A crônica domingueira. Por Magno Martins

Por Magno Martins – Jornalista, poeta e escritor – Vivi muitos carnavais no Sertão, de onde venho. Lá, garoto, brincava os quatro dias de folia nos clubes. O Acai, Aero Clube de Afogados da Ingazeira, era a nossa Marquês de Sapucaí. Eu era feliz e não sabia!

Nos nossos carnavais, as palavras eram substituídas por sorrisos e o alto astral era linguagem universal da alegria. Uma época em que as almas se libertavam e os sonhos se tornavam realidade, através das fantasias coloridas.

Era a festa que aquecia o coração e agitava a alma. Não havia violência, não se roubava o beijo sem consentimento, não havia desrespeito. Tudo era fantasia, que virava realidade quando aparecia o amor com o símbolo da folia. Seu Dinamérico, o maestro Dino, com Guaxinim e seu sax de ouro, orquestravam o amor no compasso da folia.

O Carnaval era feito de samba no pé, sorriso no rosto e purpurina na pele. Os apaixonados traziam flores para enfeitar o carnaval das suas amadas junto com confetes e serpentinas, colorindo e alegrando a passarela.

Meus carnavais em Afogados da Ingazeira, meu reino encantado da juventude, eram como fogos de artifício: intensos, brilhantes, mas desapareciam no final do reinado momesco.

Hoje, meus carnavais são evocações da nostalgia de um tempo de marchinhas, confetes e serpentinas, celebrando a alegria da festa de rua. Havia beleza de marchas, o canto de paz e magia. Com a beleza dos velhos carnavais, as marchas eram tão lindas que o povo cantava o seu canto de paz. O segredo? Rodear-se de pessoas que faziam sorrir o coração.

Saudade daqueles carnavais que eram a essência da ancestralidade, onde a luta e a festa eram irmãs. Quem não viveu os carnavais de outrora não sabe o que é alegria genuína. A gente se divertia com as alegorias, as fantasias coloridas, sentia o perfume do amor nas passarelas.

Celebrava a vida com paixão, energia e amor ao máximo. A alegria reinava nos quatro dias de folia. Nas ruas, a festa era o segredo da felicidade. Havia máscaras e cores, sorrisos no ar. Carnaval era tempo de se apaixonar.

Diferente do que acontece hoje, o Carnaval nos ensinava que, mesmo quando os amores eram passageiros, ainda podiam ser inesquecíveis, porque eram como fogos de artifício: intensos, brilhantes e desapareciam no final da festa. Na verdade, os nossos carnavais eram palcos perfeitos para amores efêmeros, onde as máscaras escondiam o que o coração desejava.

Na quarta-feira de cinzas, o silêncio era sagrado e o Carnaval ficava apenas na memória, sem vestígios de plástico nas ruas. Meus carnavais eram capibianos, ou seja, celebravam Capiba e seus frevos românticos: “Espero um ano inteiro até ver chegar fevereiro. Só sei que carrego alegria pra dar e vender”.

As músicas de Capiba são consideradas um “hino” da folia, focando no coletivo, na liberdade e na euforia do povo pernambucano. Capiba foi o nosso mestre do frevo. Definiu o Carnaval como uma eterna renovação de alegria e resistência cultural.

Suas composições, que são eternas, destacam a espera ansiosa por fevereiro, a multidão contagiante, o uso da sombrinha e a paixão pelo frevo até a quarta-feira de cinzas.

Mais do que isso, celebram a identidade nordestina com irreverência e amor. Quando ele canta “Espero um ano inteiro / Até ver chegar fevereiro” mostra a expectativa e a importância emocional do Carnaval para o povo pernambucano, evidenciando que a festa é aguardada como um momento de renovação da alegria.

Já na frase “Só sei que carrego alegria / Pra dar e vender” ressalta o espírito generoso e contagiante do frevo. No verso final, “Mas, se um dia o frevo acabar / Juro que eu vou chorar”, Capiba revela o apego afetivo à tradição e à cultura local, sugerindo que o frevo é mais do que música: é uma expressão fundamental da identidade pernambucana.

O contexto histórico de Capiba como um dos maiores compositores do gênero reforça o valor simbólico da canção, que celebra e preserva a essência do Carnaval pernambucano.

Já em “De Chapéu-de-sol Aberto”, Capiba utiliza a imagem do chapéu de sol aberto para representar não só a proteção contra o sol intenso do Carnaval pernambucano, mas também a liberdade e o colorido das ruas durante a folia.

Essa figura reforça o sentimento de pertencimento e celebração coletiva, especialmente no verso “a multidão me acompanha, eu vou”, que destaca o caráter comunitário do frevo e do Carnaval em Pernambuco.

Às vezes, o verdadeiro brilho do carnaval está em como ele ilumina nossa alma, não apenas as ruas. Assim como os desfiles acabam, a vida continua com seus próprios desafios e triunfos.

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