O homem que ainda conversa com o tempo. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Certos dias chegam trazendo o tempo não como um relógio obediente pendurado na parede, mas como um velho viajante que se senta à nossa mesa, tira o chapéu em silêncio, olha-nos nos olhos com a serenidade dos que já atravessaram muitas estradas e nos pergunta, sem pressa e sem piedade, o que fizemos dos sonhos que carregávamos no peito quando a vida ainda parecia uma estrada de barro molhado depois da chuva, aberta, generosa e infinita.
Nesses dias, a alma parece andar descalça pela casa antiga da memória, tocando com cuidado os móveis invisíveis da infância, ouvindo portas que já não existem se abrirem dentro do coração, sentindo o cheiro do café que subia da cozinha como uma oração doméstica, vendo outra vez o rosto dos que partiram e que, de algum modo misterioso, continuam morando em nós como fotografias guardadas não em álbuns, mas nas paredes mais secretas do sentimento.
O mundo, lá fora, corre como um rio enfurecido depois da cheia, arrastando notícias, vaidades, urgências, ambições e pequenas guerras diárias, enquanto o homem que ainda conversa com o tempo aprende, talvez tarde, talvez no momento exato em que a maturidade lhe entrega suas chaves, que nem tudo o que faz barulho tem grandeza e nem tudo o que se cala deixou de viver, porque há silêncios que são catedrais, há saudades que são pontes e há lembranças que continuam acesas dentro da noite como lamparinas fiéis protegendo a casa dos ventos frios do esquecimento.
Escrever, então, deixa de ser apenas o gesto de alinhar palavras sobre a página e passa a ser uma espécie de lavoura íntima, onde o coração ara a terra dura dos dias, semeia esperança onde havia cansaço, rega com lágrimas antigas as sementes da ternura e espera, com a paciência dos agricultores de alma, que alguma flor nasça no terreno tantas vezes pisado pela pressa, pela indiferença e por essa modernidade que ensinou tanta gente a falar muito e sentir pouco.
Há homens que escrevem para vencer a multidão, outros escrevem para agradar ao tempo, alguns escrevem para serem vistos nas vitrines frágeis da vaidade, mas existem aqueles que escrevem como quem abre uma janela numa manhã clara, permitindo que entrem o vento da memória, a luz da consciência, a voz da terra, o cheiro do povo, o murmúrio das ruas e essa verdade antiga que não cabe nos discursos ensaiados, porque nasce do fundo da vida e traz consigo a poeira das estradas, o sal das lágrimas e a dignidade das mãos que trabalharam antes mesmo que o sol pedisse licença ao horizonte.
O homem que ainda conversa com o tempo sabe que envelhecer não é apenas contar os anos que se acumulam no corpo, mas aprender a decifrar as marcas que a existência escreveu na pele, nos olhos e no espírito, como se cada ruga fosse uma pequena estrada percorrida, cada cicatriz uma página vencida, cada perda uma escola severa e cada alegria uma flor inesperada brotando no quintal depois de uma noite longa de chuva.
E talvez por isso ele não se assuste tanto com a solidão, porque descobriu que estar só nem sempre é abandono, muitas vezes é encontro, recolhimento, escuta, conversa demorada com aquilo que somos quando ninguém nos observa, quando as luzes da rua se apagam, quando o aplauso não chega, quando a vaidade se recolhe e só permanece, diante de Deus e da própria consciência, a verdade simples de um coração perguntando se ainda foi capaz de amar, perdoar, agradecer e seguir.
No fim, talvez a vida seja isso, uma longa carta escrita sem rascunho, entregue aos poucos ao destino, com palavras que às vezes tremem, com frases que se quebram, com capítulos que não entendemos na hora, mas que depois, vistos de longe, parecem ter obedecido a uma sabedoria maior, como os rios que fazem curvas não por fraqueza, mas porque sabem que a beleza do caminho nem sempre está na linha reta.
Por isso, quando o tempo se sentar outra vez à nossa mesa e nos fizer suas perguntas silenciosas, que possamos recebê-lo sem medo, oferecendo-lhe não a arrogância de quem pensa ter vencido tudo, mas a humildade de quem atravessou tempestades sem perder completamente a ternura, de quem viu o mundo mudar sem vender a alma, de quem conheceu a dureza dos homens sem desistir da esperança e de quem ainda guarda, no fundo do peito, uma pequena chama acesa dizendo que viver, apesar de tudo, continua sendo o mais bonito e mais difícil poema que Deus nos deu para escrever.
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