É em ti que o coração vive. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/MinC – A voz da cantora atravessou a tarde e, enquanto a música seguia, alguma coisa em mim se aproximou de ti com uma certeza que as palavras ainda procuravam alcançar; senti o coração bater com aquela atenção inteira que o amor dá ao corpo, quando um nome, mesmo sem ser pronunciado, ocupa o espaço de cada batida. Continuei ouvindo, entregue à estranha intimidade de uma voz que vinha de tão longe e encontrava, dentro de mim, um caminho tão teu, como se a canção soubesse onde chegar e pudesse tocar, com a delicadeza de quem reconhece uma ferida, a parte da minha vida em que continuas presente.

Procurei compreender aquela emoção, dar-lhe uma forma que eu pudesse sustentar entre as palavras, e descobri como pode ser trabalhoso para um escritor dizer com exatidão o que lhe acontece no peito; acostumamo-nos a atravessar páginas, a interrogar personagens, a acompanhar os sentimentos até os lugares em que eles quase perdem o nome, e, diante do próprio amor, demoramos um pouco a encontrar a primeira frase. A música seguia, e eu percebia que toda tentativa de explicação precisava começar em ti, nessa maneira tão íntima de existires em mim, fazendo com que a beleza de uma voz encontrasse companhia antes mesmo de eu reconhecer por que estava comovido.

Foi então que pensei em como o amor modifica a nossa maneira de escutar, oferecendo a cada canção uma profundidade que talvez ninguém ao nosso lado consiga perceber, porque cada um ouve também com aquilo que viveu. Dentro da mesma música cabem muitas vidas, e cada pessoa recebe dela o que sua própria história torna possível receber; a minha me conduzia a ti, ao sentimento que reconheço quando teu nome passa pelo pensamento e o corpo responde, inteiro, como quem identifica, entre muitas vozes, aquela por quem esperava. Permaneci nessa escuta, deixando que a emoção encontrasse seu curso, com a confiança de quem pode admitir o que sente sem diminuir a própria estatura.

Escrever sobre ti exige de mim esse cuidado com o tempo dos verbos, porque uma palavra distraída pode empurrar para ontem aquilo que continua acontecendo agora, e eu conheço a distância que existe entre recordar um amor e sentir o coração bater dentro dele. Quando procuro a expressão exata, detenho a mão sobre a frase, experimento sua respiração, escuto o que ela afirma, até que o presente encontre lugar e possa dizer, com a inteireza que merece, a verdade desta tarde. É em ti que o coração vive, e preciso que a linguagem acompanhe a vida, que tenha coragem de permanecer onde a emoção permanece.

Também enquanto falo de ti alguma coisa prossegue, uma corrente funda que acompanha as palavras e lhes dá uma temperatura que eu seria incapaz de fabricar por ofício. Conheço a diferença entre uma frase bem construída e outra que me custa uma respiração mais longa, porque nela estou empenhando uma parte de mim; esta que agora escrevo vem desse lugar, do instante em que a música me alcançou e eu reconheci quanto amor ainda circula em minha vida, atravessando o trabalho, acompanhando os dias, encontrando expressão quando uma voz empresta ao sentimento a passagem de que ele precisava.

Talvez nunca consiga nomear por inteiro o que sinto, e essa parte ainda sem nome também participa do que escrevo, dando às palavras uma extensão que o pensamento sozinho não alcançaria. Existem emoções que pedem tempo para chegar à linguagem, que nos fazem interromper uma frase e retomá-la com mais verdade, como se o coração corrigisse, por dentro, a insuficiência da primeira tentativa. Hoje, ao ouvir aquela cantora, percebi que podia começar por uma coisa simples, pelo reconhecimento do amor que me comovia, e deixar que o restante viesse com a paciência de quem acompanha uma vida que ainda se escreve.

A canção chegou ao fim, e continuei a falar de ti, sentindo que a emoção permanecia comigo e pedia o presente, esse tempo em que escrevo, respiro e reconheço teu nome dentro do que me acontece. Digo-o agora com a serenidade de quem encontrou uma frase em que pode se demorar, uma frase que nasceu da música e ganhou a medida do meu próprio peito: é em ti que o coração vive, e, enquanto estas palavras chegam à página, é em ti que ele está batendo.

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