{"id":5279,"date":"2026-10-01T22:47:06","date_gmt":"2026-10-02T01:47:06","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5279"},"modified":"2026-10-01T22:51:51","modified_gmt":"2026-10-02T01:51:51","slug":"um-novo-livro-comeca-a-nascer-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5279","title":{"rendered":"Um novo livro come\u00e7a a nascer. Amada, trago ao peito as cinzas do amor que nos incendiaram. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p data-pm-slice=\"1 1 []\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<h3><strong>Um novo livro come\u00e7a a nascer<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Do poema \u201cMinha amada, a p\u00e1tria est\u00e1 em chamas\u201d, que publiquei ontem, nasceu o impulso de um novo livro de poesia, que come\u00e7o a escrever com a inten\u00e7\u00e3o de lan\u00e7\u00e1-lo ainda este ano. Nestas p\u00e1ginas, a mulher amada e a p\u00e1tria se aproximam at\u00e9 que a ferida de uma atravesse o corpo da outra, e o amor, perseguido, carregue consigo a terra de onde tentaram expuls\u00e1-lo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O poema que compartilho hoje \u00e9 o segundo passo dessa travessia. Escrevo com a mem\u00f3ria dos canaviais, a ternura que sobrevive \u00e0 viol\u00eancia e a voz de quem conhece o ex\u00edlio sem ter deixado o pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Amada, trago ao peito as cinzas do amor que nos incendiaram<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00e3o me tragam o fogo:<\/strong><br \/>\n<strong>trago uma inf\u00e2ncia de labaredas sob a l\u00edngua<\/strong><br \/>\n<strong>e ainda hoje, quando falo,<\/strong><br \/>\n<strong>\u00e9 a palha dos canaviais que estala entre meus dentes.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cresci nas terras da cana,<\/strong><br \/>\n<strong>com a noite de nuvens queimadas na paisagem ardida,<\/strong><br \/>\n<strong>enquanto as mulheres estendiam nos varais<\/strong><br \/>\n<strong>a pouca brancura que suas m\u00e3os salvavam do mundo,<\/strong><br \/>\n<strong>e o vento vinha dos engenhos<\/strong><br \/>\n<strong>depositar nos len\u00e7\u00f3is a sombra mo\u00edda da lavoura,<\/strong><br \/>\n<strong>como se o campo, sem poder fugir do pr\u00f3prio inc\u00eandio,<\/strong><br \/>\n<strong>se deitasse conosco<\/strong><br \/>\n<strong>e queimasse devagar por dentro do nosso sono.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O a\u00e7\u00facar pousava nas mesas,<\/strong><br \/>\n<strong>neve que aprendera a esconder o inc\u00eandio,<\/strong><br \/>\n<strong>e ningu\u00e9m via, naquela do\u00e7ura,<\/strong><br \/>\n<strong>os homens deixando a pr\u00f3pria sombra nos canaviais;<\/strong><br \/>\n<strong>mas em nossa casa as mulheres recolhiam dos varais<\/strong><br \/>\n<strong>os len\u00e7\u00f3is onde o c\u00e9u queimado pousara,<\/strong><br \/>\n<strong>e havia tanto cuidado em seus bra\u00e7os<\/strong><br \/>\n<strong>que at\u00e9 a cinza<\/strong><br \/>\n<strong>era levada ao peito.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Amada,<\/strong><br \/>\n<strong>quando te abracei, muitos anos depois,<\/strong><br \/>\n<strong>meus bra\u00e7os j\u00e1 conheciam aquele gesto<\/strong><br \/>\n<strong>de recolher do mundo alguma coisa ferida<\/strong><br \/>\n<strong>e dar-lhe, junto ao corpo,<\/strong><br \/>\n<strong>um lugar onde passar a noite.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foi ali que nos acharam,<\/strong><br \/>\n<strong>na pequena extens\u00e3o de terra que dois corpos<\/strong><br \/>\n<strong>fundam quando se abra\u00e7am,<\/strong><br \/>\n<strong>sem cerca, sem escritura,<\/strong><br \/>\n<strong>com apenas uma janela por onde a manh\u00e3<\/strong><br \/>\n<strong>entrava devagar para n\u00e3o nos acordar.<\/strong><br \/>\n<strong>Vieram medir o quarto,<\/strong><br \/>\n<strong>interrogar a cama,<\/strong><br \/>\n<strong>arrancar das paredes o rumor da nossa vida,<\/strong><br \/>\n<strong>porque at\u00e9 o sono de quem ama<\/strong><br \/>\n<strong>lhes parecia uma desobedi\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Amada, estas cinzas que recolho<\/strong><br \/>\n<strong>n\u00e3o ca\u00edram do teu corpo:<\/strong><br \/>\n<strong>s\u00e3o da casa que o nosso amor erguia<\/strong><br \/>\n<strong>e que incendiaram conosco dentro.<\/strong><br \/>\n<strong>Ainda te movias nos meus bra\u00e7os<\/strong><br \/>\n<strong>quando a fuma\u00e7a come\u00e7ou a nos separar.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Domingo querem queimar a p\u00e1tria.<\/strong><br \/>\n<strong>Que venham.<\/strong><br \/>\n<strong>Tragam o combust\u00edvel guardado na garganta,<\/strong><br \/>\n<strong>as promessas com que vestem de trigo<\/strong><br \/>\n<strong>a fome que semeiam,<\/strong><br \/>\n<strong>e seus sapatos limpos para atravessar as cinzas.<\/strong><br \/>\n<strong>Reconhe\u00e7o essas m\u00e3os:<\/strong><br \/>\n<strong>antes de alcan\u00e7arem as janelas do pa\u00eds,<\/strong><br \/>\n<strong>j\u00e1 haviam apagado<\/strong><br \/>\n<strong>a manh\u00e3 dos teus ombros.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Amada, onde est\u00e1s,<\/strong><br \/>\n<strong>que a cidade inteira cabe entre minha m\u00e3o<\/strong><br \/>\n<strong>e o lugar onde teu rosto se deitava?<\/strong><br \/>\n<strong>Continuo sabendo o caminho de casa,<\/strong><br \/>\n<strong>mas h\u00e1 uma fronteira atravessada na soleira,<\/strong><br \/>\n<strong>e a chave que ainda guardo<\/strong><br \/>\n<strong>vai ficando estrangeira dentro do meu bolso.<\/strong><br \/>\n<strong>Ningu\u00e9m precisou me levar para longe:<\/strong><br \/>\n<strong>foram retirando de cada lugar<\/strong><br \/>\n<strong>a parte em que eu podia permanecer contigo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A p\u00e1tria range de madrugada.<\/strong><br \/>\n<strong>\u00c9 uma moenda com os dentes enterrados<\/strong><br \/>\n<strong>no sono dos que trabalham,<\/strong><br \/>\n<strong>e o caldo segue para salas onde a noite<\/strong><br \/>\n<strong>nunca chega com os p\u00e9s descal\u00e7os.<\/strong><br \/>\n<strong>Aqui, uma mulher inclina a panela<\/strong><br \/>\n<strong>para repartir entre os filhos<\/strong><br \/>\n<strong>o que j\u00e1 n\u00e3o cobre o fundo;<\/strong><br \/>\n<strong>mais longe, algu\u00e9m assina a colheita<\/strong><br \/>\n<strong>sem que lhe doa um \u00fanico canavial.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Se eu atravessar o domingo,<\/strong><br \/>\n<strong>seguirei com a terra entranhada nos sapatos<\/strong><br \/>\n<strong>e teu nome por dentro da boca,<\/strong><br \/>\n<strong>onde ningu\u00e9m alcan\u00e7a sem me ferir.<\/strong><br \/>\n<strong>N\u00e3o te esperarei nas esquinas,<\/strong><br \/>\n<strong>mas haver\u00e1 em meu corpo esse modo de inclinar-se<\/strong><br \/>\n<strong>que aprendeu contigo,<\/strong><br \/>\n<strong>como a \u00e1rvore conserva na madeira<\/strong><br \/>\n<strong>a dire\u00e7\u00e3o de um vento que passou.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Escutem, incendi\u00e1rios:<\/strong><br \/>\n<strong>a cana guarda debaixo da terra<\/strong><br \/>\n<strong>o lugar de come\u00e7ar de novo.<\/strong><br \/>\n<strong>Enquanto repartem o campo calcinado,<\/strong><br \/>\n<strong>a soca trabalha no escuro,<\/strong><br \/>\n<strong>re\u00fane o que lhe resta,<\/strong><br \/>\n<strong>empurra contra a cinza<\/strong><br \/>\n<strong>a primeira s\u00edlaba do verde.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Amada,<\/strong><br \/>\n<strong>\u00e9 nessa fundura que te levo,<\/strong><br \/>\n<strong>onde o amor j\u00e1 n\u00e3o precisa de regresso<\/strong><br \/>\n<strong>para continuar movendo a terra.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Que venha o domingo<\/strong><br \/>\n<strong>com sua boca de fornalha.<\/strong><br \/>\n<strong>Debaixo do ch\u00e3o que julgarem vencido,<\/strong><br \/>\n<strong>as ra\u00edzes estar\u00e3o ocupadas<\/strong><br \/>\n<strong>em desobedecer.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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