{"id":4912,"date":"2026-09-11T16:17:13","date_gmt":"2026-09-11T19:17:13","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4912"},"modified":"2026-09-11T16:35:46","modified_gmt":"2026-09-11T19:35:46","slug":"carpina-aos-98-liberta-no-verso-governada-de-fora-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4912","title":{"rendered":"Carpina aos 98: liberta no hino, governada de fora. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves, jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC &#8211;<\/strong>\u00a0Carpina acende hoje a nonag\u00e9sima oitava vela de sua emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, declarada pela Lei Estadual n\u00ba 1.931, de 11 de setembro de 1928, quando a antiga Ch\u00e3 do Carpina, j\u00e1 ent\u00e3o chamada Floresta dos Le\u00f5es, rompeu o cord\u00e3o que a prendia a Paudalho e a Nazar\u00e9 da Mata e passou a decidir, com as pr\u00f3prias m\u00e3os, o que fazer do pr\u00f3prio destino. Essa ruptura n\u00e3o caiu do c\u00e9u nem coube em um \u00fanico gesto de caneta. J\u00e1 em 1923 o deputado Armando Gayoso havia levado \u00e0 Assembleia a primeira tentativa de faz\u00ea-la, cinco anos antes de vencer as resist\u00eancias que a atrasaram. Foi ele quem, na tribuna, converteu em lei o desejo de uma terra cansada de pedir licen\u00e7a a outros munic\u00edpios para cuidar de si mesma, e a ele se somam, na mem\u00f3ria que a cidade guarda em nome de rua, Odair Santana e Ant\u00f4nio Bezerra de Menezes, e o jornalista Francisco Jos\u00e9 Chateaubriand Bandeira de Melo, que anos antes j\u00e1 havia dado \u00e0quele povoado um nome e um s\u00edmbolo pr\u00f3prios, o le\u00e3o, antes mesmo de a pol\u00edtica lhe dar um governo pr\u00f3prio. A esses homens Carpina deve n\u00e3o uma data no calend\u00e1rio, mas o direito de ser sujeito da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. E \u00e9 exatamente esse direito que hoje, quase um s\u00e9culo depois, parece devolvido a quem a cidade um dia teve a coragem de deixar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">N\u00e3o por decreto, porque nenhuma lei revogou a de 1928, e \u00e9 preciso dizer isso com todas as letras para que ningu\u00e9m confunda fato com leitura. Mas por um caminho mais silencioso e, por isso mesmo, mais dif\u00edcil de combater: o de uma cidade que, aos poucos, deixou de produzir a for\u00e7a pol\u00edtica capaz de sustentar sozinha o que conquistou, e viu esse vazio ser ocupado por uma linhagem inteira, constru\u00edda a tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de dist\u00e2ncia, na prefeitura vizinha. Foi em Paudalho que um av\u00f4 governou nos anos sessenta, que um filho dele governou nos anos noventa, que um neto governou por quase uma d\u00e9cada inteira at\u00e9 presidir o partido que hoje comanda tamb\u00e9m Carpina, e que outro neto, irm\u00e3o do prefeito, subiu \u00e0 Secretaria de Obras daquela cidade antes de se eleger deputado estadual e se casar com a mulher que hoje ocupa a cadeira mais alta do poder carpinense. Essa mulher nasceu em Recife, viveu em Recife, e s\u00f3 transferiu seu domic\u00edlio eleitoral para Carpina \u00e0s v\u00e9speras de disputar o cargo que ocupa, em uma cidade cujo hino ela talvez ainda n\u00e3o soubesse cantar de cor. T\u00e3o estranha \u00e0 terra que governa que a pr\u00f3pria C\u00e2mara Municipal precisou aprovar lei concedendo a ela o t\u00edtulo de cidad\u00e3 carpinense, reconhecimento que s\u00f3 faz sentido para quem, por nascimento, n\u00e3o o \u00e9. E o marido dela mesmo j\u00e1 disse, em pra\u00e7a p\u00fablica, que o projeto de seu grupo era vencer tanto em Paudalho quanto em Carpina, como quem anuncia, sem constrangimento, a extens\u00e3o de um territ\u00f3rio.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O hino de Carpina, escrito para ser cantado com o peito estufado, soa agora como uma pergunta que ningu\u00e9m quer fazer em voz alta. Longo tempo vivi dominada, e afinal os grilh\u00f5es rebentei, diz um de seus versos mais antigos, e logo depois, ainda mais direto: ontem escrava embora, hoje liberta sou. Toda crian\u00e7a que desfila, todo ano, pela avenida Joaquim Nabuco vai cantar essas palavras sem saber que talvez esteja, sem querer, fazendo uma pergunta em vez de uma afirma\u00e7\u00e3o. Livre de quem, se quem hoje decide seu or\u00e7amento, suas secretarias, seus cargos, aprendeu a fazer pol\u00edtica em outra cidade, com outro sotaque de poder, e enxerga Carpina menos como p\u00e1tria do que como territ\u00f3rio conquistado? A ironia n\u00e3o \u00e9 minha inven\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 na letra que a pr\u00f3pria cidade escolheu para se apresentar ao mundo, e uma ironia que a hist\u00f3ria escreve sozinha vale mais do que qualquer adjetivo que eu pudesse acrescentar a ela.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Vale perguntar, sem melodrama e sem certeza de resposta, o que sentiriam hoje Armando Gayoso, Odair Santana, Ant\u00f4nio Bezerra de Menezes, se soubessem que a cadeira que levaram cinco anos e uma lei inteira para conquistar est\u00e1 hoje ocupada por quem chegou de fora, votando no marido para deputado estadual esteja onde estiver dentro do estado, porque o sistema eleitoral n\u00e3o exige raiz nenhuma para esse voto valer. Talvez sentissem que a luta deles n\u00e3o foi tra\u00edda por uma lei revogada, mas por um sil\u00eancio consentido, o sil\u00eancio de uma cidade que parou de formar, dentro de si mesma, gente disposta a brigar pelo pr\u00f3prio governo com a mesma obstina\u00e7\u00e3o com que seus av\u00f3s brigaram pela pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Porque Carpina n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 lei, prefeitura e bras\u00e3o. \u00c9 a Rua da Igreja ao entardecer, \u00e9 a marmita de alum\u00ednio descendo apressada da Esta\u00e7\u00e3o, \u00e9 o domingo do Clube dos Lenhadores, Espanadores e Colonial, \u00e9 a arquibancada do Est\u00e1dio Oswaldo Freire gritando por um gol, \u00e9 o frevo entalado na garganta dos foli\u00f5es nas noites de carnaval, \u00e9 a missa cantada na Matriz de S\u00e3o Jos\u00e9, \u00e9 a feira do centro, \u00e9 o banco da pra\u00e7a Joaquim Nabuco onde tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es se sentaram para namorar antes de casar. \u00c9 Dona Tila, \u00e9 Seu Pirulito, \u00e9 mestre Solon com seu mamulengo, \u00e9 seu Marcolino com seu fandango, \u00e9 doutor Gentil, gente que nunca teve mandato nenhum e mesmo assim governou o cotidiano desta terra com mais ternura do que qualquer gabinete. Essa Carpina profunda segue viva, mas hoje ela observa de longe um poder que n\u00e3o sabe seu nome nem carrega, na fala, o barro de que ela foi feita.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ainda h\u00e1 tempo, e \u00e9 esse o ponto em que a mem\u00f3ria deixa de ser saudade e vira tarefa. Que este 11 de setembro n\u00e3o seja apenas fanfarra e vela soprada, mas o momento em que os filhos desta terra se lembrem de que liberdade n\u00e3o \u00e9 heran\u00e7a autom\u00e1tica, \u00e9 coisa que se cuida todos os dias, com o mesmo brio e a mesma altivez que levaram um punhado de carpinenses a desafiar duas prefeituras vizinhas para dar a Carpina o direito de decidir por si mesma. Que a Floresta dos Le\u00f5es, ainda que hoje pare\u00e7a silenciada, continue viva em quem entende Carpina n\u00e3o como territ\u00f3rio a administrar, mas como sangue, ch\u00e3o e mem\u00f3ria. Porque nenhum hino, nenhuma data e nenhum governo resistem, para sempre, ao dia em que um povo decide, mais uma vez, n\u00e3o ser conduzido por quem nunca aprendeu a am\u00e1-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves, jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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