A crônica domingueira. Por Magno Martins

Por Magno Martins – Jornalista, poeta e escritor –  Criado no interior, em chão de vidas secas, carrego no corpo e na alma um perfume impregnado pelo tempo. Exala o cheiro da terra, da vida nos sertões de veredas, serras e montanhas, de pau a pique. Com o tempo, a profissão me arrastou para arranha-céus que se perdem de vista no mundo das civilizações modernas, equidistantes em calor humano.

Sou caboclo do sertão, só tenho amor no coração, diz uma canção da compositora Rita de Cássia, popularizada pelo grupo Mastruz com Leite. Eis a síntese da valorização da cultura sertaneja e o amor sincero, espontâneo e natural do homem pela sua vida longe dos agitos nos trevos e eixos cosmopolitas.

Ao adentrar, ontem, na monotonia silenciosa e gostosa da natureza no Vale do Catimbau, para um fim de semana de beijos e abraços no mato, ao lado da minha Nayla, me rendi, mais uma vez, a um rito que me chega como eco de advertência dela: na roça, Nayla sempre me disse, a simplicidade é o tesouro mais valioso.

Ela é orgulhosamente do mato, onde a vida é mais calma, os vizinhos são amigos e o café é sempre fresquinho. Na quietude do campo, minha Nayla encontra a verdadeira paz interior. No mato, ela aprendeu a valorizar as coisas mais importantes da vida, a ter o coração no lugar certo, a certeza de que o relógio só serve de enfeite, porque o tempo dá prazer.

Em meio ao verde da roça, ela encontrou paz, tranquilidade e infinitas alegrias. Com minha Nayla, minha inspiração, aprendi também que no mato cada detalhe revela a beleza da simplicidade, o sol brilha mais forte e o sorriso é mais sincero. A vida é como um balanço na varanda: tranquila, suave e cheia de encanto.

Me apaixonei pelo Vale do Catimbau, o segundo maior parque arqueológico do Brasil. Tem 62.00 hectares e abriga reservas arqueológicas e a Reserva Indígena Kapinawá. Foi eleito um dos principais destinos do ecoturismo no País. Suas trilhas, obrigatórias, oferecem uma vista da paisagem natural única e espetacular, como as trilhas de Malhador, Coqueiro, Jibóia, Brejo de São José, Igrejinha, Cerca de Pedra, Pinga, Gogó da Ema, Torres e Canyon.

Há sítios arqueológicos com pinturas rupestres e artefatos da ocupação pré-histórica. Na região também é possível encontrar terrenos antigos com cavernas, cânions e lapiais. Além do ecoturismo, os turistas ainda podem aproveitar a vista do céu e ter a oportunidade de observar e fotografar estrelas cadentes, satélites, planetas e o nascer da lua através de um céu limpo.

Na verdade, o Catimbau é um tesouro escondido no Sertão pernambucano, ainda pouco explorado, mas com grande potencial. Parece coisa de outro mundo, o Vale do Catimbau acabou sendo escolhido como um dos cenários de “Mar do Sertão”, novela da TV Globo.

Eleita uma das Sete Maravilhas do Estado, o Catimbau é, desde 2021, a Capital Pernambucana da Arte Rupestre, com cerca de 30 sítios arqueológicos, dos quais cinco estão abertos para visita. O maior deles é o Alcobaça, paredão de 60 metros com grafismos de grandes proporções.

Outras opções são a Loca das Cinzas e a Casa de Farinha, aos pés da muralha da Serra de Jerusalém. Se tiver disposição, dá para terminar o dia com pôr do sol no Chapadão, trilha fácil de 2km entre a fissura de um cânion e um mirante natural, a 300 metros de altura, que se debruça sobre um vale em forma de ferradura.

O Catimbau atrai gente de visão. Uma das primeiras a pisar seu solo para criar infraestrutura turística foi a empresária Marília Santos, do grupo Bandeirantes Outdoor. Abriu um belíssimo equipamento turístico, a pousada Vila Mara. A estrutura é sensacional, a hospitalidade sem igual. Há muito aconchego, um cantinho inspirador, bom para viver, excelente para namorar.

Vou voltar muitas vezes aqui, já disse a Mara, porque a beleza do Catimbau não se explica, se sente: no calor do sol, na areia fofa e na imensidão dos cânions. Um lugar incrível, cheio de história, para os de outrora um lar, para os de agora, um renovar, onde a caatinga preserva o passado e o turismo ilumina o futuro.

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