{"id":5109,"date":"2026-09-19T22:21:24","date_gmt":"2026-09-20T01:21:24","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5109"},"modified":"2026-09-19T22:21:24","modified_gmt":"2026-09-20T01:21:24","slug":"as-pequenas-coisas-que-nos-seguram-no-mundo-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=5109","title":{"rendered":"As pequenas coisas que nos seguram no mundo. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC\u00a0 \u2013\u00a0 <\/strong>Naquela tarde, entrei na padaria com o cansa\u00e7o de quem passou o dia inteiro respondendo perguntas e terminou sem encontrar uma palavra que servisse para si mesmo, enquanto a cidade recolhia das cal\u00e7adas os \u00faltimos peda\u00e7os de sol e as pessoas voltavam para casa carregando sacolas, preocupa\u00e7\u00f5es e alguma esperan\u00e7a embrulhada entre as compras. Eu procurava o dinheiro no bolso, distra\u00eddo com essas aus\u00eancias que \u00e0s vezes caminham conosco e sabem de cor o endere\u00e7o de todas as nossas tristezas, quando a mo\u00e7a do balc\u00e3o ergueu um pequeno pacote e disse que havia separado o p\u00e3o de que eu gostava, porque ele estava acabando e ela estranhara a minha demora. Disse aquilo enquanto ajeitava outros sacos sobre a bancada, com a naturalidade de quem ignora que suas m\u00e3os acabam de tocar uma regi\u00e3o dolorida da vida de algu\u00e9m, e eu, que trazia tantas palavras guardadas, s\u00f3 consegui agradecer, receoso de que a voz denunciasse o que meus olhos j\u00e1 n\u00e3o sabiam esconder.<\/p>\n<p>Fiquei alguns instantes diante dela, tentando acomodar dentro de mim aquela not\u00edcia t\u00e3o pequena, a not\u00edcia de que algu\u00e9m havia percebido que eu ainda n\u00e3o chegara. A mo\u00e7a conhecia apenas meu rosto, o hor\u00e1rio aproximado das minhas visitas e aquela prefer\u00eancia t\u00e3o modesta por um p\u00e3o mais tostado, mas, enquanto eu atravessava as horas convencido de que minha presen\u00e7a pouco alterava o desenho do dia, ela reservara alguma coisa para mim. Talvez tivesse olhado para a porta quando a fornada come\u00e7ou a diminuir, talvez houvesse pensado que eu me atrasara no trabalho, e essa possibilidade me comoveu de uma maneira para a qual eu n\u00e3o estava preparado. Existia, do outro lado da rua que eu percorria quase sem enxergar, uma pessoa capaz de me incluir na sua tarde, de guardar entre tantas encomendas um pacote que ficaria \u00e0 minha espera.<\/p>\n<p>Sa\u00ed levando o p\u00e3o junto ao peito, e o calor atravessou o papel com uma delicadeza que me fez diminuir os passos, como se eu precisasse proteger da pressa aquilo que acabara de receber. Na esquina, um \u00f4nibus passou levantando poeira, algu\u00e9m chamou uma crian\u00e7a pelo nome, uma porta de ferro desceu com estrondo, e, no meio daqueles ru\u00eddos, lembrei-me da cozinha de minha m\u00e3e, onde sempre parecia restar alguma coisa para quem chegasse depois. Ela podia estar cansada, podia trazer nas costas um dia de afazeres e nos olhos uma preocupa\u00e7\u00e3o que n\u00f3s, filhos, demor\u00e1vamos a compreender, mas, quando eu entrava, suas m\u00e3os encontravam um prato e sua voz me perguntava se eu j\u00e1 tinha comido. Hoje penso no tempo que ela gastava cuidando para que a comida n\u00e3o esfriasse, no ouvido atento ao port\u00e3o, naquele pequeno adiamento do pr\u00f3prio descanso at\u00e9 ter certeza de que eu estava em casa.<\/p>\n<p>Durante muitos anos, sentei-me \u00e0quela mesa acreditando que as mesas, as m\u00e3es e os lugares reservados aos filhos pertenciam \u00e0 ordem permanente das coisas, como o ch\u00e3o debaixo dos p\u00e9s, e comi sem perceber que tamb\u00e9m me alimentava de um trabalho silencioso contra a minha solid\u00e3o futura. A gente cresce, aprende o nome de cidades distantes, atravessa aeroportos, conhece pessoas que parecem capazes de mudar a nossa hist\u00f3ria, mas continua sem aprender a olhar demoradamente para quem p\u00f5e um prato diante de n\u00f3s. Eu gostaria de voltar a uma dessas noites sem import\u00e2ncia, uma noite em que nada aconteceu al\u00e9m do jantar, para reparar melhor no rosto de minha m\u00e3e enquanto ela me ouvia, para n\u00e3o me levantar t\u00e3o depressa, para perguntar se tamb\u00e9m estava cansada e se queria que eu ficasse mais um pouco. Trocaria tantas horas que julguei extraordin\u00e1rias por aquela cozinha acesa e pelo direito de demorar \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>Continuei andando, com a impress\u00e3o de que o pacote pesava mais agora, embora contivesse os mesmos poucos p\u00e3es, e pensei nas pessoas que atravessam os dias sem ouvir uma pergunta cuja resposta algu\u00e9m esteja disposto a esperar. Pensei no homem que leva tempo demais escolhendo uma fruta porque ainda n\u00e3o deseja voltar para o apartamento, na mulher que puxa conversa na fila e se desculpa por falar tanto, nos velhos que se vestem cedo para uma visita que talvez s\u00f3 venha no domingo seguinte. Todos eles t\u00eam uma hist\u00f3ria que n\u00e3o cabe naquele instante em que os julgamos demorados, inconvenientes ou distra\u00eddos, e talvez alguns tenham sa\u00eddo de casa apenas para oferecer ao acaso a possibilidade de lhes dirigir a palavra. Eu pr\u00f3prio, naquela tarde, comprara p\u00e3o e recebera uma esp\u00e9cie de abrigo, pequeno o suficiente para caber entre as m\u00e3os, necess\u00e1rio o bastante para mudar meu caminho de volta.<\/p>\n<p>N\u00e3o era a primeira vez que algu\u00e9m me fazia um bem assim, mas certas dores nos deixam t\u00e3o ocupados com o que perdemos que j\u00e1 n\u00e3o reconhecemos o cuidado quando ele chega usando roupas comuns. Lembrei-me de um amigo que certa vez me ligou sem assunto e permaneceu comigo at\u00e9 que o assunto aparecesse, de uma pessoa que percebeu meu sil\u00eancio numa mesa cheia e, ao se despedir, apertou meu ombro por um instante a mais, de tantas presen\u00e7as que me ajudaram a atravessar per\u00edodos dos quais hoje recordo sobretudo o sofrimento. Senti vontade de procur\u00e1-las, de corrigir ao menos um pouco aquela ingratid\u00e3o involunt\u00e1ria da mem\u00f3ria, que conserva com tamanha nitidez a palavra que feriu e deixa se apagarem as vozes que nos acompanharam at\u00e9 a dor ceder. Algumas dessas pessoas ainda estavam ao alcance de uma chamada, e essa constata\u00e7\u00e3o me trouxe uma urg\u00eancia tranquila, quase uma vergonha de ter esperado tanto.<\/p>\n<p>Quando abri a porta de casa, o sil\u00eancio habitual me recebeu, mas eu ainda trazia nos ouvidos a voz da mo\u00e7a dizendo que estranhara minha demora, e por isso acendi a luz da cozinha antes de qualquer outra coisa. Coloquei os p\u00e3es sobre a mesa, tirei um prato do arm\u00e1rio e fiquei olhando para o telefone, onde se acumulavam conversas interrompidas por promessas de nos falarmos com mais calma. Era curioso perceber quantas vezes eu escrevera aquela promessa, como se a calma fosse uma esta\u00e7\u00e3o futura \u00e0 qual todos chegar\u00edamos juntos, com sa\u00fade, disponibilidade e o mesmo n\u00famero de pessoas para abra\u00e7ar. Procurei o nome de um amigo com quem n\u00e3o falava havia meses, algu\u00e9m de quem eu gostava e a quem vinha oferecendo, sem querer, apenas os restos de um tempo que nunca sobrava, e apertei o bot\u00e3o antes que outra desculpa me convencesse a deixar para amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Ele atendeu depois de alguns toques, com uma surpresa que logo se transformou em preocupa\u00e7\u00e3o, perguntando se estava tudo bem, se havia acontecido alguma coisa, e me entristeceu um pouco saber que o nosso afastamento tornara o afeto inesperado a ponto de parecer an\u00fancio de uma not\u00edcia ruim. Respondi que estava em casa, que acabara de comprar p\u00e3o e me lembrara dele, e ent\u00e3o ouvi sua respira\u00e7\u00e3o do outro lado, aquele breve sil\u00eancio em que duas pessoas procuram o caminho de volta a uma intimidade que o tempo cobriu de folhas. Aos poucos, vieram as perguntas, as not\u00edcias da fam\u00edlia, uma lembran\u00e7a que cada um guardava de um jeito, at\u00e9 que sua voz recuperou uma liberdade antiga e ele me contou que vinha atravessando dias dif\u00edceis. Escutei sem olhar as horas, sentado diante do pacote aberto, enquanto a noite crescia na janela e o p\u00e3o perdia o calor.<\/p>\n<p>Quando ele perguntou se eu tinha mesmo tempo para ouvir o restante, puxei a cadeira para mais perto da mesa e pedi que continuasse, porque eu queria saber. Sua voz foi ficando menos cautelosa, como se finalmente pudesse pousar em algum lugar aquilo que carregara durante o dia inteiro, e eu permaneci ali, acompanhando cada palavra, com uma das m\u00e3os sobre o papel da padaria. Lembrei-me de minha m\u00e3e \u00e0 espera do barulho do port\u00e3o, da comida guardada, da mo\u00e7a que reservara meus p\u00e3es, e, enquanto meu amigo falava, parti um deles devagar, recolhendo com os dedos as migalhas que ca\u00edam sobre a mesa. Mais tarde, quando ele disse que ainda n\u00e3o havia jantado, olhei para o que restava no pacote e perguntei se queria vir, pois eu podia passar um caf\u00e9 e ficaria esperando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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