A quem dizer o que sentimos. Por Flávio Chaves
Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Existe uma forma de solidão que não se revela no cenário visível das ausências, nem na geometria silenciosa dos espaços vazios, nem na contagem previsível dos dias em que ninguém telefona ou bate à porta. Essa solidão mais evidente, quase didática, pode ser nomeada, descrita e até combatida com alguma facilidade. O que inquieta, no entanto, é aquela outra, mais profunda e menos perceptível, que se instala não ao redor de nós, mas dentro, ocupando o território íntimo onde nascem os sentimentos e onde, muitas vezes, eles permanecem sem destino.
É uma solidão que não depende da quantidade de pessoas que nos cercam, nem da intensidade dos encontros que acumulamos ao longo da vida, mas da impossibilidade, por vezes quase inexplicável, de fazer chegar ao outro aquilo que nos atravessa com verdade. Porque sentir, por si só, nunca foi suficiente. Há no ato de existir uma exigência silenciosa de partilha, uma necessidade quase orgânica de traduzir em palavras aquilo que pulsa no interior, como se o sentimento, ao ser dito, encontrasse finalmente sua forma plena de existir.
E é precisamente nesse ponto que algo falha. Há momentos em que as palavras se formam com nitidez, em que o pensamento se organiza com clareza e o coração parece disposto a se revelar, mas, ainda assim, falta o elemento essencial, que não é a linguagem, nem a coragem, mas a presença de alguém que possa verdadeiramente acolher o que está sendo dito. Não se trata apenas de ouvir, porque ouvir é um gesto comum e frequentemente superficial, mas de compreender, de sustentar, de permanecer diante do outro sem a pressa de responder ou a tentação de reduzir o que é complexo a uma frase breve e conveniente.
Vivemos em um tempo em que a comunicação se expandiu de maneira vertiginosa, em que as palavras circulam com velocidade e abundância, em que tudo parece ao alcance de um toque, e, paradoxalmente, nunca foi tão raro encontrar um espaço onde o que sentimos possa ser depositado com segurança. Fala-se muito, escreve-se muito, reage-se a tudo, mas pouco se escuta de fato, e menos ainda se compreende. Há uma espécie de ruído permanente que ocupa o lugar do encontro, como se a troca tivesse sido substituída por uma sucessão de emissões solitárias que não se encontram em nenhum ponto.
Nesse cenário, os sentimentos mais verdadeiros tendem a recolher-se. Não por falta de intensidade, mas por falta de lugar. Permanecem em estado de suspensão, à espera de um interlocutor que não chega, ou que chega sem a disponibilidade necessária para permanecer. E assim se constrói, pouco a pouco, uma forma de isolamento que não decorre da ausência de vínculos, mas da ausência de profundidade nos vínculos que existem.
Talvez seja por isso que, em algum momento da vida, cada um de nós se depare com a estranha sensação de estar acompanhado e, ainda assim, profundamente só. Não porque faltem pessoas, mas porque falta aquele encontro raro em que é possível baixar as defesas, abandonar as versões editadas de si mesmo e dizer, com inteira honestidade, aquilo que se sente, sem o receio de ser interrompido, interpretado de forma apressada ou, pior, ignorado em sua essência.
É nesse ponto que a solidão revela sua face mais silenciosa e, ao mesmo tempo, mais contundente, pois ela não se anuncia com gestos dramáticos nem com sinais evidentes, mas se instala como uma espécie de distância interna, um intervalo entre o que somos e aquilo que conseguimos compartilhar. E esse intervalo, quando se prolonga, transforma-se em uma espécie de exílio emocional, onde tudo é vivido, mas pouco é dividido.
Com o tempo, aprende-se a conviver com isso. Aprende-se a guardar certas palavras, a adiar certas revelações, a transformar sentimentos em pensamentos solitários que não encontram eco. Mas essa aprendizagem tem um custo, porque aquilo que não é dito não desaparece, apenas se acumula, criando uma densidade silenciosa que pesa mais do que qualquer ausência visível.
E é dessa experiência, ao mesmo tempo comum e profundamente individual, que emerge uma compreensão simples, quase inevitável, que não nasce da teoria nem da observação distante, mas da própria travessia interior de quem já tentou dizer e não encontrou a quem, ou encontrou sem ser verdadeiramente alcançado.
A solidão é não ter a quem dizer o que sentimos.
Não como definição absoluta, mas como reconhecimento íntimo de uma condição que atravessa a todos em algum momento, e que revela, no fundo, o quanto dependemos uns dos outros não apenas para viver, mas para dar sentido ao que vivemos. Porque existir, em sua forma mais plena, talvez seja justamente isso, encontrar alguém diante de quem nossas palavras não se percam e nossos silêncios não precisem ser traduzidos.
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