{"id":5775,"date":"2026-11-06T01:28:14","date_gmt":"2026-11-06T04:28:14","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5775"},"modified":"2026-11-06T19:17:58","modified_gmt":"2026-11-06T22:17:58","slug":"os-anos-que-nao-cabem-numa-fotografia-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5775","title":{"rendered":"Os anos que n\u00e3o cabem numa fotografia. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC\u00a0 \u2013\u00a0 <\/strong>Os anos podem caber numa fotografia, numa sucess\u00e3o de calend\u00e1rios esquecidos ou na mem\u00f3ria de acontecimentos que o tempo se encarrega de reorganizar, mas, quando dedicados \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um romance, adquirem uma dimens\u00e3o particular, porque deixam de ser apenas uma medida cronol\u00f3gica e passam a constituir o espa\u00e7o de uma conviv\u00eancia prolongada com personagens que nascem da imagina\u00e7\u00e3o, amadurecem na linguagem e, pouco a pouco, conquistam uma exist\u00eancia t\u00e3o pr\u00f3pria que o escritor, inicialmente senhor de seus movimentos, acaba descobrindo que tamb\u00e9m precisa aprender a escut\u00e1-los.<\/p>\n<p>Hoje, ao concluir os 132 cap\u00edtulos de <em>O Beijo Subversivo<\/em>, experimento uma emo\u00e7\u00e3o que me surpreende pela intensidade e pela dificuldade de traduzi-la, embora tenha passado uma parte consider\u00e1vel da exist\u00eancia procurando justamente nas palavras uma maneira de compreender o mundo e oferecer alguma dura\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que a passagem dos anos costuma dispersar. N\u00e3o se trata apenas da satisfa\u00e7\u00e3o natural de quem termina um trabalho de grandes propor\u00e7\u00f5es, mas de uma sensa\u00e7\u00e3o mais complexa, na qual a alegria da realiza\u00e7\u00e3o convive com o espanto de perceber que uma constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria alimentada durante tantos anos alcan\u00e7ou finalmente sua \u00faltima p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Durante esse longo percurso, Ednardo Timberg e Lav\u00ednia Belmont deixaram de ser apenas dois nomes inscritos nas primeiras anota\u00e7\u00f5es de um projeto liter\u00e1rio para adquirir a densidade de personagens que pertencem a um universo pr\u00f3prio, atravessado por encontros, diverg\u00eancias, aproxima\u00e7\u00f5es, inquieta\u00e7\u00f5es e circunst\u00e2ncias que desafiam a compreens\u00e3o mais imediata dos sentimentos humanos. Acompanhei suas trajet\u00f3rias com a aten\u00e7\u00e3o que a cria\u00e7\u00e3o romanesca exige, procurando compreender suas escolhas, reconhecer suas contradi\u00e7\u00f5es e permitir que cada acontecimento encontrasse dentro da narrativa as consequ\u00eancias que lhe fossem pr\u00f3prias, sem reduzir a complexidade da exist\u00eancia \u00e0 facilidade das explica\u00e7\u00f5es ou \u00e0 conveni\u00eancia dos desfechos.<\/p>\n<p>Um romance n\u00e3o se constr\u00f3i apenas com acontecimentos. \u00c9 preciso que os personagens possuam uma vida interior, que suas palavras revelem mais do que aquilo que pretendem dizer, que seus sil\u00eancios tenham consequ\u00eancias e que as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas, sociais e familiares n\u00e3o apare\u00e7am como simples cen\u00e1rios, mas como for\u00e7as capazes de interferir nos destinos individuais. Foi essa compreens\u00e3o que orientou a longa elabora\u00e7\u00e3o de <em>O Beijo Subversivo<\/em>, uma obra que procura examinar o amor em confronto com o poder, os interesses, as conven\u00e7\u00f5es e as diversas formas de viol\u00eancia que podem surgir quando a liberdade de escolher a pr\u00f3pria felicidade contraria expectativas estabelecidas.<\/p>\n<p>A literatura sempre me pareceu uma das express\u00f5es mais extraordin\u00e1rias da liberdade humana, justamente porque permite criar exist\u00eancias que n\u00e3o dependem da identidade de quem as imaginou, embora carreguem as perguntas, os conhecimentos e as inquieta\u00e7\u00f5es que alimentam toda cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Dostoi\u00e9vski n\u00e3o precisou ser Rask\u00f3lnikov para compreender os abismos da consci\u00eancia, assim como Tolst\u00f3i n\u00e3o precisou viver a exist\u00eancia de Anna Kari\u00eanina para oferecer \u00e0 literatura uma personagem cuja complexidade continua interrogando leitores de diferentes gera\u00e7\u00f5es. O romancista observa, imagina, investiga, transforma e constr\u00f3i, at\u00e9 que suas criaturas possam caminhar com uma liberdade que j\u00e1 n\u00e3o se confunde com a biografia de seu criador.<\/p>\n<p>Essa independ\u00eancia dos personagens constitui uma das maiores conquistas do romance. Ednardo e Lav\u00ednia pertencem \u00e0 fic\u00e7\u00e3o, e \u00e9 nesse espa\u00e7o que devem ser conhecidos, interpretados e compreendidos, porque uma obra liter\u00e1ria alcan\u00e7a sua verdadeira dimens\u00e3o quando deixa de depender da explica\u00e7\u00e3o de quem a escreveu e encontra leitores capazes de estabelecer com ela suas pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es de sensibilidade, conhecimento e imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao longo desses anos, experimentei tamb\u00e9m as dificuldades que acompanham a elabora\u00e7\u00e3o de uma narrativa extensa, os momentos em que determinado cap\u00edtulo exigia um novo olhar, as ocasi\u00f5es em que uma frase precisava amadurecer antes de encontrar seu lugar, as mudan\u00e7as de ritmo impostas pelo desenvolvimento da hist\u00f3ria e a necessidade permanente de preservar a coer\u00eancia de um universo ficcional habitado por personagens de temperamentos distintos, interesses conflitantes e maneiras diferentes de compreender a vida. Escrever um romance dessa dimens\u00e3o \u00e9 aprender a conviver com a demora, reconhecendo que a literatura n\u00e3o obedece inteiramente \u00e0 pressa de quem deseja conclu\u00ed-la.<\/p>\n<p>Talvez por isso a chegada \u00e0 \u00faltima p\u00e1gina produza uma emo\u00e7\u00e3o t\u00e3o singular. Durante anos, o escritor se acostuma \u00e0 ideia de que sempre existe um cap\u00edtulo \u00e0 espera, uma cena que ainda precisa respirar, uma conversa interrompida que reclama continuidade, uma situa\u00e7\u00e3o que exige maior profundidade psicol\u00f3gica. Quando finalmente escreve o encerramento, percebe que aquela conviv\u00eancia cotidiana com o universo da obra adquiriu uma import\u00e2ncia que n\u00e3o se mede apenas pelo n\u00famero de p\u00e1ginas produzidas, mas pela dedica\u00e7\u00e3o intelectual e afetiva que se tornou necess\u00e1ria para constru\u00ed-las.<\/p>\n<p>O ponto final, entretanto, n\u00e3o representa o desaparecimento dos personagens. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 justamente depois dele que come\u00e7a uma das experi\u00eancias mais interessantes da literatura, quando a narrativa deixa o espa\u00e7o reservado de sua elabora\u00e7\u00e3o e se prepara para encontrar os leitores, levando consigo perguntas que poder\u00e3o receber respostas diferentes conforme a experi\u00eancia, a sensibilidade e a imagina\u00e7\u00e3o de cada pessoa.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo oferecer explica\u00e7\u00f5es definitivas sobre <em>O Beijo Subversivo<\/em>, muito menos antecipar interpreta\u00e7\u00f5es que pertencem legitimamente a quem se dispuser a percorrer suas p\u00e1ginas. Uma obra liter\u00e1ria precisa conservar suas zonas de reserva, seus aspectos amb\u00edguos e aquela liberdade essencial que permite ao leitor descobrir sentidos que nem sempre foram previstos pelo pr\u00f3prio escritor. Explicar demasiadamente um romance antes que ele seja lido seria priv\u00e1-lo de uma parte importante de sua capacidade de surpreender.<\/p>\n<p>O que posso afirmar, neste momento, \u00e9 que a conclus\u00e3o dessa longa narrativa representa uma realiza\u00e7\u00e3o profundamente significativa em minha trajet\u00f3ria de escritor, n\u00e3o apenas pela extens\u00e3o do trabalho, mas pela oportunidade de desenvolver, ao longo de tantos anos, uma reflex\u00e3o ficcional sobre o amor, a condi\u00e7\u00e3o humana, a dignidade, a liberdade e as rela\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos e as estruturas de poder que procuram determinar seus caminhos.<\/p>\n<p>A emo\u00e7\u00e3o que hoje experimento nasce tamb\u00e9m da consci\u00eancia de que nenhum livro se conclui verdadeiramente no instante em que seu autor escreve a \u00faltima palavra. Depois da cria\u00e7\u00e3o, permanecem o trabalho cuidadoso de revis\u00e3o, a prepara\u00e7\u00e3o editorial e o encontro com aqueles que, ao abrir suas p\u00e1ginas, dar\u00e3o aos personagens uma exist\u00eancia renovada. O manuscrito alcan\u00e7ou seu encerramento narrativo, mas a obra ainda seguir\u00e1 seu percurso at\u00e9 chegar \u00e0s m\u00e3os dos leitores.<\/p>\n<p>E \u00e9 bonito pensar que, depois de tantos anos de conviv\u00eancia com uma hist\u00f3ria ainda in\u00e9dita, chegar\u00e1 o momento em que Ednardo Timberg e Lav\u00ednia Belmont deixar\u00e3o de habitar exclusivamente o universo reservado de sua cria\u00e7\u00e3o para alcan\u00e7ar a imagina\u00e7\u00e3o de pessoas que talvez nunca tenham ouvido falar de suas vidas ficcionais, mas que poder\u00e3o reconhecer em suas experi\u00eancias algumas das grandes interroga\u00e7\u00f5es que acompanham a humanidade desde que come\u00e7amos a contar hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Hoje, diante dos 132 cap\u00edtulos conclu\u00eddos, sinto uma alegria serena, acompanhada pela emo\u00e7\u00e3o de quem reconhece a dimens\u00e3o de um trabalho constru\u00eddo com persist\u00eancia, imagina\u00e7\u00e3o e fidelidade \u00e0 literatura. N\u00e3o desejo transformar este instante numa despedida, porque os livros, mesmo depois de terminados, continuam oferecendo possibilidades de descoberta, e os personagens que conquistam verdadeiramente uma exist\u00eancia liter\u00e1ria jamais permanecem confinados ao n\u00famero de p\u00e1ginas que os acolheu. O Beijo Subversivo chegou \u00e0 sua \u00faltima p\u00e1gina.<\/p>\n<p>E, enquanto me preparo para iniciar os cuidados que antecedem sua publica\u00e7\u00e3o, compreendo que a conclus\u00e3o de um romance n\u00e3o representa o esgotamento de sua hist\u00f3ria, mas o instante em que uma narrativa, finalmente inteira, come\u00e7a a preparar sua chegada ao mundo.<\/p>\n<p>Porque o escritor encerra o manuscrito.<\/p>\n<p>E a literatura, quando encontra seus leitores, come\u00e7a outra vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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