Charutos…Por José Paulo Cavalcanti Filho

Por José Paulo Cavalcanti Filho  –  Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. É  um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comissão da Verdade  –  Lisboa. Na terça-feira desta semana, dei declaração sobre nosso Jornal do Commercio. Por sugestão do amigo Laurindo Ferreira. Comecei lembrando outro amigo, Eduardo Galeano, que dizia “os fins já não justificam os meios. Hoje, os meios de comunicação é que justificam os fins”.

Lembrei também Pulitzer, quer definia a imprensa como “Exatidão!, Exatidão!!, Exatidão!!!”. Uma regra que o JC cumpre com destaque. Exemplarmente. Por ser tão bom, e tão ruim, como todos os grandes jornais do Brasil.

Sem contar, ainda, uma grande vantagem, É que, no Brasil periférico, quase todos os meios de comunicação estão sob controle, ou a serviço, de elites políticas locais. Enquanto o JC fica fora disso, pondo sempre o interesse coletivo como prioridade. E permitindo, a todos e cada um, opiniões livres. O que é (muito) bom. Um privilégio pernambucano.

Em resumo foi isso, reafirmando ser um prazer escrever em nosso JC. Ocorre que estava no escritório (minha sala tem 3 exaustores) e fumava um puro. Cohiba, só para lembrar. E apareci, no vídeo, com o tal charuto na mão.

Saiu no Instagram. Não sei como funciona essa mídia, sou dinossauro.  Mas amigos me ligaram para dizer que alguns leitores não gostaram de me ver com o tal charuto. Cigarro não, claro, jamais fumei. Cigarro é alimento do pulmão, enquanto charuto é para a boca. Do paladar. Arrisco uma defesa, para isso.

E já começo lembrando Anton Tchekhov que, no leito de morte, pedia só morfina com champanhe; e seu personagem Niukhin vivia redigindo conferência, jamais terminada, sobre os “malefícios do teísmo e do cafeismo para o organismo”, no conto Os males do tabaco.

Seguindo nos tais males, bom lembrar que os puros tiveram sempre devotos ilustres como Carroll, Cascudo, Chandler, Conan Doyle, Conrad, Defoe, Dickens, Guerra Junqueiro, Hannah Arendt, Hemingway, Lorca, Mallarmé, Mark Twain, Pessoa, Poe, Stefan Zweig, Stevenson, os três irmãos Max, tantos mais. Hegel e Marx, por economia, só fumavam charutos mata-ratos. Vai ver todos vão para o index dos leitores.

Getúlio Vargas eram oito, Freud até 20 por dia. O presidente Kennedy decretou o embargo a Cuba, em fevereiro de 1962, apenas quando seus assessores compraram, e estocaram, todos os cigarrillos Petit Upmann disponíveis no mercado americano (fato confirmado pelo amigo Stephen, da CIA).

O papa Francisco proibiu, em 2018, a venda de cigarros no Vaticano, sem fazer qualquer restrição aos charutos. Até por ter, ali, muitos aficionados ‒ como o papa João XXIII, que era um fumante inveterado.

Manuel Bandeira lembrava (Evocação do Recife) que “Atrás de casa ficava a Rua da Saudade, onde se ia fumar escondido”. E Eça de Queiroz (A correspondência de Fradique Mendes), que “pensar e fumar são duas operações idênticas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento”.

Cabrera Infante (Tristes tigres) falava nos momentos em que se sentia feliz, “É quando fumo meu charuto em paz, tranquilo, na escuridão. O que antes era uma guerra, transforma-se em brasas civilizadas que brilham na noite como o farol da alma”. E Machado de Assis (Linha reta e linha curva), “O charuto é um verdadeiro Memento Homo: convertendo-se pouco a pouco em cinzas vai lembrando, ao homem, o fim real e infalível de todas as coisas”.

Carneiro Vilela, primeiro presidente da Academia Pernambucana de Letras, escreveu artigo no Diário de Pernambuco (edição de 12/08/1888) em que pedia “uns cobrinhos para o bond e os charutos”. Conta-se que perguntaram, a Guimarães Rosa, “como o senhor quer abrir a porta de casa com um charuto?”; e, ele, “então acho que fumei a chave”.

Kipling escreveu poema, The betrothed (A prometida), que começava com ameaça da mulher Maggie “Você terá que escolher, ou seus charutos ou eu”; e o marido respondeu com o famoso verso A woman is only a woman, but a good cigar is a smoke (em tradução livre Uma mulher é só uma mulher, mas um bom charuto é uma fumaça), após o que preferiu ficar com seu fumo.

O café da manhã de Churchill era champanhe e charutos (Romeo y Julieta ou La Aroma de Cuba). George Burns, quando completou 100 anos, disse que caso tivesse parado de fumar charutos e talvez não viveria o bastante para comparecer ao funeral do seu médico.

Sem esquecer por fim, e isso vale para todos aqueles não apreciadores, que Hitler, primeiro chefe de Governo a proibir que se fumasse na sua frente, seria hoje (segundo Carlos Heitor Cony) o Patrono do Antitabagismo.

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