Os livros que moram em nós. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Têm pessoas que possuem livros como quem reúne objetos. Compram, empilham, exibem, organizam por cor, por assunto, por tamanho, por capricho estético ou pela ambição de parecerem mais cultas do que são. Outras, mais raras, nunca viram nos livros apenas coisas. Viram companhia, abrigo, desvio, espelho, refúgio, provocação. Para essas, um livro não ocupa apenas lugar na estante. Ocupa lugar na vida.

A relação afetiva com os livros começa muito antes da leitura plena. Começa, muitas vezes, no mistério. No volume fechado sobre a mesa. Na lombada gasta. No nome do autor que nada diz à infância, mas cuja solenidade já promete alguma revelação. Começa no gesto de folhear sem entender tudo, no cheiro do papel, na ilustração que antecede a palavra, no silêncio respeitoso de uma casa onde alguém lê. Antes mesmo de sabermos o que um livro diz, já intuíamos que ele guardava alguma coisa importante.

Talvez por isso certos livros permaneçam ligados não apenas ao que contavam, mas ao que éramos quando os encontramos. Há livros de que nos lembramos menos pelo enredo do que pela idade que tínhamos, pela janela ao lado da cama, pela luz da tarde sobre a página, pela fase da vida em que chegaram até nós como chegam algumas pessoas: no momento exato em que ainda não sabíamos nomear aquilo que sentíamos. Um bom livro não nos oferece apenas uma história. Às vezes, nos oferece linguagem. E receber linguagem para aquilo que antes era apenas confusão interior é uma das formas mais discretas e mais profundas de salvamento.

Quem tem relação afetiva com os livros sabe que eles não obedecem à lógica dos demais objetos. Uma cadeira é uma cadeira. Um copo é um copo. Um relógio marca as horas e cumpre seu destino. Já um livro, mesmo fechado, permanece em estado de espera. Ele nos aguarda. E há nessa paciência algo de profundamente comovente. O livro não exige, não cobra, não se impõe. Fica ali, silencioso, até o dia em que a nossa vida finalmente alcança a página que parecia destinada a nos dizer alguma coisa.

Também por isso é tão difícil tratar livros com frieza. Há quem escreva nas margens, há quem dobre a ponta da página, há quem proteja cada exemplar como se estivesse cuidando de uma relíquia. Cada leitor inventa sua forma de intimidade. Porque é disso que se trata: intimidade. Ler é uma experiência solitária, mas nunca inteiramente solitária. Alguém pensou antes de nós, sofreu antes de nós, formulou com palavras mais exatas aquilo que vínhamos apenas pressentindo. E, de repente, no meio de uma tarde qualquer, um desconhecido nos compreende com uma precisão que às vezes nem os mais próximos alcançaram.

É um assombro silencioso. Um autor morto há cem anos entende o que se passa dentro de alguém sentado hoje numa sala modesta, numa rua qualquer, numa cidade distante. Não há milagre pequeno nisso. Os livros derrotam o tempo com uma naturalidade que deveria nos espantar mais. Fazem conversar os vivos com os mortos, os jovens com os velhos, os tímidos com os ousados, os que partiram com os que ainda buscam palavras para permanecer. Talvez sejam, no fundo, a mais elegante prova de que a experiência humana, apesar de toda mudança exterior, continua reconhecendo a si mesma.

Mas seria um engano imaginar que nossa afeição pelos livros nasce apenas das grandes ideias que eles contêm. Muitas vezes, ela nasce das marcas que deixam no cotidiano. O livro esquecido sobre a poltrona. O marcador improvisado. A folha antiga que cai de dentro dele trazendo uma data, uma letra, um nome. A dedicatória escrita numa caligrafia de outro tempo. O volume herdado, o exemplar comprado com sacrifício, o romance relido em fases diferentes da vida e que, a cada retorno, parece ter mudado de assunto quando, na verdade, mudamos nós.

Essa talvez seja uma das belezas mais fundas da leitura: um livro nunca termina de nos ler. Julgamos revisitá-lo, mas é ele que nos mede de novo, comparando em silêncio a criatura que fomos com a que nos tornamos. Há páginas que, aos vinte anos, nos pareceram deslumbrantes e mais tarde soam ingênuas. Outras, antes opacas, de repente se abrem com a claridade brutal das coisas que só a experiência explica. O texto é o mesmo. O leitor é que amadureceu. E essa negociação entre a permanência da obra e a mudança de quem a lê é uma das formas mais nobres de diálogo.

Em tempos de tanta pressa, tanta imagem e tanto ruído, conservar uma relação afetiva com os livros chega a ser um gesto de resistência. Não uma resistência barulhenta, dessas que precisam anunciar a própria virtude, mas uma resistência íntima, paciente, quase doméstica. Abrir um livro ainda é aceitar um pacto cada vez mais raro: o de dedicar tempo ao que não se entrega de imediato. O de renunciar, por algumas horas, ao excesso de estímulos do mundo para acompanhar a cadência mais funda de uma frase, de uma ideia, de uma imaginação alheia. Ler continua sendo uma maneira de escapar do empobrecimento sem precisar levantar a voz.

No fundo, os livros nos atraem porque ampliam a casa interior. Depois deles, nunca mais somos exatamente do tamanho que éramos antes. Um bom livro não acrescenta apenas informação. Acrescenta espaço. Abre janelas onde havia parede. Faz nascer perguntas em lugares antes ocupados por certezas vulgares. Ensina a suspeitar das aparências, a desconfiar do óbvio, a reconhecer complexidade onde a pressa gostaria de enxergar apenas simplificação. E quem aprende isso pela leitura dificilmente volta a caber confortavelmente num mundo estreito.

Talvez seja por isso que os livros despertem uma gratidão tão singular. Não apenas nos entretiveram. Em alguma medida, nos formaram. Há frases que carregamos como quem carrega conselhos. Há personagens de quem lembramos com mais nitidez do que de certas pessoas reais. Há autores cuja voz passou a morar em nós com a familiaridade de um parente antigo. E, quando isso acontece, o livro deixa de ser um volume de papel. Torna-se parte da mobília invisível da alma.

No fim das contas, os livros que mais amamos não são os que exibimos com orgulho, mas os que nos deixaram marcas difíceis de explicar. Aqueles para os quais voltamos não por dever, mas por necessidade. Aqueles que, mesmo fechados na estante, continuam emitindo um tipo raro de presença. Como certas amizades verdadeiras, não precisam de alarde para se fazer notar. Basta saber que estão ali.

E talvez seja essa a definição mais justa de uma relação afetiva com os livros: eles não apenas passam por nossas mãos. Passam a morar em nós.

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