{"id":5264,"date":"2026-09-29T23:23:36","date_gmt":"2026-09-30T02:23:36","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5264"},"modified":"2026-09-30T11:01:57","modified_gmt":"2026-09-30T14:01:57","slug":"o-reinado-das-pequenas-horas-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5264","title":{"rendered":"O reinado das pequenas horas. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC\u00a0 \u2013\u00a0 <\/strong>A luz estava baixa sobre o vale quando desci \u00e0 varanda com a lata de verniz e o pincel de cerdas macias, decidido a devolver ao port\u00e3o do jardim a cor que o ver\u00e3o lhe toma ano ap\u00f3s ano, e foi nesse intervalo exato, entre o fim do azul e o primeiro poste aceso na ladeira, que Nerivaldo atravessou a rua com o chap\u00e9u na m\u00e3o e o sorriso que eu j\u00e1 tinha visto em outras cidades, em outros anos, em rostos diferentes, o sorriso de quem chega trazendo um presente e deixa no ar, sem perguntar em voz alta, o pre\u00e7o do embrulho.<\/p>\n<p>Pedi que entrasse. Conhe\u00e7o essa esp\u00e9cie de visita como conhe\u00e7o uma dobradi\u00e7a velha: por dentro, pela marca que deixa no ferro. Nerivaldo elogiou o banco de trabalho, disse que oficina bem cuidada \u00e9 sinal de homem de palavra, cumprimentou a figueira, aceitou o caf\u00e9 que lhe servi sem que pedisse, e s\u00f3 ent\u00e3o p\u00f4s a proposta na mesa, embrulhada na seda mais gentil: uma rede de hot\u00e9is queria duzentas pe\u00e7as em tr\u00eas meses, o contrato pedia exclusividade, o nome do cliente ele revelaria no ato da assinatura, e tudo aquilo, acrescentou passando a m\u00e3o no tampo de cedro que eu tinha lixado pela manh\u00e3, era uma chance que ele pr\u00f3prio insistira em me conseguir, porque acreditava no meu talento, porque \u00e9ramos amigos de longa data, porque o mundo gira melhor quando a gente ajuda a girar. Enquanto falava, consultou o rel\u00f3gio duas vezes, mediu o ateli\u00ea com o olhar de quem calcula o que cabe dentro dele e deixou suspensa uma pausa calibrada, posada exatamente no lugar em que a minha resposta devia nascer. As gentilezas dele tinham um livro-caixa escondido por tr\u00e1s, e eu aprendi a ler essas contas na mesma esta\u00e7\u00e3o em que aprendi a ler veio e fibra na madeira: a gentileza que chega com nota de rodap\u00e9 \u00e9 um contrato, e contrato se l\u00ea inteiro antes da assinatura, inclusive a parte escrita no sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o a estima, Nerivaldo, disse eu, servindo-lhe mais caf\u00e9, e agrade\u00e7o a visita tamb\u00e9m. Fa\u00e7o as minhas pe\u00e7as no meu tempo, entrego a quem eu escolher, e prefiro que o nome do cliente chegue antes da exclusividade e depois da mesa, que \u00e9 onde ele sempre sentou. Se um dia voltar sem pressa nenhuma no corpo, o caf\u00e9 continua o mesmo e a porta tamb\u00e9m. Ele riu como ri quem perde uma jogada mas anota o endere\u00e7o, apertou a minha m\u00e3o com for\u00e7a de quem guarda um n\u00famero, despediu-se com eleg\u00e2ncia e desceu a ladeira ajustando o chap\u00e9u contra o vento que a noite trazia do rio. N\u00e3o guardei dele nem o gosto do rancor nem a sombra do medo. O lobo se reconhece pelo rastro, e reconhecer \u00e9 trabalho que se faz em sil\u00eancio, com aten\u00e7\u00e3o e sem \u00f3dio, como se escolhe a ferramenta certa no meio de outras ferramentas, cada uma servindo para aquilo que serve.<\/p>\n<p>Fiquei na varanda depois que ele sumiu na curva, e o pensamento veio com a calma das coisas que j\u00e1 pensaram muito antes de serem pensadas. Reinos, os meus, s\u00e3o pequenos, e n\u00e3o penso em ampli\u00e1-los: reino sobre o que a minha m\u00e3o decide fabricar, sobre a admira\u00e7\u00e3o que escolho distribuir, sobre a porta que se abre e a que se fecha, sobre a palavra que dou e a que guardo. Para quem sonha com imp\u00e9rios, isso \u00e9 quase nada; para quem j\u00e1 viu gente entregar um pa\u00eds inteiro em troca de um abra\u00e7o com cl\u00e1usula de exclusividade, isso \u00e9 um territ\u00f3rio inteiro. A aten\u00e7\u00e3o que dedico aos rastros \u00e9 a mesma que dou ao tempo de secagem do verniz, necess\u00e1ria, t\u00e9cnica, e min\u00fascula diante do que a obra inteira continua pedindo, porque a vida de um homem \u00e9 maior do que a vigil\u00e2ncia que empresta aos lobos, maior at\u00e9 do que a soma de tudo o que eles poderiam tomar.<\/p>\n<p>Anast\u00e1cia chegou quando as estrelas faziam fila sobre o vale. Luthier de Recife, alugara h\u00e1 um m\u00eas a casa azul do outro lado da rua para restaurar os instrumentos da orquestra, e a nossa amizade nasceu na padaria da esquina, quando ela me pediu emprestada a serra de banco para raspar um bordo teimoso e eu pedi em troca que me ensinasse por que toda madeira de violino parece pronta para cantar. O jantar tinha sido ideia dela, proposta com a franqueza de quem n\u00e3o pede licen\u00e7a alheia para desejar, e ela subiu a ladeira com uma garrafa debaixo do bra\u00e7o e o violino no estojo, entrou pelo port\u00e3o que eu tinha acabado de envernizar, olhou o brilho, olhou a mim e disse que a casa estava ficando bonita por fora e por dentro, nessa ordem, e riu antes de eu poder rir. Servi figos do quintal, queijo de Minas, o p\u00e3o que eu tinha feito para a ocasi\u00e3o, e ela falou do som adormecido dentro da madeira, do tempo que uma tampa leva para aceitar a forma que o luthier imp\u00f5e, da paci\u00eancia como mat\u00e9ria-prima, e eu percebi que estava diante de algu\u00e9m que governava o pr\u00f3prio of\u00edcio com o mesmo cuidado com que eu governava as minhas horas, e essa descoberta me encantou mais do que qualquer elogio que j\u00e1 recebi em vida.<\/p>\n<p>Depois do prato, ela destampou o violino e afinou-o contra o barulho leve da rua, e quando o primeiro arco atravessou a primeira nota o c\u00e3o do vizinho parou de latir no meio do latido e sentou-se a escutar, o que fez de Anast\u00e1cia, nas minhas contas, a dona do c\u00e3o mais culto da ladeira. Tocou algo que ela chamou de modinha sem nome, inventada na viagem, e o vale l\u00e1 embaixo recebeu a m\u00fasica como recebe a chuva, sem discutir a dire\u00e7\u00e3o. A m\u00e3o dela procurou a minha sobre o tampo da mesa, ou foi a minha que procurou a dela, e a verdade \u00e9 que a dist\u00e2ncia entre as duas m\u00e3os tinha virado, naquela hora, uma decis\u00e3o tomada por quatro. Bebemos o vinho devagar, rimos das nossas manias de oficina, e a noite foi crescendo no tamanho exato da nossa vontade.<\/p>\n<p>Quinta-feira eu volto para Recife, disse ela ao me ajudar a levar as x\u00edcaras para a cozinha, o ateli\u00ea est\u00e1 cheio de encomenda e o meu tempo tem dona, e a dona sou eu. Gosto de partir quando a coisa est\u00e1 boa, assim a coisa boa fica boa na mem\u00f3ria e sobra vontade de voltar. Ent\u00e3o n\u00f3s dois guardamos as coisas do mesmo jeito, respondi, e ela riu com o riso de quem entende a metade do que foi dito e aprova a metade inteira. Nenhum de n\u00f3s pediu ao outro o resto da vida, e a noite valeu exatamente o tamanho que teve, que era o tamanho de uma noite inteira, o que, j\u00e1 o digo por experi\u00eancia, \u00e9 um dos maiores tamanhos que uma noite consegue ter.<\/p>\n<p>Acompanhei-a at\u00e9 o port\u00e3o, e ela desceu a ladeira com o estojo \u00e0s costas, parando duas vezes para olhar o vale de cima, e eu fiquei na porta o tempo que leva uma boa despedida curta, a de quem sabe que o mundo \u00e9 redondo e que as padarias da esquina existem para essas coisas. Voltei ao port\u00e3o com a lata ainda pela metade e terminei o servi\u00e7o \u00e0 luz do poste, passei a \u00faltima m\u00e3o de verniz no sentido da fibra, com aquela aten\u00e7\u00e3o tranquila que se d\u00e1 ao que se faz bem feito e sem testemunha, e o cheiro do verniz se deitou sobre o cheiro do jasmim como um gato em cima de outro gato, estranho e manso. L\u00e1 embaixo, a cidade continuava acendendo as suas luzes uma por uma, do jeito que acende todas as noites, sem pedir que ningu\u00e9m a admire, e a casa, l\u00e1 em cima, segurava o seu pequeno reino de t\u00e1buas, ferramentas, figos e horas. Quando entrei, deixei o port\u00e3o aberto no \u00e2ngulo de sempre, encostado no jasmim, porque um port\u00e3o rec\u00e9m-pintado \u00e9 uma coisa que ainda est\u00e1 acontecendo, e eu tinha vontade de deixar a noite continuar acontecendo um pouco mais antes de fechar o meu dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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