Impediram que vivêssemos, mas era amor. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc –  Existem amores que chegam fazendo barulho, como tempestades que anunciam sua presença antes mesmo da primeira gota tocar a terra. Outros, porém, aproximam-se com a delicadeza da primeira luz da manhã atravessando uma janela antiga, iluminando cada canto da alma sem pedir licença, sem exigir explicações, apenas transformando para sempre a paisagem interior de quem os recebe. O nosso nasceu assim. Não precisou convencer ninguém de sua grandeza, porque desde o primeiro instante carregava aquela serenidade que apenas os sentimentos verdadeiros conhecem, como um rio que já sabe onde desaguará muito antes de encontrar o mar.

Era um amor que não se alimentava de promessas grandiosas, mas da simplicidade dos olhares demorados, da paz encontrada na presença um do outro, da certeza silenciosa de que algumas almas se reconhecem como árvores que, mesmo plantadas em margens diferentes, crescem buscando o mesmo céu. Cada conversa ampliava nossos horizontes. Cada sorriso acrescentava uma nova primavera ao jardim da existência. Cada encontro fazia o tempo perder a arrogância de sua velocidade, porque os minutos pareciam compreender que, diante do amor, correr é sempre uma forma de empobrecer a vida.

Nosso amor floresceu. Não nasceu incompleto, não perdeu a força pelo caminho, não conheceu o desgaste que costuma visitar os sentimentos frágeis. Cresceu inteiro, enraizou-se em nossas almas e encontrou em cada encontro a confirmação de que existiam destinos capazes de conversar com a eternidade. O que não permitiram foi que colhêssemos os frutos dessa árvore. Pessoas aprisionadas pela ambição de controlar a vida alheia, consumidas pela inveja da felicidade que nunca experimentaram e convencidas de que possuíam o direito de decidir o futuro de dois corações ergueram muros onde Deus havia desenhado pontes. Afastaram nossos passos, confundiram nossos caminhos, semearam dúvidas, transformaram o medo em conselho e chamaram de prudência aquilo que, no fundo, era apenas a incapacidade de suportar a beleza de um amor que não lhes pertencia.

Talvez nunca tenham percebido que a inveja possui uma estranha necessidade de destruir aquilo que não consegue construir. Alguns corações adoecem ao contemplar a felicidade alheia, porque jamais aprenderam que o amor não diminui quando encontra abrigo em duas almas, mas ilumina o mundo inteiro. Preferiram acreditar que poderiam decidir nossos destinos, como se o coração humano aceitasse decretos escritos por mãos estranhas. Esqueceram que sentimentos verdadeiros não obedecem às conveniências daqueles que observam de fora. Apenas permanecem fiéis ao chamado silencioso da própria alma.

Conseguiram impedir nossos encontros. Roubaram de nós os dias comuns que se transformam em eternidade quando vividos ao lado de quem se ama. Impediram os cafés compartilhados, os passeios sem destino, os abraços demorados ao final das tardes, os aniversários, os domingos, os natais, os pequenos milagres que formam uma vida inteira. Separaram nossos caminhos sobre a terra, mas jamais tocaram o território onde o amor realmente escolhe morar.

Jamais compreenderam que o amor verdadeiro não vive na proximidade dos corpos. Sua morada é infinitamente mais profunda. Ele habita o lugar onde a memória se transforma em abrigo, onde a saudade deixa de ser apenas ausência para tornar-se fidelidade, onde o tempo aprende, humildemente, que existem sentimentos sobre os quais jamais exercerá qualquer domínio. Conseguiram impedir que dividíssemos a mesma casa, os mesmos amanheceres, as mesmas mesas e os mesmos caminhos. Nunca conseguiram impedir que dividíssemos o mesmo amor.

Durante muito tempo, imaginei que a distância pudesse ensinar o esquecimento. Depois compreendi que o esquecimento é um privilégio reservado aos sentimentos superficiais. Os grandes amores não desaparecem. Tornam-se como rios subterrâneos que seguem seu curso longe dos olhos, alimentando raízes invisíveis que continuam sustentando florestas inteiras. Enquanto o mundo acredita que tudo terminou, eles permanecem escrevendo sua história em silêncio, numa linguagem que apenas o coração é capaz de compreender.

O tempo passou com sua costumeira pretensão de transformar certezas em lembranças. Modificou paisagens, alterou endereços, acrescentou fios prateados aos cabelos, multiplicou responsabilidades e fez as estações repetirem seus ciclos incontáveis. Mesmo assim, jamais conseguiu envelhecer aquilo que nasceu eterno. Existem sentimentos que não pertencem ao calendário dos homens. Pertencem ao infinito. São como as estrelas que continuam brilhando mesmo quando o céu parece encoberto pelas nuvens. Quem olha apenas para a escuridão imagina que elas desapareceram. Quem conhece o universo sabe que continuam lá, silenciosas, fiéis à própria luz.

Talvez esse tenha sido o maior engano daqueles que acreditaram ter vencido. Imaginaram que a distância possuiria força suficiente para dissolver aquilo que nem o tempo consegue enfraquecer. Pensaram que o silêncio apagaria vozes que aprenderam a conversar pela alma. Apostaram que novos dias enterrariam antigas promessas, sem perceber que algumas promessas não pertencem ao calendário dos homens, mas ao relógio invisível da eternidade. Enquanto celebravam uma separação aparente, nosso amor seguia florescendo em silêncio, como uma primavera escondida sob a neve, esperando apenas que Deus continuasse sendo testemunha daquilo que o mundo jamais conseguiu compreender.

Hoje compreendo que algumas histórias jamais conhecerão um ponto final, porque foram escritas numa linguagem que o tempo não sabe apagar. Existem amores destinados a permanecer para sempre, não porque venceram todas as batalhas, mas porque nenhuma batalha foi capaz de alcançar o lugar onde eles verdadeiramente vivem. O nosso jamais terminou. Apenas foi impedido de caminhar sob o mesmo céu. Mesmo assim, continua respirando com a serenidade das estrelas, que permanecem acesas muito depois de os olhos humanos deixarem de contemplá-las. Existem distâncias que separam estradas, jamais corações. Existem despedidas que encerram encontros, jamais o amor.

Se algum dia perguntarem o que aconteceu conosco, talvez respondam que a vida nos levou para direções diferentes. Estarão enganados. A vida apenas permitiu que pessoas interferissem no que nunca lhes pertenceu. Conseguiram afastar nossos passos, mas fracassaram diante do essencial. O amor permaneceu intacto, luminoso e inteiro, porque nasceu num lugar onde nenhuma ambição alcança, nenhuma inveja entra, nenhuma distância governa e nenhum tempo possui autoridade para decretar o fim.

Impediram que vivêssemos juntos. Nunca conseguiram impedir que nos amássemos. E existe uma diferença infinita entre essas duas realidades, porque viver depende das circunstâncias que o mundo tantas vezes insiste em controlar, mas amar pertence à eternidade. O nosso amor continua existindo com a mesma pureza do primeiro dia, como uma chama que nem as tempestades conseguiram apagar, porque foi acesa por Deus no altar mais sagrado da existência humana. E aquilo que Deus escreve na alma com tinta de eternidade nenhuma mão humana consegue apagar, nenhum muro consegue separar e nenhuma despedida conseguirá, jamais, transformar em fim.

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