{"id":4747,"date":"2026-09-01T15:46:47","date_gmt":"2026-09-01T18:46:47","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4747"},"modified":"2026-09-01T15:46:47","modified_gmt":"2026-09-01T18:46:47","slug":"quando-uma-mulher-tira-o-veu-e-o-mundo-e-obrigado-a-olhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4747","title":{"rendered":"QUANDO UMA MULHER TIRA O V\u00c9U E O MUNDO \u00c9 OBRIGADO A OLHAR"},"content":{"rendered":"<p class=\"isSelectedEnd\"><strong>GAZETA PERNAMBUCANA &#8211;<\/strong> Quando uma mulher decide por si mesma, um gesto aparentemente simples pode revelar muito mais do que aquilo que as c\u00e2meras conseguem mostrar. Treze anos depois, a cena protagonizada pela apresentadora eg\u00edpcia Riham Said continua provocando uma pergunta que atravessa religi\u00f5es, governos e culturas: a quem pertence o direito de decidir sobre a vida, o corpo, a consci\u00eancia e a apar\u00eancia de uma mulher?<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O v\u00eddeo reapareceu nas redes sociais carregando uma hist\u00f3ria poderosa demais para passar despercebida. Segundo a narrativa que come\u00e7ou a circular, a mulher diante das c\u00e2meras seria uma jornalista afeg\u00e3 chamada Yasmin Qureshi que, durante um debate sobre os direitos femininos no Afeganist\u00e3o, teria retirado a burca e mostrado o rosto como uma afirma\u00e7\u00e3o de liberdade. Era uma hist\u00f3ria pronta para emocionar. Tinha coragem, risco, opress\u00e3o, uma mulher desafiando conven\u00e7\u00f5es e um pa\u00eds cuja realidade atual tornava tudo aparentemente veross\u00edmil. Existia apenas um problema, e para o jornalismo esse problema \u00e9 definitivo: n\u00e3o foi assim que aconteceu.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A mulher daquele v\u00eddeo n\u00e3o era Yasmin Qureshi, n\u00e3o era afeg\u00e3 e n\u00e3o estava participando de um debate no Afeganist\u00e3o. Seu nome \u00e9 Riham Said, apresentadora da televis\u00e3o eg\u00edpcia, e a cena aconteceu no Egito, em abril de 2013, durante uma entrevista exibida pela Al-Nahar TV com o xeque Youssef Badri. Quando se retorna \u00e0 hist\u00f3ria verdadeira e se abandona a vers\u00e3o fabricada pelas redes, o epis\u00f3dio n\u00e3o perde for\u00e7a. Ao contr\u00e1rio. Torna-se mais humano, mais complexo e talvez ainda mais revelador, porque deixa de ser uma par\u00e1bola constru\u00edda pela internet para recuperar o conflito real entre uma mulher, um homem, uma interpreta\u00e7\u00e3o religiosa e o direito de escolher.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Antes mesmo de as c\u00e2meras registrarem o confronto que percorreria o mundo, uma quest\u00e3o j\u00e1 incomodava Riham. O religioso havia estabelecido como condi\u00e7\u00e3o para conceder a entrevista que ela cobrisse os cabelos. A apresentadora colocou o hijab, mas percebeu uma contradi\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de aceitar. Fora do ar, longe dos olhos dos telespectadores, Badri conversava normalmente com mulheres que n\u00e3o estavam usando v\u00e9u. Diante das c\u00e2meras, por\u00e9m, exigia que ela se cobrisse.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Foi nesse ponto que aquilo que poderia ser apenas uma entrevista come\u00e7ou a revelar uma quest\u00e3o muito maior.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Riham quis saber por que precisava colocar o hijab somente quando o p\u00fablico estivesse olhando. Se o religioso podia falar com ela normalmente sem o v\u00e9u nos bastidores, por que sua apar\u00eancia deveria mudar quando as c\u00e2meras fossem ligadas? A pergunta atingia uma fronteira delicada entre f\u00e9 e apar\u00eancia, convic\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o, espiritualidade e poder. O que incomodava a apresentadora n\u00e3o era simplesmente usar um len\u00e7o sobre os cabelos. Era a sensa\u00e7\u00e3o de estar representando uma personagem para satisfazer a exig\u00eancia de outra pessoa.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A conversa avan\u00e7ou e o ambiente se tornou cada vez mais \u00e1spero. Riham questionou o comportamento do convidado, contestou suas posi\u00e7\u00f5es e recusou-se a assumir uma postura de submiss\u00e3o diante da autoridade religiosa que ele pretendia exercer naquela entrevista. Em determinado momento, levou as m\u00e3os ao hijab e o retirou.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Aquela imagem duraria poucos segundos, mas sobreviveria muito mais do que a discuss\u00e3o que a produziu.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Badri exigiu que ela voltasse a cobrir os cabelos. Riham recusou. Sua resposta continha o n\u00facleo moral de tudo o que estava acontecendo naquele est\u00fadio: se um dia usasse aquele v\u00e9u por convic\u00e7\u00e3o religiosa, seria por Deus, n\u00e3o por imposi\u00e7\u00e3o daquele homem.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 preciso compreender essa distin\u00e7\u00e3o para n\u00e3o cometer contra a pr\u00f3pria hist\u00f3ria uma viol\u00eancia interpretativa.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O epis\u00f3dio n\u00e3o deveria ser apresentado como a vit\u00f3ria de uma mulher sobre o hijab, muito menos como uma condena\u00e7\u00e3o \u00e0s milh\u00f5es de mulheres mu\u00e7ulmanas que cobrem os cabelos ou o rosto por decis\u00e3o pr\u00f3pria. O v\u00e9u pode representar f\u00e9, tradi\u00e7\u00e3o, identidade, pertencimento e espiritualidade para incont\u00e1veis mulheres. Retir\u00e1-lo contra a vontade de algu\u00e9m seria t\u00e3o autorit\u00e1rio quanto obrig\u00e1-la a us\u00e1-lo.\u00a0A grande quest\u00e3o daquela noite n\u00e3o estava no tecido.\u00a0Estava na escolha.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Uma mulher pode desejar cobrir os cabelos e outra pode desejar deix\u00e1-los descobertos. Uma pode encontrar no hijab uma profunda express\u00e3o religiosa, enquanto outra pode entender que sua f\u00e9 n\u00e3o exige aquilo. As duas somente ser\u00e3o verdadeiramente livres quando nenhuma autoridade pol\u00edtica, religiosa, familiar ou social puder transformar sua pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o em uma senten\u00e7a sobre o corpo alheio.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Foi justamente essa fronteira que apareceu diante das c\u00e2meras naquele est\u00fadio eg\u00edpcio.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A liberdade raramente chega \u00e0 vida das pessoas na forma grandiosa que os discursos costumam anunciar. Muitas vezes ela aparece em decis\u00f5es cotidianas t\u00e3o pequenas que quase passam despercebidas. Escolher uma profiss\u00e3o. Entrar numa escola. Caminhar sozinha por uma rua. Expressar uma opini\u00e3o. Vestir determinada roupa. Descobrir os cabelos. Cobri-los. Dizer sim. Dizer n\u00e3o. A dimens\u00e3o pol\u00edtica dessas escolhas somente se torna evidente quando algu\u00e9m tenta retir\u00e1-las.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Por isso o gesto de Riham permanece t\u00e3o atual.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Treze anos se passaram desde aquela entrevista. O v\u00eddeo atravessou idiomas e plataformas, foi cortado, republicado, reinterpretado e finalmente recebeu uma identidade que nunca possuiu. Em algum ponto dessa longa viagem digital, a apresentadora eg\u00edpcia transformou-se numa suposta jornalista afeg\u00e3 chamada Yasmin Qureshi e o Egito tornou-se Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Curiosamente, a falsifica\u00e7\u00e3o encontrou for\u00e7a porque foi projetada sobre uma realidade em que a liberdade das mulheres realmente sofreu um dos mais violentos retrocessos do mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Desde a retomada do poder pelo Talib\u00e3, em agosto de 2021, as mulheres e meninas afeg\u00e3s passaram a conviver com uma sucess\u00e3o de medidas que reduziram drasticamente sua presen\u00e7a na vida p\u00fablica. Cinco anos depois, organismos das Na\u00e7\u00f5es Unidas registram mais de uma centena de decretos e determina\u00e7\u00f5es dirigidos aos direitos, \u00e0 circula\u00e7\u00e3o, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao trabalho e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o social das mulheres. A ONU Mulheres descreve o pa\u00eds como palco da mais grave crise de direitos das mulheres do mundo contempor\u00e2neo.\u00a0A escola talvez seja a imagem mais cruel desse processo.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">No mesmo mundo em que milh\u00f5es de fam\u00edlias acordam suas filhas pela manh\u00e3 e reclamam porque elas demoram para se preparar para a aula, meninas afeg\u00e3s chegam a determinada idade e descobrem que o caminho para a escola terminou. A UNESCO informou em agosto de 2026 que aproximadamente 2,4 milh\u00f5es de meninas foram exclu\u00eddas do ensino secund\u00e1rio desde 2021. O Afeganist\u00e3o permanece como o \u00fanico pa\u00eds do planeta onde meninas e mulheres s\u00e3o formalmente proibidas de seguir a educa\u00e7\u00e3o al\u00e9m do n\u00edvel prim\u00e1rio, enquanto as mulheres continuam impedidas de frequentar universidades desde 2022.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 poss\u00edvel registrar esses n\u00fameros numa tabela e seguir adiante. Mais dif\u00edcil \u00e9 perceber as vidas que existem dentro deles.\u00a0Cada menina afastada de uma sala de aula representa um futuro interrompido antes de come\u00e7ar. \u00c9 uma m\u00e9dica que talvez nunca possa exercer a medicina, uma professora impedida de ensinar, uma engenheira que n\u00e3o poder\u00e1 concluir sua forma\u00e7\u00e3o, uma jornalista cuja voz talvez n\u00e3o alcance uma reda\u00e7\u00e3o, uma mulher obrigada a assistir ao pr\u00f3prio horizonte diminuir n\u00e3o por aus\u00eancia de talento, intelig\u00eancia ou vontade, mas porque algu\u00e9m decidiu previamente qual deveria ser o tamanho de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A restri\u00e7\u00e3o vai muito al\u00e9m da escola.Dados divulgados pela ONU Mulheres em agosto de 2026 mostram uma sociedade na qual a presen\u00e7a feminina nos espa\u00e7os p\u00fablicos foi sendo progressivamente comprimida. Metade das mulheres entrevistadas relatou sair de casa apenas uma ou duas vezes por m\u00eas. Educa\u00e7\u00e3o, emprego, justi\u00e7a, sa\u00fade, circula\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o social passaram a constituir diferentes faces de um mesmo processo de apagamento.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 imposs\u00edvel olhar para essa realidade e n\u00e3o voltar \u00e0 velha imagem de Riham levando as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a num est\u00fadio do Cairo.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Ela estava no Egito, n\u00e3o no Afeganist\u00e3o. Enfrentava um religioso diante de uma c\u00e2mera, n\u00e3o um regime que controla praticamente todas as dimens\u00f5es da vida feminina. Tinha possibilidade de discordar, argumentar, retirar o hijab e deixar o programa. Muitas mulheres no mundo n\u00e3o possuem sequer esse repert\u00f3rio elementar de escolhas.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 justamente a\u00ed que uma hist\u00f3ria ocorrida no Egito em 2013 encontra, sem precisar de nenhuma falsifica\u00e7\u00e3o, a realidade do Afeganist\u00e3o de 2026.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">As circunst\u00e2ncias s\u00e3o diferentes, os pa\u00edses s\u00e3o diferentes, as personagens s\u00e3o diferentes, mas a pergunta atravessa as fronteiras: quem possui autoridade sobre a decis\u00e3o de uma mulher?<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Essa pergunta precisa ser feita com cuidado porque o debate frequentemente cai em dois autoritarismos que se apresentam como opostos, embora nas\u00e7am da mesma pretens\u00e3o de controle. De um lado, sociedades e governos que obrigam mulheres a cobrir o corpo em nome da religi\u00e3o ou da tradi\u00e7\u00e3o. De outro, projetos pol\u00edticos que pretendem determinar como uma mulher deve vestir-se em nome de uma concep\u00e7\u00e3o estatal de secularismo ou emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Nos dois casos, algu\u00e9m escolheu por ela.\u00a0Nenhum governo liberta uma mulher substituindo uma imposi\u00e7\u00e3o por outra. Nenhuma sociedade se torna verdadeiramente livre apenas mudando a dire\u00e7\u00e3o da ordem. A mulher obrigada a colocar um v\u00e9u e a mulher proibida de us\u00e1-lo compartilham, apesar das circunst\u00e2ncias distintas, uma viola\u00e7\u00e3o essencial: outra pessoa reivindicou autoridade sobre uma decis\u00e3o que deveria come\u00e7ar em sua pr\u00f3pria consci\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 por isso que a palavra mais importante desta hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 v\u00e9u.\u00a0\u00c9 escolha.\u00a0E talvez seja essa palavra que explique por que um pequeno confronto televisivo ocorrido em 2013 continua produzindo inc\u00f4modo tantos anos depois.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Quando Riham retirou o hijab naquela entrevista, n\u00e3o come\u00e7ou uma revolu\u00e7\u00e3o no Egito. Nenhuma multid\u00e3o ocupou as ruas por causa daquele gesto. Nenhum regime caiu. Nenhuma lei foi imediatamente modificada. O est\u00fadio continuou sendo um est\u00fadio, as c\u00e2meras continuaram registrando a discuss\u00e3o e o mundo prosseguiu com suas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Mesmo assim, alguma coisa importante tinha acontecido.\u00a0Uma mulher foi colocada diante de uma regra estabelecida por um homem e decidiu questionar a autoridade dele para estabelecer aquela regra sobre ela.\u00a0\u00c9 nesse instante que uma discuss\u00e3o sobre religi\u00e3o deixa de ser apenas uma discuss\u00e3o sobre religi\u00e3o e passa a revelar uma quest\u00e3o muito mais antiga: o poder.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Poder para estabelecer comportamentos. Poder para definir apar\u00eancias. Poder para determinar quem pode estudar, trabalhar ou circular. Poder para dizer quais palavras uma mulher pode pronunciar, quais espa\u00e7os pode ocupar, at\u00e9 onde pode ir e de que maneira deve apresentar seu pr\u00f3prio corpo \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Toda forma de poder revela sua natureza quando encontra algu\u00e9m mais vulner\u00e1vel sobre quem pretende exercer controle. E poucas hist\u00f3rias humanas demonstram isso com tanta persist\u00eancia quanto a longa disputa pelo direito das mulheres de governarem a pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Durante s\u00e9culos, decis\u00f5es fundamentais da vida feminina foram tomadas por outras pessoas e frequentemente apresentadas como prote\u00e7\u00e3o, tradi\u00e7\u00e3o, moralidade, costume ou destino. Em diferentes tempos e sociedades, mulheres precisaram lutar para estudar, votar, administrar seus pr\u00f3prios bens, escolher uma profiss\u00e3o, terminar um casamento, participar da pol\u00edtica, publicar livros, comandar empresas e ocupar espa\u00e7os que hoje parecem naturalmente seus.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Nada disso foi concedido porque o mundo espontaneamente percebeu que estava errado.\u00a0Direitos avan\u00e7aram porque algu\u00e9m decidiu contestar aquilo que parecia definitivo.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Por isso a cena de Riham Said merece ser observada para al\u00e9m do impacto visual de uma mulher retirando um v\u00e9u. O instante mais importante n\u00e3o est\u00e1 nas m\u00e3os que alcan\u00e7am o tecido. Est\u00e1 na consci\u00eancia que antecede o movimento. Antes de retirar alguma coisa da cabe\u00e7a, ela retirou daquele homem o poder de decidir em seu lugar.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Essa \u00e9 a imagem que permanece.\u00a0E ela permite olhar novamente para o Afeganist\u00e3o, n\u00e3o para confundir duas hist\u00f3rias, mas para compreender o abismo existente entre possuir escolha e viver sem ela. Quando uma menina n\u00e3o pode entrar na escola porque o governo decidiu que sua educa\u00e7\u00e3o terminou, a quest\u00e3o \u00e9 poder. Quando uma mulher encontra portas fechadas no mercado de trabalho, a quest\u00e3o \u00e9 poder. Quando precisa calcular se poder\u00e1 sair de casa, com quem poder\u00e1 caminhar e qual parte do corpo dever\u00e1 esconder para evitar puni\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o continua sendo poder.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Nenhuma dessas mulheres precisa retirar um v\u00e9u diante de uma c\u00e2mera para demonstrar coragem.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Para algumas, coragem \u00e9 continuar estudando escondida. Para outras, \u00e9 ensinar. \u00c9 trabalhar. \u00c9 escrever. \u00c9 insistir em existir no espa\u00e7o p\u00fablico. \u00c9 preservar dentro de casa a convic\u00e7\u00e3o de que a realidade imposta ao redor n\u00e3o constitui necessariamente o destino reservado \u00e0s suas filhas.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Existe uma tend\u00eancia confort\u00e1vel de imaginar a coragem sempre em cenas espetaculares, mas algumas das resist\u00eancias mais profundas acontecem sem testemunhas. Uma mulher pode desafiar uma estrutura inteira simplesmente recusando permitir que essa estrutura ocupe sua consci\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Talvez por isso seja importante corrigir a identidade daquele v\u00eddeo.\u00a0A internet criou uma hero\u00edna chamada Yasmin Qureshi porque talvez acreditasse que a verdade precisava de alguma ajuda para ser comovente. N\u00e3o precisava.\u00a0Riham Said estava ali.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Seu nome existia. Sua hist\u00f3ria existia. Seu enfrentamento existia. O religioso diante dela existia. As c\u00e2meras registraram o momento. O di\u00e1logo foi preservado. O conflito era suficientemente forte sem que fosse necess\u00e1rio transferi-lo ao Afeganist\u00e3o ou inventar uma biografia para sua protagonista.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O jornalismo perde sua raz\u00e3o de existir quando come\u00e7a a acreditar que uma mentira emocionante vale mais do que uma verdade complexa.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Neste caso, a verdade \u00e9 melhor. Porque ela permite contar duas hist\u00f3rias sem falsificar nenhuma delas.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A primeira pertence a uma apresentadora eg\u00edpcia que, em abril de 2013, recusou-se a aceitar que um religioso determinasse como deveria apresentar-se diante das c\u00e2meras. A segunda pertence a milh\u00f5es de mulheres e meninas afeg\u00e3s que, em 2026, continuam vivendo sob um sistema que avan\u00e7ou justamente sobre esse territ\u00f3rio \u00edntimo da escolha e transformou decis\u00f5es pessoais em regras p\u00fablicas.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Entre o Cairo daquele est\u00fadio e o Afeganist\u00e3o de hoje existe uma enorme dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica, pol\u00edtica e cultural. O que aproxima essas realidades n\u00e3o \u00e9 uma pe\u00e7a de roupa. \u00c9 uma disputa que acompanha a humanidade h\u00e1 muito tempo: quem possui o direito de escrever o destino de uma mulher?<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Uma sociedade pode proclamar sua grandeza, celebrar suas tradi\u00e7\u00f5es, exaltar seus valores e produzir discursos intermin\u00e1veis sobre moralidade. Mas existe uma medida muito mais simples para avaliar o espa\u00e7o real concedido \u00e0 liberdade feminina.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Basta observar o que acontece quando uma mulher diz que deseja decidir.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Decidir se estuda. Decidir se trabalha. Decidir em que acredita. Decidir com quem se casa. Decidir se fala. Decidir se fica. Decidir se parte. Decidir como veste seu corpo. Decidir se cobre os cabelos. Decidir se n\u00e3o os cobre.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O grau de liberdade come\u00e7a a aparecer na resposta que ela recebe.\u00a0Riham recebeu uma ordem para recolocar o hijab e respondeu que n\u00e3o o usaria por causa daquele homem. Talvez esteja justamente nessa resposta a parte mais poderosa de toda a cena, porque ela n\u00e3o rejeitou a possibilidade da f\u00e9. Rejeitou a apropria\u00e7\u00e3o da f\u00e9 por algu\u00e9m que pretendia transform\u00e1-la em instrumento de autoridade sobre sua escolha.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Treze anos depois, assistir novamente ao v\u00eddeo significa compreender que o seu verdadeiro conte\u00fado nunca esteve apenas no instante em que uma mulher descobriu os cabelos. Est\u00e1 no momento em que ela reivindicou para si a responsabilidade de decidir por que os cobriria ou deixaria de cobri-los.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A distin\u00e7\u00e3o parece pequena.\u00a0Na verdade, separa liberdade de submiss\u00e3o.\u00a0Foi por isso que o mundo olhou.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E talvez continue olhando porque, apesar de todos os avan\u00e7os que a humanidade gosta de celebrar, milh\u00f5es de mulheres ainda vivem em lugares onde decis\u00f5es elementares continuam dependendo da autoriza\u00e7\u00e3o de governos, autoridades religiosas, estruturas familiares e c\u00f3digos sociais constru\u00eddos sem que elas tenham participado de sua elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A velha grava\u00e7\u00e3o de 2013 sobrevive porque n\u00e3o pertence apenas ao seu tempo.\u00a0Ela nos alcan\u00e7a agora.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Alcan\u00e7a cada sociedade que pretende discutir o corpo feminino sem ouvir a mulher que vive dentro dele. Alcan\u00e7a cada governo convencido de que pode transformar moralidade em coer\u00e7\u00e3o. Alcan\u00e7a cada religi\u00e3o quando a experi\u00eancia espiritual de uma pessoa corre o risco de ser substitu\u00edda pela autoridade de outra. Alcan\u00e7a tamb\u00e9m aqueles que, em nome da liberta\u00e7\u00e3o, gostariam de determinar o que uma mulher deve retirar, vestir ou abandonar.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">No fim, a hist\u00f3ria retorna ao ponto onde tudo deveria come\u00e7ar.\u00a0N\u00e3o ao v\u00e9u.\u00a0N\u00e3o ao homem.\u00a0N\u00e3o \u00e0 c\u00e2mera.\u00a0\u00c0 mulher.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Porque uma liberdade que n\u00e3o inclui o direito de escolher deixa de ser liberdade no momento em que a escolha se torna inconveniente para algu\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Riham Said n\u00e3o era Yasmin Qureshi. N\u00e3o era afeg\u00e3. N\u00e3o estava em Cabul e n\u00e3o retirou uma burca durante um debate sobre direitos femininos. Era uma apresentadora eg\u00edpcia diante de um religioso que condicionara a entrevista ao uso do hijab. Ela questionou essa condi\u00e7\u00e3o, confrontou a contradi\u00e7\u00e3o que enxergava e decidiu retirar o v\u00e9u que havia colocado para receb\u00ea-lo.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A hist\u00f3ria verdadeira n\u00e3o precisa da fantasia que as redes lhe acrescentaram.\u00a0Ela j\u00e1 carrega tudo aquilo que importa.\u00a0Uma mulher.\u00a0Uma imposi\u00e7\u00e3o.\u00a0Uma escolha.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E a coragem necess\u00e1ria para lembrar ao mundo que, antes de qualquer governo, tradi\u00e7\u00e3o, interpreta\u00e7\u00e3o religiosa ou expectativa social, existe uma consci\u00eancia que pertence somente a ela.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Quando uma mulher decide por si mesma, talvez o gesto dure apenas alguns segundos.<\/p>\n<p>Mas a liberdade reconhece imediatamente o seu significado.<\/p>\n<p>V\u00cdDEO:<\/p>\n<div style=\"width: 640px;\" class=\"wp-video\"><video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-4747-1\" width=\"640\" height=\"1138\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"http:\/\/gazetapernambucana.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/FSaver.com_AQOgUPyjtvutzTmOJduWRxWS8giipZDGCBQG8Y5ayVFUkMXPcIEX-WBYBnuyh3hS1AvhmHTwsgEtfb_g4kljNPF-_720p_HD.mp4?_=1\" \/><a href=\"http:\/\/gazetapernambucana.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/FSaver.com_AQOgUPyjtvutzTmOJduWRxWS8giipZDGCBQG8Y5ayVFUkMXPcIEX-WBYBnuyh3hS1AvhmHTwsgEtfb_g4kljNPF-_720p_HD.mp4\">http:\/\/gazetapernambucana.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/FSaver.com_AQOgUPyjtvutzTmOJduWRxWS8giipZDGCBQG8Y5ayVFUkMXPcIEX-WBYBnuyh3hS1AvhmHTwsgEtfb_g4kljNPF-_720p_HD.mp4<\/a><\/video><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GAZETA PERNAMBUCANA &#8211; Quando uma mulher decide por si mesma, um gesto aparentemente simples pode revelar muito mais do que aquilo que as c\u00e2meras conseguem mostrar. 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