Onde andam os barquinhos de papel da minha infância. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  – Hoje eu caminhei debaixo de uma chuva grande, dessas que não chegam apenas para molhar a roupa, o rosto e os sapatos, mas para tocar, com dedos de água antiga, alguma parte esquecida da alma, alguma gaveta secreta onde o tempo guarda, sem alarde, os brinquedos quebrados da infância, os nomes que já não chamamos em voz alta, os amores que não souberam ficar, as alegrias que partiram sem pedir licença e aquelas pequenas felicidades que a vida adulta, distraída de si mesma, vai deixando cair pelos cantos como moedas perdidas no bolso de uma calça velha.

A chuva veio sobre mim com uma ternura quase doméstica, sem pedir explicação, sem exigir defesa, sem perguntar idade, destino ou razão, e de repente eu já não era apenas o homem caminhando pelas ruas molhadas de uma cidade qualquer, mas uma espécie de menino reaparecido dentro do próprio corpo, um menino que, por muitos anos, talvez tenha permanecido calado no fundo do peito, esperando que o céu se abrisse para lhe devolver a licença de correr sem vergonha, de rir sozinho, de sentir a água escorrer pela testa como se cada gota fosse uma palavra materna pronunciada sobre a pele. Quando a primeira gota tocou o rosto, algo se abriu, não como ferida, mas como janela, como aquelas janelas antigas de madeira que emperram no verão e cedem de repente, deixando entrar de uma vez o cheiro da tarde toda.

O banho de chuva tem esse poder silencioso de nos desarmar. Ele tira de nós a compostura excessiva, a pose cansada, o medo de parecer simples, e nos devolve, ainda que por instantes, àquele tempo em que a felicidade não precisava de cenário, bastava uma enxurrada passando pelo meio-fio, um pedaço de papel dobrado às pressas, um barquinho frágil entregue à correnteza como quem entrega ao mundo uma embarcação de sonho, sem saber que, muitos anos depois, aqueles pequenos barcos ainda navegarão dentro da memória, levando embora, pelas águas invisíveis da vida, aquilo que fomos e aquilo que não conseguimos ser. A gente os dobrava com aquela dedicação sem nome que só a infância tem, aquela concentração que não sabe que é concentração e por isso não cansa, e os lançava na correnteza como se fossem sonhos com destino certo, sem perceber que estávamos aprendendo, desde cedo, a beleza e a dor de soltar, que tudo que se lança segue seu próprio curso, que a correnteza não consulta ninguém, e que assistir à partida de um barquinho de papel é, no fundo, o primeiro ensaio de todas as despedidas que virão.

Enquanto a chuva caía, pensei no café quente diante da janela, nessa liturgia íntima dos dias molhados, quando a xícara parece guardar um pequeno sol entre as mãos e a cidade, lá fora, escorre devagar pelas vidraças como se chorasse sem tristeza. Pensei nos restaurantes onde alguém observa a rua encharcada e vê passar, sob guarda-chuvas apressados, a coreografia humilde das chegadas e despedidas, um casal que se reconcilia sem grandes palavras, uma mulher que espera alguém que talvez não venha, um homem parado na esquina com a expressão de quem perdeu mais do que um compromisso, uma criança estendendo a mão para sentir se o céu ainda fala. E nessa contemplação silenciosa onde a gente não pensa, apenas existe, existe talvez mais do que em todo o tempo que se passa pensando.

A chuva também conhece os fracassos. Ela desce sobre os telhados das madrugadas insones como uma conversa antiga, dessas que começam baixinho e vão subindo pelos corredores da casa, batendo nas telhas, nos pensamentos, nos retratos da parede, até alcançar o lugar onde guardamos as perguntas sem resposta. Quantas vezes a chuva não foi companhia de quem chorou sem testemunha, de quem escreveu uma carta e não enviou, de quem ouviu o próprio coração fazer barulho no escuro, de quem descobriu, tarde demais, que certas despedidas não são portas fechadas, mas casas inteiras desaparecendo dentro da noite. Nas madrugadas de chuva, as perdas ficam mais próximas, mas também mais brandas, como se a água lavasse alguma coisa sem apagar, como se limpeza e saudade fossem a mesma operação executada em tempos distintos.

E, no entanto, a chuva não é apenas lamento. Ela é também o riso dos meninos jogando bola debaixo d’água, com os pés enlameados, os cabelos grudados na testa, a camisa colada ao corpo, transformando cada poça em estádio, cada escorregão em vitória, cada grito em clarão de liberdade, aquela tribo sem medo e sem guarda-chuva que não via no temporal nenhum inimigo, mas um árbitro benevolente que transformava o jogo em lama e a lama em alegria pura, sem mediação, sem filtro, sem a camada de prudência que os anos vão depositando sobre a pele até que a pele esquece como é ser porosa, permeável, aberta ao mundo. Ela é a estrada de barro levando aos engenhos e sítios, onde o cheiro da terra molhada sobe como pão recém-aberto da memória, trazendo de volta vozes de avós, cozinhas antigas, fogões acesos, redes balançando no alpendre, cachorros sacudindo o pelo, gente simples olhando o céu como quem entende a linguagem secreta das nuvens.

A chuva ensina uma caridade sem discurso. Basta uma tempestade inesperada para que um desconhecido se torne abrigo, para que alguém divida a marquise, ofereça um pedaço de guarda-chuva, segure o braço de quem escorrega, proteja uma sacola, uma criança, um idoso, um gesto mínimo no meio da pressa, aquele gesto que não pede licença e não espera agradecimento, que nasce de algum lugar anterior à educação e ao cálculo, de algum lugar onde ainda somos simplesmente humanos uns para os outros. E talvez seja nessas horas que a vida revele sua beleza mais funda, quando a água desorganiza os horários e obriga os seres humanos a se reconhecerem frágeis, molhados, parecidos, igualmente expostos ao mesmo céu. A chuva não aceita vidraça. Essa é a sua generosidade mais brutal.

O banho de chuva de hoje não lavou apenas o meu corpo. Lavou a poeira invisível dos dias repetidos, a dureza acumulada nas horas, a pressa que vai tornando o coração áspero, o excesso de ser adulto como quem carrega uma pasta pesada demais. A cada gota, parecia que alguma coisa antiga retornava, não como saudade triste, mas como alvorecer íntimo, como se a infância, longe de ser um país perdido, fosse apenas uma luz esperando a coragem de reacender dentro de nós. Eu estava encharcado e era o homem mais rico do quarteirão.

E eu caminhei, molhado e enternecido, sentindo que a chuva era menos água do que visita, menos fenômeno do céu do que presença viva da existência, uma velha amiga chegando sem aviso para sentar-se à mesa da alma e dizer, com sua voz líquida nos telhados, nos ombros, nas ruas e nos pensamentos, que ainda existe dentro do homem uma criança capaz de se encantar com o mundo, que ainda podemos ser tocados pela beleza sem precisar explicá-la, que ainda há, no meio das perdas, uma alegria simples correndo pelos meio-fios do tempo. A chuva não tem nostalgia. Essa é a sua superioridade sobre nós. Ela não lamenta o que foi nem anseia o que virá, ela apenas cai, completa, inteira, absolutamente presente no único tempo que existe.

Talvez seja por isso que o banho de chuva nos comova tanto. Porque ele não nos leva para longe da vida. Ele nos devolve a ela. Devolve o cheiro da terra, o gosto do café, a música dos telhados, a lama dos caminhos, os barquinhos de papel, os jogos de bola, os abraços improvisados, as janelas acesas, os amores que vieram, os amores que foram, os reencontros que salvaram um dia inteiro e as perdas que, mesmo doendo, ajudaram a desenhar a nossa humanidade.

No fim da caminhada, eu já não sabia se havia atravessado a chuva ou se a chuva havia atravessado a minha vida inteira. Só sei que voltei para casa com a roupa molhada e a alma mais leve, como quem recebe, depois de muitos anos, uma carta escrita pelo menino que foi um dia, dizendo, com letra torta e coração limpo, que ele ainda mora aqui, que nunca partiu de todo, que basta chover com ternura sobre o mundo para que ele volte, descalço, risonho, carregando nas mãos um barquinho de papel e nos olhos a esperança inocente de que toda correnteza, por mais funda que pareça, ainda pode levar algum sonho para um lugar bonito.

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