{"id":5436,"date":"2026-10-12T16:55:11","date_gmt":"2026-10-12T19:55:11","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5436"},"modified":"2026-10-12T16:55:11","modified_gmt":"2026-10-12T19:55:11","slug":"o-que-floresceu-sem-pedir-licenca-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5436","title":{"rendered":"O que floresceu sem pedir licen\u00e7a. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p data-pm-slice=\"1 1 []\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc\u00a0 \u2013\u00a0 <\/strong>Quando penso no que fizeram para impedir aquele amor, lembro de uma \u00e1rvore que crescia por dentro de um muro, numa estrada por onde passei muitas vezes, e que, a cada inverno, alargava um pouco mais a abertura entre os tijolos, at\u00e9 que se tornou imposs\u00edvel saber se a parede ainda a prendia ou se era a \u00e1rvore que sustentava a parede. Nunca soube quem a plantou, talvez ningu\u00e9m, talvez um p\u00e1ssaro tivesse deixado ali o come\u00e7o de tudo, mas me demorava diante daquela conviv\u00eancia dif\u00edcil entre a raiz e o obst\u00e1culo, sem imaginar que um dia precisaria compreender, atrav\u00e9s dela, uma parte t\u00e3o funda da minha pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Nos primeiros tempos, eu ainda acreditava que a felicidade, por n\u00e3o retirar nada de ningu\u00e9m, pudesse atravessar o mundo sem despertar a vontade de feri-la, e me parecia natural que duas pessoas, depois de tantas esta\u00e7\u00f5es gastas na espera, encontrassem uma na outra o lugar onde finalmente respirar com o peito inteiro. Bastava v\u00ea-la chegar para que alguma coisa em mim abandonasse a vigil\u00e2ncia, como se o corpo, acostumado a dormir com um ouvido atento \u00e0 tempestade, reconhecesse no rumor de seus passos uma tr\u00e9gua que vinha de muito longe. Eu a escutava falar e descobria quanto da minha vida permanecera sem voz, esperando uma presen\u00e7a diante da qual as palavras pudessem sair descal\u00e7as.<\/p>\n<p>Foi essa liberdade que incomodou, a maneira como passamos a existir sem consultar os que haviam se habituado a decidir o tamanho de nossa alegria, e logo apareceram as vozes aconselhando prud\u00eancia, essas vozes que \u00e0s vezes trazem a tesoura escondida entre as boas inten\u00e7\u00f5es e falam da sa\u00fade da \u00e1rvore enquanto escolhem o galho que pretendem cortar. Alguns pronunciavam a palavra cuidado com uma dureza que a pr\u00f3pria amea\u00e7a dispensaria, outros nos ofereciam o sossego em troca de uma ren\u00fancia, como se fosse poss\u00edvel devolver o amor e continuar habitando, sem rachaduras, o corpo que ele despertara. Escut\u00e1vamos, e por baixo de tudo continuava passando aquela corrente que ningu\u00e9m de fora conseguia alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Ainda hoje me impressiona a quantidade de gente que se julga propriet\u00e1ria do destino alheio, gente capaz de atravessar uma exist\u00eancia sem perceber a solid\u00e3o de algu\u00e9m, mas que se levanta imediatamente quando esse algu\u00e9m encontra uma raz\u00e3o para sorrir. Durante anos, podem conviver com uma janela apagada sem perguntar pelo que se passa dentro da casa; basta que uma luz apare\u00e7a para que exijam explica\u00e7\u00f5es sobre a origem da claridade. Conosco foi assim, e houve momentos em que senti o espanto de quem oferece \u00e1gua e recebe de volta a pedra, porque nada em nossa alegria justificava tamanho cerco, nada naquele desejo de caminhar juntos continha uma ofensa que n\u00e3o tivesse sido inventada por quem nos queria separados.<\/p>\n<p>Seria f\u00e1cil escrever agora que atravessamos tudo sem medo, mas isso retiraria da nossa hist\u00f3ria justamente a medida de sua coragem, pois conhecemos o cansa\u00e7o, as noites em que o pensamento continuava aceso depois que o corpo j\u00e1 n\u00e3o suportava o pr\u00f3prio peso, a dificuldade de encontrar uma palavra capaz de amparar o outro quando tamb\u00e9m precis\u00e1vamos de amparo. Lembro, sobretudo, de como nossas m\u00e3os se procuravam nessas horas, e daquele gesto pequeno, quase sem movimento, vinha uma for\u00e7a que os grandes discursos nunca me deram. Seus dedos entre os meus n\u00e3o resolviam o mundo, mas me devolviam a certeza de estar vivendo alguma coisa que merecia o esfor\u00e7o de permanecer de p\u00e9.<\/p>\n<p>O tempo passou sobre n\u00f3s com suas ferramentas desiguais, levando o que eu desejava conservar, deixando intacto o que tantas vezes pedi que levasse, e precisei aprender a continuar sem transformar a persegui\u00e7\u00e3o no \u00fanico assunto da minha vida. Ainda existe mundo por conhecer, trabalho por fazer, gente a quem oferecer uma palavra que n\u00e3o venha envenenada pelo que me disseram, e seria uma segunda viol\u00eancia permitir que os que nos feriram passassem tamb\u00e9m a escolher a maneira como trato quem chega. Nesse aprendizado, fui percebendo que aquele amor participava at\u00e9 da generosidade que eu julgava inteiramente minha, pois alguma coisa do seu olhar continuava me ensinando a reconhecer os que sofrem em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Voltei \u00e0quela estrada muitos anos depois e procurei a \u00e1rvore, movido por uma curiosidade que talvez fosse uma forma de me procurar, mas o muro havia sido derrubado e a paisagem, alterada por constru\u00e7\u00f5es que eu n\u00e3o conhecia, quase me fez passar adiante. Reconheci-a pela inclina\u00e7\u00e3o do tronco, por uma curva antiga que guardava o esfor\u00e7o de ter crescido onde mal cabia, e fiquei olhando a copa larga, o ch\u00e3o coberto de folhas, a sombra alcan\u00e7ando uma extens\u00e3o de terra que antes permanecia do outro lado da parede. No tronco, um peda\u00e7o de tijolo continuava preso \u00e0 madeira, t\u00e3o incorporado ao crescimento que arranc\u00e1-lo seria ferir a \u00e1rvore outra vez.<\/p>\n<p>Permaneci ali algum tempo, acompanhando com os olhos os ramos mais altos, e pensei em tudo o que florescera em mim desde que a amei, nas palavras que encontrei, na ternura que aprendi a sustentar mesmo quando me faltava abrigo, na vida que ainda posso oferecer ao mundo porque a minha foi tocada pela dela. Um p\u00e1ssaro pousou num dos galhos e ficou limpando o bico, indiferente ao tijolo, \u00e0 antiga parede, \u00e0 hist\u00f3ria inteira daquele esfor\u00e7o. Depois voou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s casas, levando talvez, sem que ningu\u00e9m percebesse, a semente de outra \u00e1rvore.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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