GAZETA PERNAMBUCANA – A política da conveniência
A formação de chapas e alianças eleitorais tem sido guiada cada vez mais pelo cálculo de votos e influência regional, deixando em segundo plano a experiência política e o compromisso com um projeto de Estado.
Os partidos políticos nasceram com a missão de organizar ideias, formular projetos de sociedade e apresentar à população caminhos possíveis para o desenvolvimento do Estado. Em sua essência, deveriam ser espaços de debate programático, capazes de reunir lideranças comprometidas com agendas públicas voltadas à redução das desigualdades, ao fortalecimento da cidadania e à melhoria da qualidade de vida da população.
Contudo, a prática política contemporânea tem demonstrado um distanciamento cada vez maior desse ideal. A escolha de partidos por muitos atores políticos raramente está associada à afinidade ideológica ou ao compromisso com determinado programa de governo. O critério predominante costuma ser a viabilidade eleitoral: qual legenda oferece maior estrutura, melhores alianças e maiores chances de vitória nas urnas.
Essa lógica também se reflete de maneira clara na formação das chapas majoritárias. Em vez de prevalecer a avaliação da trajetória política, da experiência administrativa ou da capacidade de formulação pública, muitas decisões passam a ser orientadas por cálculos eleitorais bastante objetivos. O que se busca, frequentemente, é a soma de forças regionais, a incorporação de grupos políticos com forte presença em determinados territórios e a ampliação do alcance eleitoral da candidatura principal.
Nesse processo, lideranças ou nomes emergentes podem ser escolhidos não necessariamente pelo histórico político acumulado, mas pelo peso eleitoral de suas bases, pela influência de seus grupos familiares ou pela capacidade de transferir votos em regiões estratégicas do Estado. A composição das chapas transforma-se, assim, em uma espécie de engenharia eleitoral, onde cada peça é posicionada a partir de sua utilidade no mapa dos votos.
O efeito dessa prática tende a aparecer após o processo eleitoral. Quando as alianças são construídas prioritariamente a partir da conveniência eleitoral, governos muitas vezes chegam ao poder sem um projeto consistente de Estado ou sem uma agenda claramente estruturada de desenvolvimento social, cultural e econômico. A administração pública passa então a operar em meio a arranjos políticos e compromissos circunstanciais, o que pode comprometer a capacidade de formular políticas públicas de longo prazo.
É evidente que a política sempre envolverá estratégia, negociação e cálculo de forças. Esses elementos fazem parte do próprio funcionamento da democracia. O problema surge quando a estratégia passa a ocupar todo o espaço e o projeto político deixa de ser o eixo central das decisões partidárias. Quando isso acontece, o objetivo de vencer eleições acaba se sobrepondo à discussão mais profunda sobre o sentido do poder e sobre o projeto de sociedade que se pretende construir.
Diante desse cenário, torna-se cada vez mais necessário recuperar o papel dos partidos como espaços de formulação política e de construção programática. Sem essa base, a disputa eleitoral corre o risco de se transformar apenas em um confronto de forças eleitorais, no qual alianças são moldadas pela conveniência do momento, e não pela convergência de ideias ou pela construção de um projeto coletivo para o futuro do Estado.
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