{"id":5546,"date":"2026-10-21T18:59:11","date_gmt":"2026-10-21T21:59:11","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5546"},"modified":"2026-10-21T18:59:11","modified_gmt":"2026-10-21T21:59:11","slug":"as-cotas-denunciam-o-fracasso-historico-do-estado-brasileiro-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5546","title":{"rendered":"As cotas denunciam o fracasso hist\u00f3rico do Estado brasileiro. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p data-pm-slice=\"1 1 []\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013 <\/strong>Defender as cotas sociais e raciais exige a coragem de encarar o pa\u00eds que tornou necess\u00e1ria a sua exist\u00eancia, porque cada oportunidade assegurada por essa pol\u00edtica carrega a mem\u00f3ria de muitas outras que foram negadas, de gera\u00e7\u00f5es cujo trabalho ajudou a construir uma riqueza da qual permaneceram afastadas, de vidas obrigadas a disputar o futuro sob condi\u00e7\u00f5es profundamente desiguais. Reconhecer a legitimidade dessa repara\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nos imp\u00f5e uma responsabilidade hist\u00f3rica, a de perguntar por que o Estado brasileiro continua devendo tanto \u00e0queles cujos direitos deveria ter assegurado desde o princ\u00edpio.<\/p>\n<p>O Brasil independente j\u00e1 atravessou dois s\u00e9culos, e a Lei \u00c1urea, assinada em 13 de maio de 1888, completou 138 anos em 2026. Aquele diploma extinguiu juridicamente a escravid\u00e3o, sem estabelecer um programa de acesso \u00e0 terra, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o ou de repara\u00e7\u00e3o material aos libertos. A liberdade conquistada pela resist\u00eancia negra e pela luta abolicionista precisava encontrar condi\u00e7\u00f5es para ser exercida, pois o reconhecimento legal, por mais decisivo que fosse, n\u00e3o entregava por si mesmo os meios de sustentar uma fam\u00edlia, frequentar uma escola ou participar da vida nacional em condi\u00e7\u00f5es dignas. A dist\u00e2ncia entre ser declarado livre e conseguir viver plenamente essa liberdade tornou-se uma das grandes d\u00edvidas da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, portanto, localizar com clareza a responsabilidade pelo fracasso. As cotas representam uma conquista; a exclus\u00e3o que tornou necess\u00e1ria a sua cria\u00e7\u00e3o \u00e9 que revela o fracasso hist\u00f3rico do Estado. O jovem que ingressa na universidade por uma pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o exerce um direito, e sua presen\u00e7a deve ser reconhecida com a dignidade de quem alcan\u00e7ou uma oportunidade pela qual muitos antes dele lutaram. Pesquisas sobre a experi\u00eancia brasileira registram benef\u00edcios para os estudantes contemplados e mostram que as cotas de renda, isoladamente, n\u00e3o produzem os mesmos resultados de inclus\u00e3o racial. Defender esses avan\u00e7os e cobrar transforma\u00e7\u00f5es mais profundas s\u00e3o compromissos que se fortalecem mutuamente.<\/p>\n<p>Um Estado pode avan\u00e7ar ao reparar uma injusti\u00e7a e continuar devendo muito por n\u00e3o ter enfrentado suficientemente as estruturas que a perpetuam. Essa compreens\u00e3o impede que a celebra\u00e7\u00e3o de uma conquista seja tomada como encerramento da cobran\u00e7a. Cada estudante que alcan\u00e7a a universidade representa uma vit\u00f3ria que merece ser preservada, enquanto a nossa responsabilidade permanece diante daqueles que perderam a possibilidade de estudar muito antes de chegar ao vestibular. O pa\u00eds real come\u00e7a na inf\u00e2ncia, na alimenta\u00e7\u00e3o que permite aprender, na escola que oferece condi\u00e7\u00f5es de ensino, no trabalho que assegura sustento \u00e0 fam\u00edlia e no enfrentamento ao racismo que restringe oportunidades mesmo quando a forma\u00e7\u00e3o e a compet\u00eancia est\u00e3o presentes.<\/p>\n<p>Os governantes precisam responder por esse compromisso inteiro, com or\u00e7amento, continuidade e resultados que possam ser examinados pela sociedade. A responsabilidade p\u00fablica exige mais que a capacidade de anunciar uma medida, exige sustent\u00e1-la, avali\u00e1-la e articul\u00e1-la a outras pol\u00edticas capazes de alcan\u00e7ar as ra\u00edzes da desigualdade. Direitos pertencem \u00e0 cidadania, e sua garantia n\u00e3o pode depender da conveni\u00eancia eleitoral de quem ocupa o poder. Quando uma conquista \u00e9 apresentada como favor pessoal, a obriga\u00e7\u00e3o do Estado fica encoberta pela propaganda, e o cidad\u00e3o \u00e9 chamado a agradecer por aquilo que j\u00e1 lhe era devido.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica ganha for\u00e7a quando identifica prioridades, omiss\u00f5es e resultados insuficientes, reconhecendo tamb\u00e9m os avan\u00e7os conquistados pela mobiliza\u00e7\u00e3o social e pela a\u00e7\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 justamente esse reconhecimento que permite cobrar mais, porque demonstra que a transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel e precisa ser ampliada. A repara\u00e7\u00e3o exige pol\u00edticas que atravessem mandatos e sobrevivam \u00e0s disputas pelo poder, com a persist\u00eancia necess\u00e1ria para enfrentar uma desigualdade que n\u00e3o ser\u00e1 desfeita no tempo breve de uma campanha.<\/p>\n<p>Defendo as cotas e o direito que elas ajudam a tornar efetivo, enquanto cobro do Estado a transforma\u00e7\u00e3o que permanece incompleta. A necessidade persistente de repara\u00e7\u00e3o deve inquietar qualquer governante que pretenda anunciar a justi\u00e7a como obra conclu\u00edda. Um Brasil menos desigual exige que a origem de uma crian\u00e7a deixe de antecipar os limites de sua vida e que a cor de sua pele deixe de pesar sobre suas oportunidades. Defender a repara\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 exigir que essa d\u00edvida deixe de ser transmitida \u00e0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, porque nenhum pa\u00eds pode considerar cumprido o seu dever enquanto entrega aos filhos a desigualdade que deixou de enfrentar na vida dos pais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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