplicavam essas palavras a uma realidade em que a maior parte da população continuava escravizada, o que revela algo essencial sobre como as ideias revolucionárias viajam: elas raramente chegam inteiras, quase sempre chegam recortadas pelo interesse de quem as importa.
Esse é, talvez, o ponto mais fértil para pensar o Brasil a partir da França revolucionária. Importamos o vocabulário da modernidade política, república, cidadania, igualdade perante a lei, antes de resolver as estruturas arcaicas que esse vocabulário deveria ter varrido. Proclamamos repúblicas sem nunca termos feito, de fato, a nossa versão da noite de 4 de agosto, aquela sessão em que a Assembleia francesa aboliu de um só golpe os privilégios feudais que ainda amarravam o camponês à terra e ao senhor. O Brasil trocou de regime várias vezes ao longo de sua história sem nunca trocar verdadeiramente de corpo social, e é por isso que ainda hoje convivemos com um abismo de casta que a linguagem republicana insiste em chamar de desigualdade econômica, como se fosse apenas uma questão de renda, e não a sobrevivência de uma hierarquia que a Revolução Francesa, com todo o seu sangue e toda a sua contradição, ao menos teve a coragem de nomear e de tentar arrancar pela raiz.
O que resta, duzentos e trinta e sete anos depois
Talvez a herança mais honesta que se possa tirar da Revolução Francesa, neste 14 de julho, não seja a celebração fácil de um marco de liberdade conquistada, nem a condenação moralista de seus excessos, mas o reconhecimento de que toda sociedade humana carrega dentro de si a mesma tensão que explodiu em Paris naquele verão: a distância entre o que uma cultura diz acreditar e o corpo social que efetivamente sustenta essa crença. A Revolução não resolveu essa distância, apenas a tornou visível de um modo que nenhuma geração posterior conseguiu mais ignorar. E é precisamente por isso que ela continua acontecendo, em versões parciais e inacabadas, sempre que um povo qualquer, em qualquer parte do mundo, decide que chegou a hora de trocar de corpo.
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