Quando as Minhas Décadas Ainda Doem em Mim. Parte II. Por Flávio Chaves

A noite, a radiola e os homens que sofriam em silêncio

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Depois daquela manhã em que “Tu”, na voz de Júlio César, acordou dentro de mim uma vida inteira escondida no tempo, compreendi que as minhas décadas não doem apenas porque passaram; elas doem porque foram vividas com uma intensidade que hoje parece quase impossível, numa época em que a música não era apenas um som disponível a qualquer instante, numa tela fria, num aplicativo obediente, numa lista infinita onde tudo se encontra e quase nada se reverencia, mas era um acontecimento, um ritual, uma espera, uma escolha, uma espécie de cerimônia sentimental que começava antes mesmo da primeira nota, quando alguém comprava um disco, esperava uma canção tocar no rádio, gravava uma fita cassete, escrevia uma carta à mão, oferecia uma música a alguém ou se largava no sofá da sala para ouvir, com o coração desprotegido, aquilo que talvez não tivesse coragem de dizer olhando nos olhos.

Naquele tempo, a música exigia presença. Era preciso parar. Era preciso sentar. Era preciso esperar o lado certo do disco, levantar a tampa da radiola, colocar a agulha com delicadeza, virar a fita no toca-fitas, procurar a estação no rádio, torcer para que o locutor anunciasse aquela canção, e talvez por isso cada música tivesse mais peso, mais corpo, mais destino, porque nada vinha fácil demais, nada chegava sem algum pequeno esforço de amor, e tudo aquilo que exigia espera parecia também merecer mais permanência dentro da gente.

A juventude daquele tempo não ouvia música apenas para preencher silêncio; ouvia para entender a si mesma. Muitas vezes uma canção era o que nos salvava de uma vergonha, de uma timidez, de uma confissão impossível. Dar um disco de presente era entregar uma parte da alma embrulhada em papel; oferecer uma música no rádio era colocar um recado íntimo no ouvido da cidade inteira; convidar alguém para ouvir um som era, muitas vezes, a forma mais bonita e disfarçada de dizer: fique um pouco mais perto de mim, porque eu ainda não sei falar o que sinto, mas esta canção sabe.

E como sabiam aquelas canções. Sabiam mais do que nós. Sabiam o nome das nossas esperas, das nossas paixões, dos nossos medos, das nossas primeiras despedidas, dos nossos ciúmes escondidos, dos nossos bilhetes dobrados no bolso, das nossas cartas escritas com letra caprichada e coração desarrumado, sabiam até aquilo que fingíamos não sentir, porque a música, quando é verdadeira, não pergunta se pode entrar nos lugares secretos da alma; ela simplesmente começa a tocar, e o homem, por mais forte que pareça, vai ficando menor diante dela.

Depois das salas de casa, vieram as noites. Vieram os clubes das cidades do interior, as boates com suas luzes negras e coloridas, os salões onde a juventude ensaiava a eternidade, as festas em que cada roupa parecia escolhida para mudar o destino, os perfumes usados com esperança, os cabelos arrumados diante do espelho como quem se preparava não apenas para sair, mas para ser visto, lembrado, desejado, talvez amado por alguém que também chegaria trazendo dentro de si a mesma fome de vida, a mesma insegurança, a mesma vontade de que uma música lenta começasse na hora certa.

A noite tinha uma liturgia própria. Primeiro vinham as músicas mais rápidas, os corpos se soltando, os olhares se procurando, a pista acesa, as risadas altas, as roupas brilhando sob a luz, os passos talvez desajeitados, mas sinceros, porque a juventude nunca precisa de muita técnica para ser bonita; depois, quando a pista desacelerava e a música lenta começava, alguma coisa no ambiente mudava, como se o mundo reduzisse o volume para permitir que dois corações se ouvissem melhor.

Dançar de rosto colado era um acontecimento. Não era apenas dança. Era uma aproximação perigosa e respeitosa, uma conversa sem palavras, uma confissão feita pela respiração, uma pergunta respondida pelo modo como uma mão se demorava nas costas do outro, uma eternidade medida em poucos minutos, porque muita gente viveu romances inteiros dentro de uma música lenta, e talvez jamais tenha esquecido aquele instante em que o salão desapareceu, as luzes ficaram distantes, os outros casais viraram sombra, e só restou a proximidade de um rosto, o perfume de uma pele, o silêncio tremendo entre duas pessoas que fingiam dançar quando, na verdade, estavam aprendendo a lembrar.

Nessas horas, “We’re All Alone”, na voz de Rita Coolidge, podia cair sobre a pista como uma seda triste; “Skyline Pigeon”, de Elton John, podia abrir no peito uma vontade de voo; “One Day in Your Life”, de Michael Jackson, podia prometer que um dia a lembrança voltaria; e outras canções, brasileiras ou estrangeiras, faziam a noite parecer maior do que ela era, porque a juventude sempre acreditou que uma música bonita tinha poderes que a própria vida não possuía.

Também havia os carros, as estradas curtas, os passeios sem pressa, as fitas cassete cuidadosamente gravadas, o toca-fitas trabalhando como pequeno altar eletrônico dentro do painel, e cada lado da fita parecia guardar uma declaração possível, uma saudade antecipada, uma sequência de canções escolhidas não pelo acaso, mas por uma intenção secreta, porque quem gravava uma fita para alguém não gravava apenas músicas; gravava a ordem do próprio sentimento, escolhia a primeira faixa como quem abre uma passagem, a segunda como quem se aproxima, a terceira como quem quase confessa, e a última como quem deixa uma pergunta no ar.

Hoje tudo pode ser enviado em segundos, mas talvez justamente por isso muita coisa chegue sem alma.

Naquele tempo, uma fita tinha ruído, tinha espera, tinha o lado A e o lado B, tinha a interrupção brusca da gravação quando a música terminava no rádio, tinha a voz do locutor entrando sem ser convidada, tinha o erro, a paciência, o cuidado, e talvez por isso fosse mais humana, porque o amor também nunca veio perfeito, sempre trouxe chiados, cortes, falhas, silêncios, recomeços e aquela estranha beleza das coisas feitas com as mãos e com o coração.

Os cinemas também faziam parte dessa geografia sentimental.

Muita gente aprendeu a amar no escuro de uma sala de cinema, vendo histórias que pareciam maiores do que a própria vida, romances impossíveis, despedidas debaixo de chuva, rostos iluminados pela tela, mãos que se encontravam devagar no braço da poltrona, sorvetes tomados depois da sessão, calçadas molhadas, voltas para casa em silêncio, e alguma pequena relíquia guardada por anos como prova de que aquilo existiu, porque a juventude, quando ama, transforma qualquer vestígio em sacramento: um ingresso antigo, uma fotografia dobrada, uma carta, um lenço, um fio de cabelo, um papel amarelado, qualquer coisa mínima que, aos olhos dos outros, nada significa, mas para quem amou conserva o peso inteiro de uma vida.

Algumas lembranças cabem num lenço, mas atravessam décadas. Um gesto pequeno pode durar mais do que uma promessa.Uma chuva depois do cinema pode molhar para sempre a memória de alguém. Talvez seja por isso que filmes como “Love Story”, “Romeu e Julieta” e tantos outros romances daquela época não ficaram apenas nas telas; entraram na educação sentimental de uma geração que acreditava no amor com uma solenidade quase religiosa, mesmo quando o amor machucava, mesmo quando terminava, mesmo quando deixava para trás apenas uma canção e um objeto guardado numa gaveta.

Os clubes do interior tinham outra grandeza.Não eram apenas prédios sociais; eram palcos da vida. Cada cidade tinha seus salões, seus bailes esperados, suas bandas queridas, seus conjuntos que faziam a juventude atravessar a noite como se atravessasse uma ponte para o futuro. Quando a banda começava, parecia que a cidade inteira ganhava outro coração. Pais observavam, moças sorriam, rapazes criavam coragem, amigos se agrupavam nos cantos, e a música organizava o caos bonito da juventude, distribuindo esperanças, ciúmes, encontros, olhares e despedidas.

A gente saía de casa para dançar, mas, sem saber, saía também para fabricar memória.E que memória. Memória de luzes coloridas, de clubes cheios, de sapatos novos, de camisas passadas, de vestidos que pareciam feitos para uma única noite, de cabelos armados, de meias coloridas, de brilho, de exagero, de juventude querendo ser cinema, novela, música e destino ao mesmo tempo. A vida tinha mais demora, os encontros tinham mais preparação, os amores tinham mais cerimônia, e até a ansiedade de esperar alguém chegar possuía uma doçura que hoje parece perdida no mundo das mensagens instantâneas, onde tudo responde rápido, mas quase nada permanece.

Nos bares onde a música pagava a confissão dos homens, a noite era diferente. Ali a alegria vinha misturada com uma tristeza que ninguém precisava explicar. O sujeito chegava, escolhia uma mesa, pedia uma bebida, olhava a radiola de ficha com a seriedade de quem escolhe uma testemunha, colocava a moeda, apertava o botão, e quando a canção começava, todos sabiam que alguma coisa nele estava sendo dita sem que ele abrisse a boca.

A música que ele pedia na radiola dizia por ele o nome da dor que sua boca não sabia confessar. Alguns homens eram educados demais para chorar em público, orgulhosos demais para contar uma fraqueza, endurecidos demais pela vida para admitir que ainda sofriam por alguém, mas bastava tocar uma canção de Antônio Marcos, Fernando Mendes, Roberto Carlos, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Waldick Soriano, Paulo Sérgio ou tantos outros intérpretes da dor popular, e aquele silêncio masculino começava a rachar por dentro.

O copo ficava parado. O cigarro queimava sozinho. O olhar se perdia num ponto qualquer da parede. Ninguém perguntava nada, porque nos bares antigos havia uma sabedoria silenciosa: certas dores não devem ser interrogadas; devem ser apenas respeitadas enquanto a música faz o seu trabalho. E a música fazia.

Ela tirava do fundo do homem uma ausência que ele escondia até de si mesmo, trazia de volta um rosto, uma traição, uma paixão impossível, uma mulher que partiu, uma promessa que não se cumpriu, uma casa que não esperava mais, um filho distante, uma juventude perdida, um amor enterrado sem despedida. Muita gente pensa que bar era apenas lugar de bebida, mas para muitos homens era também uma espécie de igreja torta, um confessionário sem padre, onde a absolvição vinha em forma de bolero, samba-canção, brega, jovem guarda, música italiana ou balada estrangeira.

E os cabarés de luzes coloridas tinham outra verdade. Ali a vida tirava a máscara das aparências e mostrava sua face mais crua, mais humana, menos arrumada para fotografia. As canções tocavam entre risos, promessas, perfumes fortes, vestidos brilhantes, olhares cansados, dinheiro contado, desejos passageiros e solidões profundas. Mas não se deve olhar esses lugares apenas com o julgamento fácil dos que nunca compreenderam a noite; nos cabarés também havia ternura, havia abandono, havia mulheres que carregavam histórias inteiras nos olhos, homens que chegavam fingindo prazer e muitas vezes buscavam apenas companhia, e músicas que, no meio daquela luz colorida, pareciam iluminar por segundos uma tristeza que o mundo do dia preferia não ver. A noite ensinou muita coisa às minhas décadas.Ensinou que a alegria também pode ser triste. Ensinou que muita dança esconde abandono. Ensinou que o riso alto, às vezes, é apenas uma forma de impedir que o choro seja ouvido.Ensinou que uma música lenta pode ser mais perigosa do que uma declaração.Ensinou que algumas pessoas passam por nós durante uma única noite e, mesmo assim, nunca mais saem completamente.

Por isso, quando hoje escuto certas canções, não escuto apenas a melodia; escuto o ambiente inteiro que vinha com elas. Escuto o salão, a radiola, a banda, o chiado da fita, o locutor da rádio, o carro andando pela avenida, o cinema esvaziando depois da sessão, a chuva batendo na calçada, o bar fechando as portas, a mulher que sorriu e não voltou, o homem que bebeu calado, o casal que dançou sem saber que aquela seria a última música, a juventude inteira tentando ser feliz antes que o tempo lhe explicasse o preço de toda felicidade.

Talvez seja isso que mais doa.Não é apenas a saudade do que se perdeu.É a saudade da maneira como se vivia.Vivíamos mais no olho no olho, mais na espera, mais no risco, mais na coragem física de estar diante do outro, de atravessar um salão, de pedir uma dança, de entregar uma carta, de oferecer uma música, de marcar um encontro, de ficar à porta de um cinema, de esperar na calçada, de voltar para casa molhado de chuva e cheio de uma alegria que ninguém via, mas que fazia o coração bater como se a vida inteira coubesse dentro daquela noite.

As minhas décadas ainda doem em mim porque nelas a música tinha temperatura.Tinha o calor da mão suada no primeiro encontro.Tinha o cheiro da madeira da radiola.Tinha o ruído da fita cassete.Tinha a luz negra das boates.Tinha o som das bandas nos clubes.Tinha o silêncio dos bares depois da última canção.Tinha a delicadeza das cartas.Tinha o drama dos filmes românticos.Tinha a eternidade provisória das paixões juvenis. Tinha tudo aquilo que, mesmo tendo passado, continua vivo em algum lugar onde o tempo não consegue mandar.

A vida mudou, e seria injusto dizer que tudo ficou pior, porque cada tempo tem sua beleza, sua linguagem, sua juventude e sua forma de amar; mas não posso negar que alguma coisa se perdeu quando a música deixou de ser ritual e passou a ser apenas disponibilidade, quando a espera desapareceu, quando as cartas foram substituídas por mensagens rápidas, quando os discos deixaram de ser presentes e as canções deixaram de ser oferendas, quando dançar de rosto colado virou quase uma cena antiga, dessas que os jovens veem com curiosidade, mas talvez nunca compreendam com o corpo.

Só entende completamente aquele tempo quem viveu.Quem viveu sabe.Sabe que uma canção podia mudar a noite.Sabe que uma radiola de ficha podia denunciar um amor secreto.Sabe que uma fita cassete podia carregar uma declaração inteira.Sabe que um baile podia decidir uma juventude.Sabe que um cinema podia fabricar uma lembrança para o resto da vida.Sabe que uma música oferecida no rádio podia fazer alguém sorrir sozinho em casa.Sabe que um objeto pequeno, guardado por anos, podia conter mais amor do que muitos romances inteiros.

Foi por isso que a primeira parte desta crônica acordou tantas memórias em mim e, talvez, em outros corações que também atravessaram aquelas décadas com os olhos acesos e a alma exposta. Porque, no fundo, cada um carrega sua própria radiola, sua própria pista, seu próprio bar, seu próprio cinema, sua própria chuva, sua própria canção impossível de esquecer.

A minha toca dentro de mim até hoje.E quando ela toca, voltam os clubes, os bares, os cabarés de luzes coloridas, os salões, as fitas cassete, os discos presenteados, as cartas escritas à mão, os amores que tiveram coragem, os amores que se calaram, os amores que partiram, os amores que ficaram apenas como música.Porque a vida, quando é vivida com sentimento, não desaparece.Ela se transforma em som.

E onde fica som, fica lembrança; onde fica lembrança, fica alguém que fomos; onde fica alguém que fomos, fica também essa dor bonita, essa dor de reconhecer que fomos felizes, que sofremos, que dançamos, que esperamos, que amamos, que atravessamos noites inteiras acreditando que uma canção poderia salvar alguma coisa dentro de nós.

Talvez salvasse.Talvez ainda salve.Porque certas canções não terminam quando acabam; elas continuam tocando no lugar mais antigo de nós, onde a juventude ainda dança, a saudade ainda respira e as décadas que vivemos continuam doendo como prova de que um dia fomos profundamente felizes.

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