O que floresceu sem pedir licença. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Quando penso no que fizeram para impedir aquele amor, lembro de uma árvore que crescia por dentro de um muro, numa estrada por onde passei muitas vezes, e que, a cada inverno, alargava um pouco mais a abertura entre os tijolos, até que se tornou impossível saber se a parede ainda a prendia ou se era a árvore que sustentava a parede. Nunca soube quem a plantou, talvez ninguém, talvez um pássaro tivesse deixado ali o começo de tudo, mas me demorava diante daquela convivência difícil entre a raiz e o obstáculo, sem imaginar que um dia precisaria compreender, através dela, uma parte tão funda da minha própria vida.
Nos primeiros tempos, eu ainda acreditava que a felicidade, por não retirar nada de ninguém, pudesse atravessar o mundo sem despertar a vontade de feri-la, e me parecia natural que duas pessoas, depois de tantas estações gastas na espera, encontrassem uma na outra o lugar onde finalmente respirar com o peito inteiro. Bastava vê-la chegar para que alguma coisa em mim abandonasse a vigilância, como se o corpo, acostumado a dormir com um ouvido atento à tempestade, reconhecesse no rumor de seus passos uma trégua que vinha de muito longe. Eu a escutava falar e descobria quanto da minha vida permanecera sem voz, esperando uma presença diante da qual as palavras pudessem sair descalças.
Foi essa liberdade que incomodou, a maneira como passamos a existir sem consultar os que haviam se habituado a decidir o tamanho de nossa alegria, e logo apareceram as vozes aconselhando prudência, essas vozes que às vezes trazem a tesoura escondida entre as boas intenções e falam da saúde da árvore enquanto escolhem o galho que pretendem cortar. Alguns pronunciavam a palavra cuidado com uma dureza que a própria ameaça dispensaria, outros nos ofereciam o sossego em troca de uma renúncia, como se fosse possível devolver o amor e continuar habitando, sem rachaduras, o corpo que ele despertara. Escutávamos, e por baixo de tudo continuava passando aquela corrente que ninguém de fora conseguia alcançar.
Ainda hoje me impressiona a quantidade de gente que se julga proprietária do destino alheio, gente capaz de atravessar uma existência sem perceber a solidão de alguém, mas que se levanta imediatamente quando esse alguém encontra uma razão para sorrir. Durante anos, podem conviver com uma janela apagada sem perguntar pelo que se passa dentro da casa; basta que uma luz apareça para que exijam explicações sobre a origem da claridade. Conosco foi assim, e houve momentos em que senti o espanto de quem oferece água e recebe de volta a pedra, porque nada em nossa alegria justificava tamanho cerco, nada naquele desejo de caminhar juntos continha uma ofensa que não tivesse sido inventada por quem nos queria separados.
Seria fácil escrever agora que atravessamos tudo sem medo, mas isso retiraria da nossa história justamente a medida de sua coragem, pois conhecemos o cansaço, as noites em que o pensamento continuava aceso depois que o corpo já não suportava o próprio peso, a dificuldade de encontrar uma palavra capaz de amparar o outro quando também precisávamos de amparo. Lembro, sobretudo, de como nossas mãos se procuravam nessas horas, e daquele gesto pequeno, quase sem movimento, vinha uma força que os grandes discursos nunca me deram. Seus dedos entre os meus não resolviam o mundo, mas me devolviam a certeza de estar vivendo alguma coisa que merecia o esforço de permanecer de pé.
O tempo passou sobre nós com suas ferramentas desiguais, levando o que eu desejava conservar, deixando intacto o que tantas vezes pedi que levasse, e precisei aprender a continuar sem transformar a perseguição no único assunto da minha vida. Ainda existe mundo por conhecer, trabalho por fazer, gente a quem oferecer uma palavra que não venha envenenada pelo que me disseram, e seria uma segunda violência permitir que os que nos feriram passassem também a escolher a maneira como trato quem chega. Nesse aprendizado, fui percebendo que aquele amor participava até da generosidade que eu julgava inteiramente minha, pois alguma coisa do seu olhar continuava me ensinando a reconhecer os que sofrem em silêncio.
Voltei àquela estrada muitos anos depois e procurei a árvore, movido por uma curiosidade que talvez fosse uma forma de me procurar, mas o muro havia sido derrubado e a paisagem, alterada por construções que eu não conhecia, quase me fez passar adiante. Reconheci-a pela inclinação do tronco, por uma curva antiga que guardava o esforço de ter crescido onde mal cabia, e fiquei olhando a copa larga, o chão coberto de folhas, a sombra alcançando uma extensão de terra que antes permanecia do outro lado da parede. No tronco, um pedaço de tijolo continuava preso à madeira, tão incorporado ao crescimento que arrancá-lo seria ferir a árvore outra vez.
Permaneci ali algum tempo, acompanhando com os olhos os ramos mais altos, e pensei em tudo o que florescera em mim desde que a amei, nas palavras que encontrei, na ternura que aprendi a sustentar mesmo quando me faltava abrigo, na vida que ainda posso oferecer ao mundo porque a minha foi tocada pela dela. Um pássaro pousou num dos galhos e ficou limpando o bico, indiferente ao tijolo, à antiga parede, à história inteira daquele esforço. Depois voou em direção às casas, levando talvez, sem que ninguém percebesse, a semente de outra árvore.
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