Não Ficamos Juntos Para Sempre, Mas o Que Juntos Vivemos É Para Sempre. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  – Existe uma certa qualidade de luz que pertence apenas às manhãs em que ainda éramos nós, uma luz que não encontrei em nenhum outro lugar depois que parti, e que suspeito nunca mais encontrarei, não porque ela tenha deixado de existir no mundo, mas porque ela só existia daquela forma específica quando seus olhos estavam abertos do outro lado da cama e o dia ainda não havia exigido nada de nós. Saí carregando essa luz sem saber. Ela veio comigo na bagagem invisível que todo amor deixa para quem parte, misturada com o cheiro da sua pele de manhã, com o peso do seu silêncio quando estava pensando em algo que ainda não sabia nomear, com a forma como o tempo parecia ter uma textura diferente quando estávamos juntos, mais lento, mais habitado, mais cheio de si mesmo.

Ainda te trago nos braços, e isso não é figura de linguagem, é a descrição mais honesta que consigo fazer do que sinto quando paro de me mover e deixo o silêncio trabalhar. A pulsação do amor que fizemos, sem nos importar com a perseguição dos inconformados, sem pedir licença ao mundo para ser o que éramos, essa pulsação não foi embora quando eu fui. Ficou em mim como fica a memória muscular de um gesto repetido por amor, como alguém que aprendeu a tocar um instrumento e esquece a teoria, mas os dedos continuam sabendo. Ainda te sinto em carne viva, pulsando de delírio e êxtase naquelas camadas mais fundas onde a razão não chega e o corpo guarda o que a mente preferiria, às vezes, poder esquecer.

Fui eu quem partiu. É importante dizer isso com clareza, não como confissão de culpa, mas como orientação geográfica do que se passou, porque a direção da partida muda tudo na forma como a saudade se instala. Quem fica tem a casa, tem os objetos, tem o cheiro das paredes que ainda guardam a presença de quem foi. Quem parte leva apenas o que cabe dentro de si, e descobre, com o tempo e com a dor, que cabe muito mais do que imaginava. Levo você em cada escolha que faço desde então, em cada silêncio que aprendi a respeitar depois de ter vivido ao seu lado, em cada manhã em que faço café devagar porque foi com você que aprendi que a lentidão pode ser uma forma de reverência às coisas que merecem durar.

O tempo tem um modo peculiar de guardar o que a gente não pediu para que guardasse. Não são os momentos grandes, as datas marcadas no calendário, as promessas ditas em voz alta com a solenidade que os momentos importantes exigem. O que o tempo guarda com mais cuidado são os gestos que ninguém pensou em registrar: a forma como você dobrava o jornal antes de ler, o peso específico do seu silêncio nos entardeceres de domingo, o modo como a tarde mudava de temperatura quando você ria, não o termômetro, mas alguma coisa no ar, alguma coisa na luz, alguma coisa que só existia quando você estava presente e que eu só fui entender que existia quando passei a viver sem ela. São essas coisas que o tempo não apaga. Ele simplesmente as incorpora a quem part e como camadas de tinta sobre uma parede antiga, invisíveis por fora, definitivas por dentro.

Não ficamos juntos para sempre. Esta é uma frase que aprendi a dizer sem dor depois de muito tempo aprendendo a dizê-la sem mentira. Porque durante um bom tempo, dizer isso era apenas uma forma elegante de esconder o que havia de inconcluso, de interrompido, de mal resolvido dentro de mim. Mas existe uma diferença profunda entre o que termina e o que desaparece, e essa diferença levei anos para entender com o corpo, não apenas com a razão. Eu parti, e a nossa convivência partiu comigo, mas o que construímos juntos ficou sedimentado em algum lugar que não é memória, que é mais do que memória, que é a própria forma que minha percepção do mundo tomou depois de você, depois de nós, depois do que nos tornamos um para o outro durante o tempo em que o mundo inteiro podia ir à falência que nós não ligaríamos, porque tínhamos construído dentro dos nossos braços uma morada que não dependia de nada lá fora.

Fui percebendo, com os anos e com a distância, que as pessoas que amamos profundamente não ficam para trás quando partimos delas. Elas vêm conosco de uma forma que não pede passagem nem ocupa espaço visível, mas que reorganiza por dentro tudo aquilo que somos. Você me ensinou, sem querer ensinar, a ouvir o silêncio antes de responder. Me ensinou que a gentileza não é fraqueza, mas uma forma de coragem que poucos têm disposição de exercer. Me ensinou que certas tristezas merecem ser sentidas devagar, sem pressa de resolução, que o luto de qualquer coisa que amamos não é um problema a resolver, mas um processo a atravessar com o respeito que toda transformação merece. Você não sabia que estava me ensinando isso. Provavelmente estava apenas sendo quem era. Mas eu estava lá, inteiro, e aprendi.

Parti carregando mais do que trouxe. Isso é o que ninguém te conta sobre as despedidas que importam, sobre o adeus de todas as despedidas, aquele que não tem data certa, que não se anuncia com clareza, que às vezes só se revela despedida quando já é passado. Ninguém te conta que ir embora de um amor verdadeiro não é esvaziar, é uma forma estranha e dolorosa de encher, porque você parte com tudo que aquela pessoa depositou em você sem perceber, com os gestos dela que viraram seus gestos, com as palavras dela que viraram seu vocabulário afetivo, com a visão de mundo que ela tinha e que foi, lentamente, contaminando a sua até que ficasse impossível distinguir onde terminava ela e onde começava você.

Não te guardo como guarda quem ainda espera. Te guardo como guarda quem entendeu que guardar não é o mesmo que segurar. Você está nas manhãs em que faço café com aquela lentidão que aprendi ao seu lado, está na paciência que desenvolvi para os silêncios alheios, está no modo como olho agora para as coisas pequenas com uma atenção que antes eu não tinha, porque foi dentro da nossa vida comum que aprendi que as coisas pequenas são onde a vida de fato acontece, onde ela pulsa com mais honestidade, longe das plateias, longe das encenações que o mundo exige de nós. Você está em mim com uma permanência que nenhuma distância conseguiu diminuir, e isso não é nostalgia, é arquitetura, é a estrutura invisível que sustenta quem me tornei depois de ter sido, por um tempo que foi curto e foi eterno, alguém que teve o privilégio de amar você sem pedir permissão a ninguém.

Não ficamos juntos para sempre. Mas o que juntos vivemos nunca deixou de acontecer, e o que nunca deixou de acontecer não tem como deixar de ser. Isso não é consolo. É apenas a forma mais precisa que encontrei, depois de todos esses anos e de toda essa distância, para dizer que você não ficou para trás quando eu parti. Você veio. Continua vindo. E em cada lugar novo onde chego, você já estava lá, esperando, dentro de mim, na forma exata que o amor verdadeiro assume quando aprende a existir sem precisar de endereço.

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