{"id":4947,"date":"2026-09-12T20:57:51","date_gmt":"2026-09-12T23:57:51","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4947"},"modified":"2026-09-12T20:57:51","modified_gmt":"2026-09-12T23:57:51","slug":"quando-a-distancia-revela-o-que-o-coracao-nao-soube-ver-de-perto-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4947","title":{"rendered":"Quando a dist\u00e2ncia revela o que o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o soube ver de perto. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"isSelectedEnd\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves, jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013<\/strong>\u00a0 N\u00e3o espere que a dist\u00e2ncia revele a grandeza daquilo que, t\u00e3o perto, o seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o soube enxergar. Certas pessoas passam por nossa vida carregando uma claridade t\u00e3o serena que nos acostumamos com a luz que oferecem, como algu\u00e9m que abre todas as manh\u00e3s a mesma janela e j\u00e1 n\u00e3o percebe o milagre do sol entrando pela casa. A presen\u00e7a se torna paisagem, o cuidado parece obriga\u00e7\u00e3o, a ternura passa a ser recebida como se jamais pudesse faltar, e aquilo que deveria ser celebrado come\u00e7a silenciosamente a desaparecer sob o peso cruel da rotina. Somente depois, quando a janela se fecha e a casa amanhece escura, compreendemos que n\u00e3o era apenas o sol que entrava por ela, mas uma parte inteira da nossa pr\u00f3pria alegria.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O amor raramente vai embora de uma s\u00f3 vez. Antes de partir, ele recolhe lentamente os seus pertences invis\u00edveis. Guarda a palavra que j\u00e1 n\u00e3o encontra quem a escute, dobra com cuidado o abra\u00e7o que permaneceu esperando, retira da mesa os pequenos gestos que ningu\u00e9m agradeceu e apaga, um por um, os candeeiros que mantinham acesa a intimidade. Quem fica talvez n\u00e3o perceba imediatamente, porque a aus\u00eancia come\u00e7a muito antes da despedida, escondida nos sil\u00eancios que ningu\u00e9m tentou compreender, nos olhos que deixaram de se procurar, nas perguntas que j\u00e1 n\u00e3o foram feitas e na indiferen\u00e7a mi\u00fada que, repetida todos os dias, acaba levantando entre duas pessoas uma muralha mais alta do que qualquer dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Depois que o outro parte, tudo aquilo que parecia pequeno adquire uma grandeza dolorosa. A x\u00edcara deixada sobre a mesa passa a guardar uma hist\u00f3ria, o lugar vazio no sof\u00e1 se transforma numa esp\u00e9cie de abismo dom\u00e9stico, uma m\u00fasica ouvida por acaso devolve uma tarde inteira, e at\u00e9 o perfume que sobrevive numa roupa esquecida consegue abrir dentro do peito uma porta que julg\u00e1vamos definitivamente fechada. \u00c9 quando descobrimos que a felicidade n\u00e3o fazia barulho enquanto morava conosco. Ela n\u00e3o batia pratos, n\u00e3o anunciava a pr\u00f3pria chegada, n\u00e3o acendia fogos no meio da sala. Apenas estava ali, discreta e fiel, perguntando se hav\u00edamos chegado bem, repartindo o p\u00e3o, ajeitando a gola da camisa, oferecendo o lado mais confort\u00e1vel da cama e esperando, com uma paci\u00eancia quase sagrada, que um dia reconhec\u00eassemos o amor escondido na simplicidade daqueles gestos.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A dist\u00e2ncia possui essa estranha crueldade de ampliar tudo aquilo que a proximidade havia diminu\u00eddo. De longe, enxergamos o sorriso que n\u00e3o contemplamos com a devida demora, reconhecemos a voz que muitas vezes ouvimos sem escutar e compreendemos a profundidade de uma companhia que tratamos como se fosse eterna. O que esteve ao alcance das m\u00e3os passa a habitar apenas a mem\u00f3ria, e a mem\u00f3ria, quando alimentada pelo arrependimento, sabe construir pal\u00e1cios em lugares onde j\u00e1 n\u00e3o podemos morar. Visitamos esses pal\u00e1cios durante a madrugada, abrimos quartos que n\u00e3o existem mais, conversamos com sombras, refazemos di\u00e1logos, corrigimos palavras e oferecemos, tarde demais, todas as respostas que o amor esperou enquanto ainda estava diante de n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Talvez uma das maiores trag\u00e9dias humanas seja esta incapacidade de reconhecer a felicidade enquanto ela ainda respira ao nosso lado. Procuramos longe aquilo que nos esperava perto, desejamos o extraordin\u00e1rio e deixamos morrer o essencial, corremos atr\u00e1s de horizontes desconhecidos enquanto algu\u00e9m permanecia na varanda, sustentando com os pr\u00f3prios olhos a esperan\u00e7a de que volt\u00e1ssemos a enxerg\u00e1-lo. Queremos outros caminhos, outras vozes, outras promessas, sem perceber que o verdadeiro amor n\u00e3o costuma chegar vestido de espet\u00e1culo. Ele chega como abrigo. Torna-se cotidiano, aprende nossas cicatrizes, conhece os lugares onde escondemos o medo e permanece mesmo depois de descobrir que n\u00e3o somos t\u00e3o fortes quanto fing\u00edamos ser.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Quando essa pessoa finalmente se afasta, passamos a observ\u00e1-la com uma nitidez que nunca tivemos enquanto estava perto. Cada lembran\u00e7a se torna uma lente, cada saudade devolve um detalhe, cada noite nos apresenta uma pergunta que n\u00e3o conseguimos evitar: por que precisei perder para compreender? A resposta, quase sempre, est\u00e1 na arrog\u00e2ncia secreta de quem acreditou que o amor permaneceria indefinidamente \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, esperando sem se cansar, perdoando sem adoecer, oferecendo sem sentir falta de tamb\u00e9m receber. Esquecemos que at\u00e9 os sentimentos mais profundos precisam de cuidado, porque nenhuma flor sobrevive apenas da promessa de que um dia ser\u00e1 regada.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Amar exige presen\u00e7a, e presen\u00e7a n\u00e3o significa apenas permanecer no mesmo lugar. Duas pessoas podem dividir a mesma casa e morar a quil\u00f4metros uma da outra. Podem dormir na mesma cama e atravessar noites inteiras separadas por oceanos de sil\u00eancio. Podem conhecer os hor\u00e1rios, os h\u00e1bitos e as prefer\u00eancias uma da outra, mas desconhecer completamente as inquieta\u00e7\u00f5es que lhes atravessam a alma. Estar perto \u00e9 perceber quando a voz muda, quando o sorriso perde luz, quando o cansa\u00e7o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas do corpo e quando a pessoa amada come\u00e7a a se recolher porque se cansou de pedir aquilo que deveria nascer espontaneamente. A verdadeira proximidade n\u00e3o se mede em passos, mas na capacidade de alcan\u00e7ar o outro por dentro.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Quem ainda possui perto de si algu\u00e9m que ama n\u00e3o deveria esperar a pedagogia dolorosa da dist\u00e2ncia. Deveria olhar hoje, escutar hoje, abra\u00e7ar hoje e dizer hoje aquilo que tantas pessoas s\u00f3 conseguem pronunciar diante de uma porta fechada. O tempo n\u00e3o negocia com nossas distra\u00e7\u00f5es e tampouco devolve, intacto, aquilo que negligenciamos. Algumas partidas deixam uma fresta para o retorno, mas outras atravessam uma fronteira depois da qual nenhum pedido consegue chegar. O orgulho, nesse momento, revela toda a sua inutilidade, porque n\u00e3o existe vit\u00f3ria em calar um sentimento at\u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o exista ningu\u00e9m disposto a ouvi-lo.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Se o amor ainda estiver a\u00ed, sentado perto de voc\u00ea, talvez seja esta a hora de interromper o ru\u00eddo do mundo e contempl\u00e1-lo como quem reconhece um milagre antes que ele se transforme em lembran\u00e7a. Segure a m\u00e3o que ainda procura a sua. Agrade\u00e7a o cuidado que parecia pequeno. Escute a voz que continua chamando pelo seu nome. Repare nos olhos que tantas vezes o encontraram em meio \u00e0 multid\u00e3o. Nenhuma conquista ser\u00e1 capaz de aquecer uma casa onde a ternura deixou de morar, e nenhum horizonte parecer\u00e1 suficientemente belo quando descobrirmos que a pessoa com quem desej\u00e1vamos contempl\u00e1-lo j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 ao nosso lado.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">N\u00e3o permita que o amor precise partir para finalmente ser visto. N\u00e3o transforme em saudade aquilo que ainda pode ser presen\u00e7a, nem entregue \u00e0 dist\u00e2ncia a miss\u00e3o de lhe ensinar o valor de quem permanece perto. O cora\u00e7\u00e3o humano j\u00e1 carrega aus\u00eancias demais para continuar fabricando outras por descuido, sil\u00eancio ou orgulho. Algumas pessoas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de p\u00e1tria \u00edntima, um territ\u00f3rio de aconchego onde a alma repousa depois de todas as guerras, e perd\u00ea-las pode significar passar o restante da vida tentando regressar a um lugar que j\u00e1 n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Olhe enquanto ainda est\u00e1 perto. Ame enquanto ainda pode alcan\u00e7ar. Diga enquanto a sua voz ainda encontra um cora\u00e7\u00e3o aberto do outro lado. Porque a mais dolorosa dist\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 aquela que separa dois corpos, mas aquela que nasce quando finalmente enxergamos a grandeza de um amor no exato instante em que j\u00e1 n\u00e3o podemos toc\u00e1-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves, jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013\u00a0 N\u00e3o espere que a dist\u00e2ncia revele a grandeza daquilo que, t\u00e3o perto, o seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o soube enxergar. 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