O Recife veste sua pele de estrela e folia. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Existe um dia e hoje é um desses dias em que a cidade não caminha: ela dança por dentro. O Recife acorda como quem se penteia diante do espelho do Capibaribe e descobre, entre os fios do vento, que tem purpurina até na memória. A madrugada ainda boceja, mas a rua já está com os olhos abertos, acesos, famintos de alegria. Porque Carnaval não é só uma festa: é uma espécie de oração em ritmo de tambor, uma fé que não cabe em igreja nenhuma, um milagre que prefere o asfalto ao altar.
E o que é o Carnaval, senão o momento em que a vida, essa senhora séria, esse juiz de terno e carimbo, é puxada pela mão e obrigada a rir? A vida, que vive nos cobrando boletos, comportamentos, compostura e silêncio, de repente se vê sem argumentos diante de um frevo. O frevo, aliás, não é uma música: é um relâmpago doméstico, um incêndio educado, um trovão que aprende a sorrir. Ele chega e reorganiza a anatomia do mundo: faz o coração bater mais alto que a razão; faz a tristeza ficar sem endereço; faz o corpo lembrar que foi feito não apenas para suportar, mas para celebrar.
Hoje, quando a cidade se enfeita, não é fantasia: é revelação. O brilho não é excesso: é verdade. Cada lantejoula é como um ponto de luz costurado para tapar os buracos escuros dos dias. Cada máscara é menos esconderijo e mais liberdade, porque há rostos que só conseguem respirar quando se permitem ser outros. E quando o povo se fantasia, acontece o mais bonito: ninguém vira mentira, todo mundo vira possibilidade.
Mas há também, no meio dessa multidão que parece um mar em festa, um detalhe que quase ninguém fotografa e que para mim é o centro de tudo: o olhar que procura um outro olhar. Porque Carnaval também é um idioma secreto entre duas pessoas, uma carta escrita sem papel, uma promessa que se faz com um gesto. Às vezes é só um encontro rápido, como quem esbarra no destino e finge que foi acidente. Às vezes é um reencontro, desses que chegam com a força de uma música antiga, e a gente entende que certas ausências só se explicam quando voltam.
Eu vejo a rua como um rio que resolveu falar. Os becos como pequenas veias da cidade, por onde corre o sangue quente da multidão. Vejo um bloco se aproximando como quem chega com o sol no bolso. Ouço um surdo batendo e penso: é o coração coletivo ensaiando sua coragem. E a cada batida, o Recife parece dizer: aqui, a dor não manda sozinha; aqui, a saudade não governa; aqui, a esperança ainda tem endereço.
E no meio disso, quando a música sobe e o mundo parece menos pesado, eu lembro de nós. De como o amor, às vezes, é parecido com o frevo: não pede licença, não combina horário, simplesmente acontece e empurra a vida para frente. O amor, quando é verdade, também tem esse jeito de rua tomada, de festa íntima em plena praça, de alegria que não cabe numa frase curta. E se alguém pergunta por que o coração acelera tanto, a resposta é simples e impossível de explicar: porque tem alguém por perto, ou porque tem alguém faltando. E presença e falta, no Carnaval, doem e brilham ao mesmo tempo.
Porque o Carnaval é também uma vingança delicada contra o cinza.
E há uma política nisso, a mais humana, a mais funda. A política do abraço, do encontro, da rua como casa grande sem porteiro. A política da mistura, do pobre e do rico com o mesmo suor no rosto, com o mesmo refrão atravessando o peito. A política do corpo que se recusa a ser apenas ferramenta de trabalho e volta a ser templo de alegria. E isso não é pouco. Numa época em que tentam privatizar até o sorriso e terceirizar até o afeto, Carnaval é uma insurreição colorida: o povo dizendo, sem discurso, com a linguagem mais antiga do mundo, a dança, que ainda sabe ser povo.
Eu lembro que a tristeza, quando chega, é sempre metódica. Ela gosta de rotina, de canto, de isolamento. O Carnaval não. O Carnaval é bagunça sagrada. Ele desmonta a cadeira onde a melancolia senta e coloca no lugar uma orquestra. Ele abre janelas em quem vive fechado. Ele dá ao tímido um estandarte. Ele dá ao cansado uma mão. Ele dá ao enlutado uma tarde em que a lágrima não é proibida, mas aprende a brilhar junto. Porque há gente que sorri no Carnaval como quem diz: eu sobrevivi. E esse sorriso não é superficial: é uma cicatriz que aprendeu a cantar.
E há também quem sorria por uma razão ainda mais delicada: porque, por algumas horas, consegue esquecer o medo de ser rejeitado. No Carnaval, o amor tem menos burocracia. Um beijo não precisa de currículo. Um carinho não exige justificativa. A gente aprende, mesmo que tarde, que o coração é bicho de rua, gosta de vento no rosto, gosta de liberdade, gosta de ser encontrado sem aviso. E quando a noite está bonita, a gente quase acredita que tudo o que nos separou até aqui foi apenas um mal-entendido do tempo.
Eu penso que o Brasil é como um grande tambor: por fora, tantas pancadas; por dentro, um som teimoso querendo nascer bonito. O Carnaval é quando esse som encontra saída. É quando a alma nacional, tão esfolada por notícias duras, consegue por algumas horas vestir sua melhor roupa: a coragem. Coragem de ser feliz, mesmo sem garantias. Coragem de amar o presente, mesmo sem controle. Coragem de dançar sem perguntar se o mundo autorizou.
Quando a noite cair e a música continuar, o Recife vai estar com aquela cara de quem sabe um segredo antigo. O segredo de que a alegria é um direito do povo. O segredo de que a rua é uma mãe grande, e quando a gente volta pra ela, volta também pra nós mesmos. O segredo de que o coração, por mais apertado que esteja, sempre tem um jeito de abrir espaço quando ouve um clarim.
E talvez seja isso que eu mais amo no Carnaval: ele não é só barulho, é confissão. A gente se revela na alegria. Mostra a saudade que guardava. Mostra a coragem que fingia não ter. Mostra o nome de quem mora dentro da gente, mesmo quando ninguém pergunta. E no fim, quando a cidade estiver cansada e bonita, com os olhos brilhando de cansaço e encanto, a gente vai entender que existe um tipo de amor que não se aprende lendo, só vivendo. Um amor que se parece com a rua em fevereiro: intenso, humano, passageiro e inesquecível.
E amanhã, quando tudo parecer retomar sua gravidade, a gente ainda vai carregar algo no peito, uma espécie de perfume que não se explica. Um resto de frevo no sangue. Um brilho que não sai fácil. Um lembrete: a vida pode ser dura, mas não é dona da nossa alma.
Porque hoje é dia de Carnaval.
E Carnaval é quando a esperança, cansada de esperar, decide sair dançando.
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