{"id":4728,"date":"2026-08-31T21:53:00","date_gmt":"2026-09-01T00:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4728"},"modified":"2026-08-31T22:12:32","modified_gmt":"2026-09-01T01:12:32","slug":"quando-a-cidade-aprende-a-contar-a-propria-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4728","title":{"rendered":"Quando a cidade aprende a contar a pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<h3 data-section-id=\"lqst84\" data-start=\"753\" data-end=\"975\">Projeto do Instituto Arqueol\u00f3gico, Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Pernambucano transforma nomes de ruas e pra\u00e7as em instrumentos de mem\u00f3ria, conhecimento e reconhecimento daqueles que ajudaram a construir Pernambuco e o Brasil<\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-4732\" src=\"http:\/\/gazetapernambucana.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/f928be48-142c-48a7-8d05-148439b8a578-300x227.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"227\" srcset=\"https:\/\/gazetapernambucana.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/f928be48-142c-48a7-8d05-148439b8a578-300x227.png 300w, https:\/\/gazetapernambucana.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/f928be48-142c-48a7-8d05-148439b8a578.png 590w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p data-start=\"977\" data-end=\"1702\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013 <\/strong>Toda cidade guarda, mesmo quando n\u00e3o percebe, uma esp\u00e9cie de arquivo ao ar livre. Ele se encontra nos edif\u00edcios que resistiram ao tempo, nas igrejas, nos monumentos, nos tra\u00e7ados urbanos, nos mercados, nos antigos caminhos e, sobretudo, nos nomes que foram dados \u00e0s ruas, avenidas e pra\u00e7as. S\u00e3o nomes repetidos diariamente por milhares de pessoas, pronunciados em endere\u00e7os, mapas, conversas, itiner\u00e1rios e correspond\u00eancias, mas que nem sempre conservam, na mem\u00f3ria coletiva, o significado que um dia justificou a homenagem. A cidade continua dizendo esses nomes, ainda que muitas vezes j\u00e1 n\u00e3o saiba exatamente quem foram aqueles homens e mulheres ou por que suas trajet\u00f3rias mereceram permanecer inscritas no espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p data-start=\"1704\" data-end=\"2307\">\u00c9 justamente contra essa lenta eros\u00e3o da mem\u00f3ria que se insere o projeto \u201cA Hist\u00f3ria nas Paredes\u201d, desenvolvido pelo Instituto Arqueol\u00f3gico, Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Pernambucano. A iniciativa parte de uma constata\u00e7\u00e3o aparentemente simples, mas de profundo alcance cultural: um nome inscrito numa placa de rua n\u00e3o deveria ser apenas uma refer\u00eancia geogr\u00e1fica. Ele pode ser tamb\u00e9m uma chave de acesso \u00e0 hist\u00f3ria. Quando se explica quem foi a personalidade homenageada, quando se devolve contexto ao nome que o cotidiano reduziu a um endere\u00e7o, a cidade recupera parte de sua capacidade de narrar a si mesma.<\/p>\n<p data-start=\"2309\" data-end=\"2841\">Na Pra\u00e7a Euclides da Cunha, no bairro da Madalena, diante do Clube Internacional do Recife, essa proposta ganha express\u00e3o concreta. Uma placa dedicada ao escritor, engenheiro, jornalista e pensador brasileiro procura devolver ao nome da pra\u00e7a a dimens\u00e3o hist\u00f3rica que a repeti\u00e7\u00e3o cotidiana muitas vezes dilui. O espa\u00e7o urbano deixa, por alguns instantes, de ser apenas lugar de passagem e se transforma em ponto de encontro entre o presente e uma das figuras decisivas da intelig\u00eancia brasileira na passagem do s\u00e9culo XIX para o XX.<\/p>\n<p data-start=\"2843\" data-end=\"3538\">Euclides da Cunha ocupa lugar singular na forma\u00e7\u00e3o do pensamento nacional. Autor de \u201cOs Sert\u00f5es\u201d, obra publicada em 1902 e constru\u00edda a partir de sua experi\u00eancia como correspondente na Guerra de Canudos, foi muito al\u00e9m do registro jornal\u00edstico de um conflito. Procurou interpretar o pa\u00eds, suas contradi\u00e7\u00f5es, sua geografia humana, seus abandonos e a dist\u00e2ncia entre o Brasil oficial e o Brasil profundo. Engenheiro de forma\u00e7\u00e3o, homem de letras, observador da realidade social e intelectual inquieto, tornou-se uma refer\u00eancia incontorn\u00e1vel para quem deseja compreender n\u00e3o apenas Canudos, mas a pr\u00f3pria dificuldade hist\u00f3rica do Brasil em reconhecer a complexidade de seu territ\u00f3rio e de sua gente.<\/p>\n<p data-start=\"3540\" data-end=\"4078\">A presen\u00e7a de Euclides da Cunha numa pra\u00e7a do Recife, portanto, n\u00e3o deveria se resumir \u00e0 sobreviv\u00eancia de um nome numa placa de identifica\u00e7\u00e3o urbana. O sentido maior da homenagem est\u00e1 na possibilidade de fazer com que algu\u00e9m que atravesse aquela pra\u00e7a se pergunte quem foi o homem por tr\u00e1s daquele nome, o que escreveu, por que sua obra permanece relevante e por que uma cidade distante de seu local de nascimento decidiu incorpor\u00e1-lo \u00e0 pr\u00f3pria paisagem. \u00c9 nesse momento que a mem\u00f3ria deixa de ser ornamento e se converte em conhecimento.<\/p>\n<p data-start=\"4080\" data-end=\"4675\">O texto da placa instalada na Pra\u00e7a Euclides da Cunha \u00e9 de autoria do professor Jos\u00e9 Luiz Mota Menezes, um dos nomes de reconhecida trajet\u00f3ria no estudo e na defesa da hist\u00f3ria, da arquitetura e do patrim\u00f4nio cultural pernambucano. A escolha n\u00e3o \u00e9 casual. Mota Menezes pertence a uma gera\u00e7\u00e3o de estudiosos que compreenderam que preservar patrim\u00f4nio n\u00e3o significa apenas impedir a demoli\u00e7\u00e3o de um edif\u00edcio antigo. Preservar \u00e9 tamb\u00e9m interpretar, documentar, transmitir, contextualizar e assegurar que as refer\u00eancias culturais de uma sociedade continuem intelig\u00edveis para aqueles que vir\u00e3o depois.<\/p>\n<p data-start=\"4677\" data-end=\"5323\">A placa registra ainda o apoio cultural e a homenagem do engenheiro e ex-deputado federal Jos\u00e9 Chaves, ex-aluno da Escola Polit\u00e9cnica de Pernambuco, hoje vinculada \u00e0 Universidade de Pernambuco. Esse encontro entre mem\u00f3ria, hist\u00f3ria, engenharia, universidade e participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil revela uma caracter\u00edstica importante do projeto: a preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico n\u00e3o precisa permanecer confinada \u00e0s institui\u00e7\u00f5es especializadas. Ela pode ser compartilhada por cidad\u00e3os, entidades, universidades, pesquisadores e pessoas que compreendem que a constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva tamb\u00e9m depende de iniciativas concretas de reconhecimento.<\/p>\n<p data-start=\"5325\" data-end=\"5974\">No centro dessa concep\u00e7\u00e3o est\u00e1 S\u00edlvio Tavares de Amorim, advogado, atual 2\u00ba vice-presidente do Instituto Arqueol\u00f3gico, Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Pernambucano e idealizador de \u201cA Hist\u00f3ria nas Paredes\u201d. O projeto nasceu em 2015, inspirado em experi\u00eancias observadas em Lisboa, onde placas instaladas em ruas e edifica\u00e7\u00f5es ajudam moradores e visitantes a compreender a origem dos nomes e a hist\u00f3ria dos personagens associados \u00e0queles lugares. A inspira\u00e7\u00e3o portuguesa, entretanto, encontrou em Pernambuco terreno especialmente f\u00e9rtil, porque poucas regi\u00f5es brasileiras possuem rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o intensa, por vezes conflituosa e apaixonada, com a pr\u00f3pria mem\u00f3ria.<\/p>\n<p data-start=\"5976\" data-end=\"6599\">Desde sua concep\u00e7\u00e3o, a ideia de S\u00edlvio Amorim foi combater um fen\u00f4meno silencioso que acompanha o crescimento das cidades: a transforma\u00e7\u00e3o de personagens hist\u00f3ricos em meras indica\u00e7\u00f5es de endere\u00e7o. Um nome atravessa d\u00e9cadas, permanece numa esquina, numa avenida ou numa pra\u00e7a, mas aos poucos se descola da biografia que lhe deu origem. A placa continua; a mem\u00f3ria desaparece. Nesse processo, perde-se algo maior do que uma informa\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica. Perde-se a possibilidade de compreender por que determinada sociedade, em determinado momento de sua hist\u00f3ria, decidiu homenagear aquela pessoa e incorpor\u00e1-la \u00e0 paisagem urbana.<\/p>\n<p data-start=\"6601\" data-end=\"7167\">\u00c9 precisamente nesse ponto que \u201cA Hist\u00f3ria nas Paredes\u201d ultrapassa a dimens\u00e3o de um programa de instala\u00e7\u00e3o de placas. O projeto introduz uma reflex\u00e3o sobre a pr\u00f3pria natureza da mem\u00f3ria p\u00fablica. Ruas e pra\u00e7as s\u00e3o tamb\u00e9m documentos. A topon\u00edmia de uma cidade registra escolhas, valores, homenagens, disputas e refer\u00eancias de diferentes \u00e9pocas. Ler esses nomes criticamente significa compreender um pouco da sociedade que os escolheu. Explic\u00e1-los \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es significa impedir que a cidade se transforme num conjunto de palavras destitu\u00eddas de sentido hist\u00f3rico.<\/p>\n<p data-start=\"7169\" data-end=\"7737\">Recife oferece um campo extraordin\u00e1rio para esse tipo de trabalho. Poucas cidades brasileiras re\u00fanem, em espa\u00e7o relativamente compacto, tantas camadas de hist\u00f3ria. O per\u00edodo colonial, a presen\u00e7a holandesa, as lutas libert\u00e1rias, os movimentos republicanos, o ciclo a\u00e7ucareiro, a moderniza\u00e7\u00e3o urbana, as grandes transforma\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX e a vida intelectual pernambucana permanecem inscritos na arquitetura, nos bairros e nos nomes das ruas. Caminhar pelo Recife pode ser, para quem conhece essas refer\u00eancias, uma viagem por diferentes momentos da forma\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p data-start=\"7739\" data-end=\"8259\">O problema surge quando essa leitura da cidade deixa de ser transmitida. Uma avenida passa a ser conhecida apenas pela movimenta\u00e7\u00e3o comercial; uma pra\u00e7a, pelo tr\u00e2nsito; uma rua, pelo restaurante ou pelo edif\u00edcio que nela funciona. Aos poucos, os nomes que deveriam servir como pontos de liga\u00e7\u00e3o entre passado e presente tornam-se vazios sem\u00e2nticos. \u00c9 poss\u00edvel morar durante d\u00e9cadas numa rua dedicada a um escritor, cientista, engenheiro, educador ou personagem pol\u00edtico sem nunca saber por que aquele nome foi escolhido.<\/p>\n<p data-start=\"8261\" data-end=\"8335\">A educa\u00e7\u00e3o patrimonial come\u00e7a justamente quando se rompe essa indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p data-start=\"8337\" data-end=\"8784\">Quando uma crian\u00e7a pergunta quem foi o personagem retratado na placa, quando um estudante decide procurar mais informa\u00e7\u00f5es, quando um visitante compreende por que determinado lugar recebeu aquele nome, produz-se algo que nenhuma pol\u00edtica de preserva\u00e7\u00e3o pode dispensar: pertencimento. O patrim\u00f4nio s\u00f3 permanece verdadeiramente vivo quando deixa de ser propriedade exclusiva dos especialistas e passa a integrar a consci\u00eancia cotidiana da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"8786\" data-end=\"9332\">Nesse sentido, \u201cA Hist\u00f3ria nas Paredes\u201d possui uma dimens\u00e3o pedag\u00f3gica que merece aten\u00e7\u00e3o. A cidade pode funcionar como extens\u00e3o da sala de aula. Um professor de Hist\u00f3ria n\u00e3o precisa limitar-se ao livro did\u00e1tico quando o pr\u00f3prio espa\u00e7o urbano oferece personagens, acontecimentos e vest\u00edgios capazes de estimular a curiosidade dos alunos. Uma placa corretamente concebida n\u00e3o substitui o estudo aprofundado, naturalmente, mas pode cumprir aquilo que todo bom instrumento de educa\u00e7\u00e3o procura fazer: despertar uma pergunta que leve a outra pergunta.<\/p>\n<p data-start=\"9334\" data-end=\"9900\">Essa perspectiva se torna ainda mais relevante numa \u00e9poca marcada pela velocidade da informa\u00e7\u00e3o e pela fragilidade da mem\u00f3ria. As sociedades contempor\u00e2neas acumulam dados em quantidade extraordin\u00e1ria, mas isso n\u00e3o significa necessariamente que conhe\u00e7am melhor sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Pelo contr\u00e1rio. A abund\u00e2ncia de informa\u00e7\u00f5es pode conviver com uma profunda perda de refer\u00eancias. Pessoas e acontecimentos que moldaram institui\u00e7\u00f5es, cidades e valores coletivos desaparecem rapidamente da mem\u00f3ria p\u00fablica quando deixam de ser ensinados, mencionados ou contextualizados.<\/p>\n<p data-start=\"9902\" data-end=\"10416\">Preservar, portanto, n\u00e3o \u00e9 um gesto nost\u00e1lgico. Tampouco significa congelar o passado ou transformar personagens hist\u00f3ricos em figuras imunes \u00e0 cr\u00edtica. A Hist\u00f3ria, por sua pr\u00f3pria natureza, est\u00e1 permanentemente sujeita \u00e0 revis\u00e3o, \u00e0 pesquisa e \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o. Conhecer um personagem n\u00e3o obriga ningu\u00e9m a reverenci\u00e1-lo; obriga apenas a sociedade a n\u00e3o ignor\u00e1-lo. \u00c9 justamente a exist\u00eancia da mem\u00f3ria que permite a cr\u00edtica respons\u00e1vel. O esquecimento, ao contr\u00e1rio, elimina at\u00e9 mesmo a possibilidade de compreender.<\/p>\n<p data-start=\"10418\" data-end=\"11087\">O trabalho desenvolvido pelo Instituto Arqueol\u00f3gico, Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Pernambucano adquire especial import\u00e2ncia nesse contexto. Fundado em 1862, o Instituto integra o grupo das mais antigas institui\u00e7\u00f5es culturais brasileiras e h\u00e1 mais de um s\u00e9culo e meio participa da preserva\u00e7\u00e3o, pesquisa e interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de Pernambuco. Seu acervo, suas publica\u00e7\u00f5es, seus documentos, sua biblioteca e a atua\u00e7\u00e3o de seus pesquisadores constituem uma reserva indispens\u00e1vel da mem\u00f3ria pernambucana. Ao levar parte dessa preocupa\u00e7\u00e3o para as ruas, \u201cA Hist\u00f3ria nas Paredes\u201d cria uma ponte entre o conhecimento acumulado nas institui\u00e7\u00f5es e a experi\u00eancia cotidiana do cidad\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"11089\" data-end=\"11541\">\u00c9 uma mudan\u00e7a de perspectiva significativa. Em vez de esperar que o p\u00fablico procure a Hist\u00f3ria, a Hist\u00f3ria vai ao encontro do p\u00fablico. Ela surge diante de uma escola, num muro, numa pra\u00e7a, numa fachada, numa rua percorrida diariamente. N\u00e3o exige ingresso, hor\u00e1rio de visita\u00e7\u00e3o nem conhecimento pr\u00e9vio. Apresenta-se ao transeunte e lhe oferece uma pequena oportunidade de compreender que aquele lugar possui uma hist\u00f3ria anterior \u00e0 sua pr\u00f3pria passagem.<\/p>\n<p data-start=\"11543\" data-end=\"12127\">O reconhecimento de personalidades que contribu\u00edram para Pernambuco e para o Brasil tamb\u00e9m precisa ser compreendido sob essa \u00f3tica. Uma sociedade n\u00e3o preserva apenas pedras, documentos e edifica\u00e7\u00f5es. Preserva exemplos humanos, trajet\u00f3rias profissionais, experi\u00eancias intelectuais, realiza\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, contribui\u00e7\u00f5es culturais e servi\u00e7os prestados \u00e0 coletividade. Homens e mulheres que se destacaram na engenharia, na educa\u00e7\u00e3o, nas artes, na pol\u00edtica, na literatura, na medicina, no direito, na ci\u00eancia ou na vida p\u00fablica constituem parte do patrim\u00f4nio imaterial de uma comunidade.<\/p>\n<p data-start=\"12129\" data-end=\"12631\">O tempo, contudo, pode ser implac\u00e1vel com a mem\u00f3ria individual. Gera\u00e7\u00f5es que conheceram determinada personalidade desaparecem, testemunhos se tornam mais raros e acontecimentos deixam de pertencer \u00e0 experi\u00eancia direta das pessoas. Sem registros, pesquisas e iniciativas de transmiss\u00e3o, figuras decisivas para determinada \u00e9poca acabam reduzidas a nomes impressos numa placa azul ou gravados numa pedra. \u201cA Hist\u00f3ria nas Paredes\u201d procura interromper exatamente essa passagem da homenagem para o anonimato.<\/p>\n<p data-start=\"12633\" data-end=\"13251\">Existe tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o de gratid\u00e3o hist\u00f3rica nesse processo. Reconhecer aqueles que contribu\u00edram para a sociedade n\u00e3o significa estabelecer hierarquias imut\u00e1veis nem transformar biografias em monumentos sem fissuras. Significa admitir que institui\u00e7\u00f5es, cidades e comunidades s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es acumulativas. Cada gera\u00e7\u00e3o recebe algo das anteriores: universidades, pontes, escolas, livros, pesquisas, obras p\u00fablicas, institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, conhecimentos cient\u00edficos, tradi\u00e7\u00f5es culturais. Saber quem participou dessas constru\u00e7\u00f5es \u00e9 uma forma elementar de compreender o patrim\u00f4nio recebido.<\/p>\n<p data-start=\"13253\" data-end=\"13743\">A Pra\u00e7a Euclides da Cunha oferece, nesse sentido, uma s\u00edntese do projeto. Num espa\u00e7o urbano do Recife, um dos grandes int\u00e9rpretes do Brasil encontra um historiador pernambucano que escreve sobre sua trajet\u00f3ria, uma institui\u00e7\u00e3o secular que preserva a mem\u00f3ria e cidad\u00e3os que apoiam a perman\u00eancia dessa lembran\u00e7a no espa\u00e7o p\u00fablico. N\u00e3o se trata simplesmente de um painel afixado numa parede. O que se encontra ali \u00e9 uma pequena arquitetura de mem\u00f3ria, na qual diferentes gera\u00e7\u00f5es se comunicam.<\/p>\n<p data-start=\"13745\" data-end=\"14244\">Talvez esse seja o m\u00e9rito mais profundo da iniciativa concebida por S\u00edlvio Amorim: compreender que a mem\u00f3ria p\u00fablica precisa de presen\u00e7a. Arquivos s\u00e3o indispens\u00e1veis; livros s\u00e3o insubstitu\u00edveis; museus e institutos hist\u00f3ricos cumprem fun\u00e7\u00f5es essenciais. Mas uma sociedade que deseja conservar sua hist\u00f3ria tamb\u00e9m precisa encontr\u00e1-la fora desses espa\u00e7os, no caminho ordin\u00e1rio de seus cidad\u00e3os. O passado precisa continuar vis\u00edvel para que n\u00e3o se transforme numa abstra\u00e7\u00e3o reservada aos especialistas.<\/p>\n<p data-start=\"14246\" data-end=\"14669\">Quando isso acontece, o Recife deixa de ser apenas cen\u00e1rio e passa a ser documento. A cidade se torna leg\u00edvel. Suas esquinas come\u00e7am a revelar rela\u00e7\u00f5es entre \u00e9pocas, pessoas e acontecimentos; suas pra\u00e7as deixam de ser simples vazios urbanos; seus nomes recuperam densidade. Um endere\u00e7o passa a conter uma biografia, uma rua pode conduzir a um epis\u00f3dio hist\u00f3rico, uma parede pode despertar a curiosidade que leva a um livro.<\/p>\n<p data-start=\"14671\" data-end=\"15015\">\u00c9 por isso que o valor de \u201cA Hist\u00f3ria nas Paredes\u201d n\u00e3o deve ser medido apenas pela quantidade de placas instaladas, mas pela concep\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio que ele coloca em circula\u00e7\u00e3o. O projeto recorda que a preserva\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita \u00e0quilo que conseguimos impedir que desapare\u00e7a fisicamente. Preservar tamb\u00e9m \u00e9 impedir que desapare\u00e7a o significado.<\/p>\n<p data-start=\"15017\" data-end=\"15359\">No fim, a pergunta que acompanha a iniciativa \u00e9 maior do que parece: que cidade queremos deixar para aqueles que vir\u00e3o depois de n\u00f3s? Uma cidade repleta de nomes que ningu\u00e9m mais sabe explicar ou uma cidade capaz de contar, com serenidade e rigor, quem passou por ela, o que realizou e por que sua mem\u00f3ria foi considerada digna de permanecer?<\/p>\n<p data-start=\"15361\" data-end=\"15951\" data-is-last-node=\"\" data-is-only-node=\"\">A resposta talvez esteja justamente nessas paredes que aprenderam a falar. Quando a cidade recupera a hist\u00f3ria de seus nomes, ela n\u00e3o est\u00e1 apenas prestando homenagem aos mortos. Est\u00e1 oferecendo aos vivos instrumentos para compreender a sociedade que receberam e para pensar, com maior consci\u00eancia, aquela que desejam construir. Preservar a mem\u00f3ria, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 voltar os olhos nostalgicamente para tr\u00e1s. \u00c9 manter aberto o di\u00e1logo entre tempos diferentes, porque nenhum futuro se constr\u00f3i com seguran\u00e7a quando uma comunidade perde a capacidade de reconhecer o caminho que percorreu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Projeto do Instituto Arqueol\u00f3gico, Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Pernambucano transforma nomes de ruas e pra\u00e7as em instrumentos de mem\u00f3ria, conhecimento e reconhecimento daqueles que ajudaram a construir Pernambuco e o Brasil Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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