A crônica domingueira. Por Magno Martins
Ali, a única chuva que não falta chega numa torrente de poesia. O sofrimento vira verso improvisado na viola. No sertão que vim ao mundo a verdadeira riqueza não está no bolso, mas na liberdade de ter o mundo inteiro como quintal. A simplicidade da roça e a pureza da infância provam que a felicidade não se compra, se vive nas pequenas grandes coisas da vida.Eu não tinha os brinquedos mais caros, mas tinha o rio para nadar, as árvores para subir e os melhores amigos para correr descalço na terra. Vindo de uma família grande, mas unida — papai Gastão e mamãe Margarida deixaram nove herdeiros — nunca tivemos luxo.
Um carrinho de rolimã, um pé de manga carregado e o pôr do sol no horizonte já nos davam o melhor dia da vida. Aos domingos, nossos piqueniques eram debaixo de árvores, como uma mangueira, nos sítios do meu pai.
Minha infância foi rica de espaço, de ar puro e de risadas. A pobreza era só um detalhe diante de tanta liberdade. Lembro com carinho dos tempos em que a nossa maior riqueza era a imaginação para transformar gravetos e pedras no castelo mais bonito do mundo. A nossa felicidade morava nas coisas simples: no cheiro de terra molhada, no doce de leite de papai e no brilho dos vagalumes ao anoitecer.
A mesa era simples e os recursos escassos, mas o coração transbordava com a pureza de uma vida leve. Na simplicidade, carregava uma riqueza que ninguém pode roubar. Pés descalços, poeira no rosto e um sorriso largo de quem não tinha nada material, mas sentia que tinha o mundo inteiro.
No casarão dos meus pais em Afogados da Ingazeira, nossa única preocupação era brincar, soltar a imaginação e aproveitar o momento. A felicidade vinha de coisas pequenas, como estar com amigos, correr na rua ou curtir a família.
A infância no sertão me ensinou que o luxo não molda o caráter. O que me formou foi o respeito pela terra, o amor da família e a alegria de viver com o essencial. Não havia telas, internet ou marcas famosas. Havia infância real, pura, daquelas que deixam cicatrizes de tombo no joelho e memórias eternas no coração.
Criança feliz no interior não foca no que falta em casa, mas na abundância de vida que há do lado de fora da porta. A terra seca e os pés descalços me ensinaram a caminhar com coragem. Deixei o interior, mas as minhas raízes nunca saíram de mim.
Por isso, me sinto tão feliz quando estou na minha choupana em Arcoverde, compartilhando momentos felizes, serenos e de muito prazer ao lado da minha Nayla.
Hoje, véspera do Dia da Criança, olho para o retrovisor e vem uma sensação maravilhosa: a de que crescer no interior sem dinheiro me ensinou o real valor do suor.
Cada conquista de hoje honra o menino que fui ontem. Minha maior riqueza sempre foi a dignidade que meus pais me ensinaram a ter, mesmo quando faltava quase tudo na mesa.
A infância humilde no sertão me deu a casca grossa necessária para enfrentar o mundo, sem nunca perder a ternura no olhar. Aprendi desde cedo que para colher é preciso plantar, regar e, acima de tudo, ter paciência para esperar o tempo certo.




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