Prefeitura do Recife: 15 anos de descaso com o prêmio literário da cidade. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc

Dois prefeitos, quinze anos, nenhuma edição: o retrato de um compromisso que a Prefeitura do Recife escolheu esquecer

Instituído em 1972, o Prêmio Literário Cidade do Recife não tem edital, resultado ou publicação desde 2010, ainda na gestão de João da Costa. Nem a gestão de Geraldo Júlio, entre 2013 e 2021, nem a de João Campos, no poder desde 2021, realizaram uma única edição do concurso

O Recife é uma cidade que deu ao Brasil poetas como Solano Trindade, Carlos Pena Filho e João Cabral de Melo Neto. É também a cidade que, há quinze anos, deixou de realizar o prêmio literário criado para continuar essa linhagem. Uma apuração da Gazeta Pernambucana constatou que o Prêmio Literário Cidade do Recife, instituído em 1972 pelo Conselho Municipal de Cultura, não tem edital, resultado ou publicação de vencedores desde 2010.

O concurso premiava, todos os anos, obras inéditas de autores brasileiros nas categorias romance, poesia e teatro. A categoria de poesia carrega até hoje, ao menos no nome, uma homenagem ao poeta recifense Eugênio Coimbra Júnior, jornalista e primeiro ocupante da cadeira 38 da Academia Pernambucana de Letras. É esse o tamanho da tradição que está silenciada.

A última cerimônia documentada do prêmio ocorreu em dezembro de 2012, no Museu da Cidade do Recife. Aqui foram lançados os livros dos vencedores da edição de 2010, ainda sob a gestão do então prefeito João da Costa, do PT, que governou a capital pernambucana entre janeiro de 2009 e janeiro de 2013.

De lá para cá, passaram pela Prefeitura do Recife as gestões de Geraldo Júlio, do PSB, entre 2013 e 2021, e de João Campos, também do PSB, à frente do município desde janeiro de 2021 e reeleito em 2024.

João da Costa foi, portanto, o último prefeito a realizar o Prêmio Literário Cidade do Recife, ainda em 2010. Geraldo Júlio, ao longo de seus dois mandatos e oito anos de gestão, não realizou uma única edição. João Campos, que já soma mais de cinco anos à frente da capital, também não realizou nenhuma.

Em nenhum momento desde então, portanto, o prêmio voltou a existir.

Não há edital publicado nesse período. Não há resultado divulgado. Não há um único autor recifense que tenha visto, nesses anos, sua obra inédita premiada e publicada pela Fundação de Cultura Cidade do Recife. A própria página que a Secretaria de Cultura mantinha para o prêmio, no site oficial da Prefeitura, hoje devolve erro de página não encontrada.

É preciso registrar, com o rigor que a apuração exige, que a ausência de registros públicos não prova de forma absoluta que o prêmio jamais foi retomado em algum formato menor ou não divulgado. Mas prova, com certeza, o silêncio. Um prêmio ativo se anuncia. Este não aparece em edital, em rede social ou em imprensa cultural há mais de uma década.

Esse silêncio pesa mais quando se conhece a estatura literária da cidade que o produz. O Recife não precisa inventar uma tradição para justificar um prêmio. Ele já tem essa tradição, viva em nomes que atravessaram o século vinte e ainda ecoam na cultura pernambucana.

Solano Trindade nasceu no bairro de São José, no Recife, em 1908, filho de um sapateiro. Tornou-se um dos criadores da poesia afro-brasileira assumidamente negra no país, organizando ao lado de Gilberto Freyre o primeiro Congresso Afro-Brasileiro, realizado na própria cidade. Sua obra denuncia o racismo e a pobreza sem abrir mão do lirismo popular.

Carlos Pena Filho também viveu no Recife, em 1929, e formou-se em Direito na mesma faculdade que revelou tantos outros escritores pernambucanos. Boêmio e frequentador do Bar Savoy, no centro da cidade, ele transformou o cotidiano da Avenida Guararapes e do bairro de Santo Antônio em matéria poética, retratando a boemia recifense dos anos 1950 com ironia e ternura. Morreu aos 31 anos, em 1960, mas deixou uma obra que João Cabral de Melo Neto e Gilberto Freyre reconheceram como singular.

Mauro Mota nasceu em Nazaré da Mata, no Engenho Buraré, em 1911, mas foi no Recife que construiu carreira, formou-se em Direito e viveu até sua morte, em 1984. Poeta de fundo simbólico, dedicou boa parte de sua obra aos temas nordestinos e ao cotidiano da província, sendo eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1970. É dele o poema Boletim Sentimental da Guerra do Recife, um dos retratos mais conhecidos da cidade em tempos de guerra.

Eugênio Coimbra Júnior, o nome que batiza a categoria de poesia do próprio prêmio hoje esquecido, nasceu no Recife em 1905 e trabalhou como jornalista em praticamente todos os grandes jornais da cidade de sua época. Publicou Poemas de Abril e Outros Poemas e foi o primeiro ocupante de sua cadeira na Academia Pernambucana de Letras.

Joaquim Cardozo nasceu no Recife em 1897 e morreu em Olinda, em 1978. Engenheiro de formação, tornou-se o calculista responsável pelas estruturas que Oscar Niemeyer projetou para Brasília, entre elas o Palácio do Planalto e a Catedral Metropolitana. Foi Manuel Bandeira, ao lado de João Cabral de Melo Neto, quem o incentivou a publicar seu primeiro livro de poesia, em 1947.

Ascenso Ferreira nasceu em Palmares, no interior de Pernambuco, mas foi no Recife, para onde se mudou aos 24 anos, que construiu sua carreira como um dos marcos do modernismo brasileiro na poesia regional. Incentivado por Manuel Bandeira, publicou Catimbó em 1927, dando voz ao homem do engenho e às tradições populares nordestinas, e viveu na cidade até sua morte, em 1965.

Jaci Bezerra nasceu em Murici, em Alagoas, e ainda criança se mudou para Pernambuco, passando primeiro por Jaboatão dos Guararapes antes de se fixar definitivamente no Recife, cidade que se tornou sua terra de adoção e de obra. Um dos expoentes da chamada Geração 65, editou o suplemento literário do Diário de Pernambuco e presidiu a Fundarpe. Recebeu o Prêmio Eugênio Coimbra Júnior em 1985, o mesmo prêmio hoje silenciado pela Prefeitura, numa ironia que a própria história se encarrega de sublinhar.

Terêza Tenório nasceu e morreu no Recife, entre 1949 e 2020, e foi considerada a musa da Geração 65. Cursou Direito e Belas Artes antes de se dedicar inteiramente à poesia. Em 1992, recebeu o Prêmio de Poesia Dramatizada concedido pela própria Fundação de Cultura Cidade do Recife, tornando-se mais uma laureada direta do mecanismo que a Prefeitura deixa hoje sem continuidade.

Austro Costa nasceu em Limoeiro e chegou ao Recife aos 17 anos, tornando-se um dos poetas mais populares de seu tempo, descrito por Gilberto Freyre como um dos melhores poetas românticos que Pernambuco já produziu. Dedicou versos ao rio Capibaribe e às ruas da cidade que o acolheu, tornando-se membro da Academia Pernambucana de Letras.

Audálio Alves integrou essa mesma geração de escritores recifenses que gravitava em torno de nomes como Mauro Mota, Nilo Pereira e César Leal, parte do círculo intelectual que sustentou a vida literária da cidade ao longo do século vinte.

Lucila Nogueira nasceu no Rio de Janeiro, em 1950, mas radicou-se em Pernambuco, onde morreu em 2016. Seu livro de estreia, Almenara, ganhou o Prêmio Manuel Bandeira do Governo de Pernambuco em 1978, prêmio que voltaria a receber anos depois. Foi professora de Letras na Universidade Federal de Pernambuco e a primeira mulher brasileira a representar o país no Festival Internacional de Poesia de Medellín, em 2006.

Francisco Austerliano Bandeira de Mello, poeta, jornalista e advogado que os mais próximos chamavam de Bandeirinha, nasceu no Recife em 29 de abril de 1936 e morreu na mesma cidade em 7 de outubro de 2011, aos 75 anos, vítima de um ataque cardíaco. Ainda em 1955, ganhou o Prêmio de Poesia do Estado de Pernambuco com o livro O Pássaro Narciso. Foi redator do Jornal do Comércio por décadas, onde também registrava suas memórias, participou do projeto do Centro de Convenções de Pernambuco e ocupou o cargo de secretário de Turismo, Cultura e Esportes. Publicou, entre outros títulos, o livro de poemas Máquina de Orfeu, e foi membro da Academia Pernambucana de Letras. O poeta e artista plástico Vicente do Rego Monteiro chegou a incluí-lo entre os nomes ligados à Escola do Recife, celebrando sua obra em versos de forte imagética heráldica, quase de armaria antiga, que retratam o poeta como guardião de símbolos e mistérios.

Há ainda os que não nasceram no Recife, mas que a cidade formou e marcou de maneira definitiva. Castro Alves, baiano, chegou aqui em 1862 e cursou o primeiro e o segundo ano na Faculdade de Direito, antes de se transferir para São Paulo em 1868. Tobias Barreto, sergipano, chegou pouco depois, formou-se bacharel na mesma faculdade e, anos mais tarde, voltou como professor catedrático, tornando-se o líder maior da Escola do Recife. Viveu e morreu aqui, em 1889. Nenhum dos dois nasceu recifense, mas os dois se tornaram, pela obra e pela entrega, parte indissociável da história intelectual da cidade.

O mesmo vale para Ledo Ivo. Alagoano de nascimento, ele veio para o Recife estudar Direito, e foi nesse período de formação que a cidade se instalou de maneira definitiva em sua obra. Em versos que contrapõem a multiplicidade dos amores possíveis à singularidade de uma cidade sem substituto, Ledo Ivo declarou ao Recife um afeto que muitos filhos da terra levariam a vida inteira para sentir com a mesma intensidade.

E há, por fim, o nome que talvez sintetize com mais força essa fusão entre a cidade e sua poesia. João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife em 1920 e fez do rio Capibaribe, das pontes e dos mangues matéria-prima de uma das obras poéticas mais importantes da língua portuguesa no século vinte. Sua poesia não descreve o Recife de fora, como quem observa uma paisagem qualquer. Ela nasce de dentro da geografia da cidade, da lama que a sustenta, da migração que a atravessa.

É essa a estatura da tradição que a Prefeitura do Recife deixa hoje sem prêmio. Não se trata de uma cidade pobre em nomes tentando justificar a ausência de um concurso que talvez nunca tivesse peso real. Trata-se do contrário. Uma cidade riquíssima em história literária, que teve em 1972 o discernimento institucional de criar um mecanismo para premiar seus próprios escritores, e que agora, sob a gestão de João Campos, deixa esse mecanismo apodrecer no esquecimento.

Cada ano sem edital é um ano de escritores recifenses que não têm a oportunidade de ver seus manuscritos avaliados por um júri, premiados e publicados pela própria cidade que os viu nascer ou que os adotou, como adotou Ascenso Ferreira, Jaci Bezerra, Austro Costa, Lucila Nogueira e Ledo Ivo.

A Fundação de Cultura Cidade do Recife e a Secretaria de Cultura do município devem explicações à comunidade literária pernambucana. Por que o prêmio parou. Se o Conselho Municipal de Cultura, responsável histórico por sua concessão, ainda existe e ainda exerce essa função. E, sobretudo, se há qualquer intenção real de devolver ao Recife um instrumento que carrega, no próprio nome, o compromisso de representar a cidade perante a literatura brasileira.

Uma cidade que produziu Solano Trindade, Carlos Pena Filho, Eugênio Coimbra Júnior, Joaquim Cardozo, Terêza Tenório, Francisco Austerliano Bandeira de Mello e João Cabral de Melo Neto, e que soube adotar como seus poetas Mauro Mota, Ascenso Ferreira, Jaci Bezerra, Austro Costa, Lucila Nogueira e Ledo Ivo, não pode se dar ao luxo de manter apagado, por quinze anos, o prêmio que criou para dar continuidade a essa história. A Prefeitura do Recife precisa explicar à cidade por que decidiu, na prática, interromper esse compromisso.

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