{"id":5133,"date":"2026-09-20T18:58:51","date_gmt":"2026-09-20T21:58:51","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5133"},"modified":"2026-09-20T20:04:45","modified_gmt":"2026-09-20T23:04:45","slug":"prometem-caneta-a-um-povo-que-nao-tem-comida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5133","title":{"rendered":"Prometem caneta a um povo que n\u00e3o tem comida"},"content":{"rendered":"<p class=\"standfirst\">Jo\u00e3o Campos e Mar\u00edlia Arraes colocaram a caneta no centro da campanha. Nenhum dos dois colocou a comida. A pergunta que fica \u00e9 simples e inc\u00f4moda, e a resposta diz mais sobre a elei\u00e7\u00e3o do que sobre o rem\u00e9dio.<\/p>\n<p class=\"byline\">Artigo de opini\u00e3o publicado em 20 de setembro de 2026. A an\u00e1lise cl\u00ednica citada \u00e9 de uma m\u00e9dica cuja avalia\u00e7\u00e3o circula em v\u00eddeo nas redes. As passagens que atribuem inten\u00e7\u00e3o eleitoral aos candidatos s\u00e3o interpreta\u00e7\u00e3o do autor, e os dados de sa\u00fade e de inseguran\u00e7a alimentar v\u00eam de fontes oficiais identificadas no fim do texto.<\/p>\n<p>Uma m\u00e9dica gravou um v\u00eddeo analisando a promessa das canetas emagrecedoras e disse, em resumo, tr\u00eas coisas que merecem ser ouvidas com calma. A primeira \u00e9 que a obesidade \u00e9 uma doen\u00e7a grave, compar\u00e1vel a um c\u00e2ncer, e que n\u00e3o se distribui rem\u00e9dio para doen\u00e7a grave sem programa de tratamento. A segunda \u00e9 que o rem\u00e9dio exige sobrecarga de prote\u00edna, e que a popula\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 mal alimentada e n\u00e3o tem como comprar carne. A terceira \u00e9 que a caneta no SUS n\u00e3o vai chegar, porque quem tem diabetes j\u00e1 n\u00e3o encontra insulina e quem precisa de um vidro de dipirona passa constrangimento.<\/p>\n<p>Ela fez essa an\u00e1lise olhando para o an\u00fancio federal. Mas o racioc\u00ednio n\u00e3o pertence a partido nem a Bras\u00edlia. Transportado para Pernambuco, ele morde exatamente onde a campanha local d\u00f3i.<\/p>\n<h2>O rem\u00e9dio exige carne. O povo n\u00e3o tem carne.<\/h2>\n<p>Esse \u00e9 o ponto que a m\u00e9dica coloca no centro e que a campanha de Jo\u00e3o Campos e Mar\u00edlia Arraes n\u00e3o menciona em nenhum momento. O tratamento com esse tipo de medicamento reduz o apetite e, para funcionar sem destruir o corpo, exige de 1,2 a 1,5 grama de prote\u00edna por quilo de peso por dia, com acompanhamento de nutricionista, treino de resist\u00eancia e exames peri\u00f3dicos. Isso n\u00e3o \u00e9 um detalhe do tratamento. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o para que ele n\u00e3o fa\u00e7a mal.<\/p>\n<p>Pernambuco tem 35,3 por cento dos seus domic\u00edlios em inseguran\u00e7a alimentar, o quinto pior \u00edndice do pa\u00eds, segundo o IBGE. Entre as fam\u00edlias de menor renda, sete em cada dez vivem essa situa\u00e7\u00e3o de forma moderada ou grave. Uma em cada quatro crian\u00e7as pequenas do estado tem anemia, o que mostra que o problema n\u00e3o \u00e9 apenas a quantidade de comida, \u00e9 a qualidade. A pergunta da m\u00e9dica cabe inteira aqui: como \u00e9 que essa popula\u00e7\u00e3o compra carne.<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 que n\u00e3o compra. E o efeito disso est\u00e1 descrito na pr\u00f3pria an\u00e1lise. Quem usa o rem\u00e9dio sem prote\u00edna suficiente perde massa muscular, fica sem energia, fica sem vitamina, e a m\u00e9dica lembra que o cansa\u00e7o profundo e a depress\u00e3o aparecem exatamente por a\u00ed. Entre trinta e quarenta por cento do peso perdido com esse tipo de medicamento pode ser m\u00fasculo, n\u00e3o gordura. Numa popula\u00e7\u00e3o que j\u00e1 come mal, o resultado \u00e9 uma pessoa que emagrece na balan\u00e7a e enfraquece na vida.<\/p>\n<p>Anunciar uma caneta que corta a fome para quem n\u00e3o tem comida n\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica de sa\u00fade. \u00c9 uma promessa que funciona no palanque e adoece na casa.<\/p>\n<h2>O SUS de Pernambuco n\u00e3o d\u00e1 dipirona. Vai dar caneta.<\/h2>\n<p>A m\u00e9dica diz, com todas as letras, que ningu\u00e9m vai tirar caneta emagrecedora do SUS, e a raz\u00e3o que ela d\u00e1 \u00e9 a mais concreta de todas. Quem tem diabetes n\u00e3o acha insulina na rede p\u00fablica. Para conseguir um vidro de dipirona, o paciente passa por um constrangimento sem tamanho. Se o b\u00e1sico falta, o sofisticado n\u00e3o chega.<\/p>\n<p>Isso deveria ser dito em cada palanque. N\u00e3o existe protocolo cl\u00ednico para obesidade no SUS, e sem protocolo n\u00e3o existe crit\u00e9rio, n\u00e3o existe fila e n\u00e3o existe direito. A decis\u00e3o que autorizaria o medicamento foi adiada e ficou para depois do primeiro turno. O an\u00fancio dos dois candidatos, portanto, n\u00e3o entrega um rem\u00e9dio. Entrega a expectativa de um rem\u00e9dio, criada por quem n\u00e3o tem o poder de produzi-lo no sistema p\u00fablico nem de autoriz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>E h\u00e1 o que a m\u00e9dica chama de aus\u00eancia de programa. Onde est\u00e3o as camas para pacientes obesos nos hospitais pernambucanos. Onde est\u00e1 o atendimento preparado para receber quem se interna com esse diagn\u00f3stico. Quantos nutricionistas existem hoje na rede estadual para acompanhar cada paciente que receberia a inje\u00e7\u00e3o. Nenhum desses n\u00fameros foi apresentado junto com os 100 milh\u00f5es de reais da nova planta do Lafepe. Prometer a ponta de um programa sem construir o meio dele \u00e9 o modo mais antigo de enganar eleitor.<\/p>\n<h2>Ent\u00e3o por que eles n\u00e3o prometem comida?<\/h2>\n<p>Aqui est\u00e1 a pergunta que o eleitor deveria fazer em voz alta, e a resposta \u00e9 pol\u00edtica, n\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Comida n\u00e3o d\u00e1 foto. Uma promessa de garantir tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es por dia para quem n\u00e3o tem nenhuma n\u00e3o tem produto com marca, n\u00e3o tem nome popular, n\u00e3o tem celebridade usando, n\u00e3o tem novela na televis\u00e3o. Ela tem outra coisa, que nenhum candidato quer: ela obriga quem promete a admitir, publicamente e na frente da c\u00e2mera, que hoje falta comida. Prometer caneta \u00e9 dizer que o povo vai receber o que os ricos recebem. Prometer comida \u00e9 dizer que o povo passa fome. A primeira frase elege. A segunda constrange.<\/p>\n<p>Existe tamb\u00e9m o que a m\u00e9dica chama de lobby, e que ela resume dizendo que a caneta chega ao governo quando algu\u00e9m encontra um caminho para vender o produto ao poder p\u00fablico. N\u00e3o \u00e9 preciso supor ilegalidade para enxergar o movimento. \u00c9 um mercado novo, bilion\u00e1rio, que depende de compra p\u00fablica para crescer, e que encontrou na elei\u00e7\u00e3o o seu melhor ve\u00edculo de propaganda. O contribuinte paga a conta duas vezes, uma como paciente e outra como anunciante.<\/p>\n<p>E existe a raz\u00e3o mais direta de todas, que \u00e9 a que a m\u00e9dica chama pelo nome. \u00c9 comprar voto. Comprar o voto de quem est\u00e1 acima do peso, comprar o voto de quem ouviu falar da caneta, comprar o voto de quem acredita que a solu\u00e7\u00e3o chegou de gra\u00e7a. Quando uma promessa escolhe exatamente o p\u00fablico mais vulner\u00e1vel e oferece a ele o produto mais desejado do momento, o alvo n\u00e3o \u00e9 a doen\u00e7a. \u00c9 a urna.<\/p>\n<h2>O que os dois est\u00e3o escondendo<\/h2>\n<p>Escondem que a decis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 deles. A autoriza\u00e7\u00e3o do medicamento est\u00e1 numa comiss\u00e3o federal, com reuni\u00e3o marcada para depois da vota\u00e7\u00e3o, e em setembro do ano passado essa mesma comiss\u00e3o recomendou n\u00e3o incorporar o rem\u00e9dio por causa do custo e da falta de clareza sobre o tempo de uso. Escondem que o estado anuncia 100 milh\u00f5es de reais e n\u00e3o diz quem paga a diferen\u00e7a, num cen\u00e1rio em que o custo estimado de incorpora\u00e7\u00e3o \u00e9 de bilh\u00f5es em cinco anos.<\/p>\n<p>Escondem o custo humano, que \u00e9 o mais grave. Um paciente que come\u00e7a esse tratamento e depois fica sem ele tende a recuperar o peso perdido, e n\u00e3o recupera o m\u00fasculo que perdeu. Sai mais fr\u00e1gil do que entrou. Prometer uma doen\u00e7a cr\u00f4nica tratada por um fornecimento incerto \u00e9 prometer um problema novo para quem j\u00e1 tinha um.<\/p>\n<p>E escondem, sobretudo, a troca que fizeram. Ao escolher a caneta como bandeira, os dois candidatos retiraram do centro da campanha a \u00fanica pergunta que define a vida de um ter\u00e7o dos lares pernambucanos, que \u00e9 como colocar comida suficiente, variada e de qualidade na mesa todos os dias. Se a caneta entra no lugar da comida, o que sai da agenda \u00e9 a comida. A fome continua exatamente onde estava, agora com um nome t\u00e9cnico, uma marca registrada e dois candidatos sorrindo ao lado da caixa.<\/p>\n<blockquote><p>Se a solu\u00e7\u00e3o fosse boa para o povo, o compromisso seria de tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es por dia. Como o compromisso \u00e9 de uma inje\u00e7\u00e3o, o que est\u00e1 sendo comprado n\u00e3o \u00e9 a sa\u00fade de Pernambuco. \u00c9 o voto de quem tem fome, pago com um rem\u00e9dio que talvez nunca chegue.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Campos e Mar\u00edlia Arraes colocaram a caneta no centro da campanha. Nenhum dos dois colocou a comida. A pergunta que fica \u00e9 simples e inc\u00f4moda, e a resposta diz mais sobre a elei\u00e7\u00e3o do que sobre o rem\u00e9dio. Artigo de opini\u00e3o publicado em 20 de setembro de 2026. 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