{"id":4871,"date":"2026-09-09T17:08:12","date_gmt":"2026-09-09T20:08:12","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4871"},"modified":"2026-09-09T17:24:36","modified_gmt":"2026-09-09T20:24:36","slug":"dentro-de-mim-a-velha-matriz-continua-inteira-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4871","title":{"rendered":"Dentro de mim, a velha Matriz continua inteira, Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p data-start=\"50\" data-end=\"760\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013\u00a0<\/strong>Volto muitas vezes, pela for\u00e7a misteriosa da mem\u00f3ria, \u00e0 Pra\u00e7a de S\u00e3o Jos\u00e9 de minha inf\u00e2ncia, quando Carpina ainda cabia inteira dentro dos meus olhos e eu n\u00e3o sabia que as cidades tamb\u00e9m envelhecem, sofrem mutila\u00e7\u00f5es, perdem partes de si mesmas e, mesmo continuando de p\u00e9 nos mapas, nas placas e nos documentos, podem deixar de reconhecer o pr\u00f3prio rosto. Eu brincava por aquelas ruas com os amigos, conhecia as casas, reconhecia as fam\u00edlias, sabia de cor os caminhos da pra\u00e7a e tinha diante de mim a antiga Igreja Matriz de S\u00e3o Jos\u00e9 como uma presen\u00e7a natural, quase insepar\u00e1vel daquele ch\u00e3o, como se tivesse nascido junto com a cidade e como se ningu\u00e9m pudesse imaginar que um dia ela deixaria de existir.<\/p>\n<p data-start=\"762\" data-end=\"1417\">Aquela igreja n\u00e3o fazia parte apenas da paisagem de minha inf\u00e2ncia, porque pertencia tamb\u00e9m \u00e0 minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Foi ali que fui batizado e foi ali que recebi a crisma, e por isso aquelas paredes, aquelas portas, aquela arquitetura e aquele espa\u00e7o possu\u00edam para mim uma intimidade que eu ainda n\u00e3o sabia explicar. Naquele tempo, certas coisas eram vividas antes de serem compreendidas, e a f\u00e9, a fam\u00edlia, a pra\u00e7a, os amigos, a igreja, as casas pr\u00f3ximas e os caminhos repetidos formavam uma esp\u00e9cie de tecido cont\u00ednuo em que a vida seguia sem que eu percebesse que um dia precisaria recorrer \u00e0 mem\u00f3ria para reencontrar aquilo que estava diante de mim.<\/p>\n<p data-start=\"1419\" data-end=\"1965\">Recordo especialmente um fim de manh\u00e3, quando a luz j\u00e1 se aproximava do meio dia e deixava a pra\u00e7a clara, aberta, quase sem sombras. Foi ent\u00e3o que vi Edilma, prima de Dione, Selma, Abelardo e de outros daquela fam\u00edlia conhecida que morava nas proximidades da Pra\u00e7a de S\u00e3o Jos\u00e9, diante de um cavalete voltado para a antiga Matriz. Ela pintava a igreja, e eu me aproximei por curiosidade, como faz um adolescente que interrompe por alguns minutos as brincadeiras para observar alguma coisa diferente acontecendo no territ\u00f3rio familiar de seus dias.<\/p>\n<p data-start=\"1967\" data-end=\"2534\">N\u00e3o sei quanto tempo fiquei ali, porque a mem\u00f3ria raramente conserva os minutos com a mesma fidelidade com que guarda certas imagens, mas daquela manh\u00e3 permaneceu em mim, com uma nitidez que ainda hoje me surpreende, o cavalete colocado diante da Matriz, quase como uma pequena sentinela de madeira voltada para aquela arquitetura que ainda estava inteira, bela e viva na paisagem da cidade. Edilma pintava, eu observava e a igreja permanecia diante de n\u00f3s, im\u00f3vel, familiar, incorporada \u00e0 pra\u00e7a de tal maneira que parecia imposs\u00edvel imagin\u00e1-la ausente daquele lugar.<\/p>\n<p data-start=\"2536\" data-end=\"3172\">Foi naquele instante, sem que eu soubesse explicar por qu\u00ea, que alguma coisa me entristeceu. Eu n\u00e3o conhecia ainda as palavras patrim\u00f4nio, preserva\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria urbana ou identidade hist\u00f3rica, n\u00e3o compreendia que uma cidade tamb\u00e9m \u00e9 formada pelos edif\u00edcios que testemunharam a passagem das gera\u00e7\u00f5es, pelas pra\u00e7as onde as pessoas se encontraram, pelas fachadas que acompanharam inf\u00e2ncias inteiras, pelas igrejas onde fam\u00edlias celebraram batismos, crismas, casamentos, despedidas e tantos outros momentos silenciosamente depositados dentro das paredes. Eu apenas sentia, e hoje penso que talvez o olhar tivesse compreendido antes da raz\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"3174\" data-end=\"3772\">A antiga Matriz seria demolida, e sua aus\u00eancia acabaria abrindo dentro de mim uma ferida que os anos n\u00e3o fecharam. Pelo contr\u00e1rio, o tempo apenas me deu instrumentos para entender melhor aquilo que eu senti sem saber nomear naquele fim de manh\u00e3, porque depois dela vieram outras perdas, outros peda\u00e7os de Carpina desapareceram, casas antigas deixaram de existir, fachadas foram modificadas, constru\u00e7\u00f5es de valor hist\u00f3rico cederam lugar ao novo, ao moderno, ao urgente, ao conveniente, e a cidade foi perdendo, pouco a pouco, partes importantes daquilo que lhe dava rosto, continuidade e identidade.<\/p>\n<p data-start=\"3774\" data-end=\"4438\">N\u00e3o penso que uma cidade deva permanecer im\u00f3vel, porque nenhuma cidade verdadeira sobrevive congelada no tempo e viver tamb\u00e9m significa transformar-se, mas existe uma diferen\u00e7a profunda entre crescer e apagar, entre renovar e destruir, entre acrescentar novas p\u00e1ginas \u00e0 hist\u00f3ria e arrancar as anteriores como se jamais tivessem import\u00e2ncia. O problema come\u00e7a quando o novo exige a elimina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do que veio antes, quando a moderniza\u00e7\u00e3o se torna uma esp\u00e9cie de m\u00e1quina sem retrovisor e quando a pressa do presente n\u00e3o reconhece o valor de conservar as marcas de uma cidade que j\u00e1 viveu outras \u00e9pocas e que precisa dessas marcas para compreender a si mesma.<\/p>\n<p data-start=\"4440\" data-end=\"4939\">Uma cidade n\u00e3o \u00e9 apenas o conjunto de ruas por onde circulamos, porque tamb\u00e9m \u00e9 feita das lembran\u00e7as que depositamos nessas ruas, dos encontros guardados nas esquinas, das conversas apoiadas nas cal\u00e7adas, das tardes de inf\u00e2ncia que permanecem nas pra\u00e7as e das cerim\u00f4nias que transformam uma igreja em parte da biografia de uma pessoa. O espa\u00e7o f\u00edsico e o espa\u00e7o afetivo acabam se tornando uma s\u00f3 coisa, e \u00e9 por isso que certas demoli\u00e7\u00f5es provocam dores que nenhum c\u00e1lculo urban\u00edstico consegue medir.<\/p>\n<p data-start=\"4941\" data-end=\"5320\">Quando um edif\u00edcio hist\u00f3rico desaparece, n\u00e3o perdemos apenas tijolos, madeira, portas, altares ou o desenho de uma fachada. Perdemos tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de testemunha, porque as novas gera\u00e7\u00f5es deixam de encontrar diante dos olhos aquilo que os mais velhos tentam contar com palavras, e quem viu passa ent\u00e3o a carregar a responsabilidade de lembrar por aqueles que chegaram depois.<\/p>\n<p data-start=\"5322\" data-end=\"5742\">Talvez seja esse o destino de muitos de n\u00f3s que conhecemos uma Carpina que quase n\u00e3o existe mais. Tornamo-nos guardi\u00f5es involunt\u00e1rios de uma cidade invis\u00edvel, feita de ruas antigas, casas desaparecidas, personagens que partiram, fachadas que mudaram e lugares que continuam vivos apenas porque algu\u00e9m ainda consegue fech\u00e1-los dentro da mem\u00f3ria e reconstru\u00ed-los com a for\u00e7a de um afeto que o tempo n\u00e3o conseguiu destruir.<\/p>\n<p data-start=\"5744\" data-end=\"6422\">Pergunto algumas vezes quanto de uma cidade pode ser destru\u00eddo antes que ela deixe de reconhecer a si mesma, e n\u00e3o encontro uma resposta simples, porque uma cidade raramente perde sua mem\u00f3ria num \u00fanico gesto. O esquecimento costuma trabalhar devagar, primeiro desaparece uma casa, depois uma fachada, depois uma pra\u00e7a muda de fei\u00e7\u00e3o, depois uma igreja \u00e9 derrubada, e cada perda parece pequena quando observada sozinha, at\u00e9 que um dia percebemos que o conjunto inteiro se alterou e que aquilo que cham\u00e1vamos de nossa cidade tornou-se outra coisa, ainda com o mesmo nome, ainda no mesmo lugar, mas j\u00e1 sem grande parte dos sinais pelos quais reconhec\u00edamos a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p data-start=\"6424\" data-end=\"6985\">Minha dor pela antiga Matriz de S\u00e3o Jos\u00e9 talvez tenha sido a primeira consci\u00eancia desse processo, porque n\u00e3o era somente a igreja que desaparecia. Era Carpina come\u00e7ando a perder um peda\u00e7o de si mesma, e havia em tudo aquilo algo ainda mais \u00edntimo, porque eu tamb\u00e9m estava perdendo uma parte do cen\u00e1rio onde minha pr\u00f3pria vida tinha come\u00e7ado. Ali fui batizado, ali fui crismado, naquela pra\u00e7a brinquei, por aquelas ruas caminhei com amigos e diante daquela igreja aprendi, sem perceber, que certos lugares entram dentro de n\u00f3s e passam a compor aquilo que somos.<\/p>\n<p data-start=\"6987\" data-end=\"7454\">Quando eles desaparecem do mundo exterior, continuamos a procur\u00e1-los interiormente, e talvez seja por isso que eu escreva. Durante muito tempo pensei que minha rela\u00e7\u00e3o com a escrita tivesse nascido apenas dos livros, das leituras, do jornalismo, das inquieta\u00e7\u00f5es e das experi\u00eancias acumuladas ao longo da vida, mas hoje desconfio que uma parte dela tenha nascido tamb\u00e9m daquela cidade perdida, da necessidade de impedir que determinadas coisas morram uma segunda vez.<\/p>\n<p data-start=\"7456\" data-end=\"7879\">Existe uma primeira morte, que acontece quando o edif\u00edcio cai, quando a casa desaparece, quando uma pra\u00e7a se transforma por completo ou quando uma gera\u00e7\u00e3o se vai, e existe outra morte ainda mais definitiva, que acontece quando ningu\u00e9m mais se lembra. \u00c9 talvez contra essa segunda morte que a escrita se levanta, n\u00e3o com a arrog\u00e2ncia de vencer o tempo, mas com a esperan\u00e7a de conservar alguma coisa que o tempo tentou levar.<\/p>\n<p data-start=\"7881\" data-end=\"8599\">Por isso volto \u00e0quele fim de manh\u00e3 e vejo novamente o cavalete diante da antiga Matriz de S\u00e3o Jos\u00e9, vejo Edilma pintando, vejo o adolescente que eu era parado por alguns instantes, observando sem compreender inteiramente a for\u00e7a daquele momento. A igreja estava diante de n\u00f3s, inteira, sob a claridade que antecedia o meio dia, ainda ocupando seu lugar na pra\u00e7a, ainda pertencendo \u00e0 paisagem cotidiana de Carpina, e o cavalete permaneceu em minha mem\u00f3ria como uma pequena sentinela voltada para aquela constru\u00e7\u00e3o, talvez porque a pr\u00f3pria lembran\u00e7a tenha escolhido guardar exatamente essa imagem para me devolv\u00ea-la muitos anos depois, quando eu finalmente teria idade para compreender aquilo que o menino apenas sentiu.<\/p>\n<p data-start=\"8601\" data-end=\"9212\">Hoje sei que aquela cena continha uma li\u00e7\u00e3o, n\u00e3o aprendida numa escola nem encontrada num livro, mas recebida silenciosamente numa pra\u00e7a de minha cidade, uma li\u00e7\u00e3o sobre beleza, perda, pertencimento e mem\u00f3ria. A velha Matriz j\u00e1 n\u00e3o ocupa o centro da Pra\u00e7a de S\u00e3o Jos\u00e9, mas continua ocupando um lugar dentro de mim, e sua arquitetura ainda se ergue quando lembro, suas paredes retornam quando escrevo, a pra\u00e7a reaparece, os amigos voltam a correr pelas ruas e a luz daquele fim de manh\u00e3 atravessa novamente a cena, como se por alguns instantes a mem\u00f3ria conseguisse suspender aquilo que o tempo decidiu destruir.<\/p>\n<p data-start=\"9214\" data-end=\"9846\">Talvez seja esse o \u00fanico poder que nos resta diante daquilo que n\u00e3o conseguimos impedir que fosse perdido, guardar o que vimos, contar o que vivemos e escrever aquilo que amamos antes que o esquecimento termine o servi\u00e7o iniciado pelas demoli\u00e7\u00f5es. N\u00e3o sei por quanto tempo permanecer\u00e3o vivas as lembran\u00e7as daquela Carpina que conheci, mas enquanto eu puder transformar mem\u00f3ria em palavra, uma parte dela continuar\u00e1 respirando, porque a igreja que a cidade deixou cair continua de p\u00e9 onde nenhuma m\u00e1quina alcan\u00e7a, onde nenhuma decis\u00e3o administrativa consegue tocar e onde nenhuma reforma urbana possui for\u00e7a suficiente para apag\u00e1-la.<\/p>\n<p data-start=\"9848\" data-end=\"9895\">Dentro de mim, a velha Matriz continua inteira.<\/p>\n<p data-start=\"9897\" data-end=\"10012\" data-is-last-node=\"\" data-is-only-node=\"\">E enquanto minhas palavras encontrarem algu\u00e9m disposto a l\u00ea-las, talvez ela tamb\u00e9m continue de p\u00e9 dentro de outros.<\/p>\n<p data-start=\"9897\" data-end=\"10012\" data-is-last-node=\"\" data-is-only-node=\"\"><strong>Foto do acervo: Adelson Rodrigues<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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