{"id":4691,"date":"2026-08-30T20:57:29","date_gmt":"2026-08-30T23:57:29","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4691"},"modified":"2026-08-30T20:57:29","modified_gmt":"2026-08-30T23:57:29","slug":"a-crueldade-que-estampou-as-ruas-do-recife-cartazes-anonimos-transformam-o-luto-de-uma-familia-em-arma-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4691","title":{"rendered":"A CRUELDADE QUE ESTAMPOU\u00a0AS RUAS DO RECIFE: CARTAZES AN\u00d4NIMOS TRANSFORMAM O LUTO DE UMA FAM\u00cdLIA EM ARMA POL\u00cdTICA"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"ds-markdown-paragraph\"><strong><span class=\"\">O Recife amanheceu, neste domingo (30), com uma cena que poucos conseguir\u00e3o esquecer. Cartazes ap\u00f3crifos, espalhados por cal\u00e7adas e muros, especialmente no Recife Antigo, trouxeram \u00e0 tona uma acusa\u00e7\u00e3o t\u00e3o monstruosa quanto vazia: que a governadora Raquel Lyra teria assassinado o pr\u00f3prio marido, o empres\u00e1rio Fernando Lucena, falecido em outubro de 2022.<\/span><\/strong><\/h6>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\"><strong>GAZETA PERNAMBUCANA &#8211;<\/strong> Por tr\u00e1s do papel impresso, havia uma mentira. Mas por tr\u00e1s da mentira, havia um alvo: a honra de uma mulher, a mem\u00f3ria de um homem que se foi, e a dor de dois filhos que perderam o pai.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Os materiais, sem qualquer identifica\u00e7\u00e3o de autoria, foram colados em postes, paredes e pontos de \u00f4nibus. Em letras garrafais, alguns diziam:\u00a0<\/span><em><span class=\"\">\u201cEla matou o marido para ganhar a elei\u00e7\u00e3o\u201d<\/span><\/em><span class=\"\">. Outros traziam montagens com fotos da governadora ao lado de figuras como Elize Matsunaga e Flordelis, sob a frase\u00a0<\/span><em><span class=\"\">\u201cMatadoras de maridos\u201d<\/span><\/em><span class=\"\">.<\/span><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gazetapernambucana.com\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-30-at-13.11.54-768x960-1.jpeg\" \/><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">A mensagem era clara: transformar a trag\u00e9dia pessoal de uma fam\u00edlia em combust\u00edvel para o \u00f3dio pol\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Fernando Lucena faleceu em outubro de 2022, v\u00edtima de um infarto fulminante. A morte foi natural, atestada por laudos m\u00e9dicos e nunca, em nenhum momento, foi objeto de investiga\u00e7\u00e3o criminal. N\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico inqu\u00e9rito, uma \u00fanica per\u00edcia, uma \u00fanica testemunha que sustente a mentira agora estampada nas ruas.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">O que h\u00e1, de fato, \u00e9 uma tentativa desesperada e covarde de destruir a imagem de uma governadora usando a dor mais \u00edntima que uma pessoa pode carregar: a perda do companheiro de vida.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">A dor da mulher e m\u00e3e Raquel Lyra, ao tomar conhecimento dos cartazes, desabou. Em v\u00eddeo gravado ainda pela manh\u00e3, com a voz embargada e os olhos marejados, ela pediu respeito \u00e0 sua fam\u00edlia e \u00e0 mem\u00f3ria do marido. \u201cN\u00e3o mexam com meus filhos. N\u00e3o transformem a morte do pai deles em piada, em mentira, em \u00f3dio\u201d, disse, em um apelo que partia menos da governadora e mais da m\u00e3e e da vi\u00fava.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Fontes pr\u00f3ximas \u00e0 fam\u00edlia relataram que os filhos do casal, adolescentes, foram os que mais sofreram ao ver as imagens dos cartazes circulando nas redes sociais. \u201cEles perderam o pai h\u00e1 quatro anos. Estavam conseguindo, aos poucos, reconstruir suas vidas. Agora, essa ferida foi reaberta com uma viol\u00eancia que n\u00e3o se pode medir\u201d, contou uma amiga da fam\u00edlia, em l\u00e1grimas.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">A rea\u00e7\u00e3o de amigos, colegas de trabalho e cidad\u00e3os comuns foi imediata e emocionada. Ainda pela manh\u00e3, mensagens de solidariedade come\u00e7aram a inundar as redes sociais, n\u00e3o de pol\u00edticos, mas de pessoas que se disseram chocadas com a crueldade do ato.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Uma moradora do Recife Antigo, que preferiu n\u00e3o se identificar, contou \u00e0 nossa reportagem que, ao ver os cartazes, sentiu \u201cvergonha e nojo\u201d. \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica. Isso \u00e9 maldade pura. Como algu\u00e9m pode usar a morte de uma pessoa para atacar a vi\u00fava? \u00c9 desumano.\u201d<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Amigos pr\u00f3ximos de Fernando Lucena tamb\u00e9m se manifestaram. \u201cConheci Fernando. Era um homem \u00edntegro, bom pai, bom marido. Ele morreu de infarto. Ponto. Usar a mem\u00f3ria dele para isso \u00e9 um desrespeito n\u00e3o s\u00f3 a Raquel, mas a todos que o amavam\u201d, desabafou um empres\u00e1rio que frequentava o mesmo c\u00edrculo social do casal.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Nas redes sociais, a hashtag #RespeitoRaquelLyra come\u00e7ou a ganhar for\u00e7a, com centenas de relatos de pessoas que perderam entes queridos e que se identificaram com a dor da governadora. \u201cPerdi meu marido h\u00e1 tr\u00eas anos. Se algu\u00e9m fizesse isso comigo, n\u00e3o sei se teria for\u00e7as para continuar. Minha solidariedade a ela e aos filhos\u201d, escreveu uma internauta.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">A governadora registrou boletins de ocorr\u00eancia na Pol\u00edcia Federal e na Pol\u00edcia Civil ainda na manh\u00e3 deste domingo. A Pol\u00edcia Civil informou que abrir\u00e1 inqu\u00e9rito para apurar a autoria dos cartazes, que podem configurar os crimes de cal\u00fania, difama\u00e7\u00e3o e inj\u00faria, al\u00e9m de crime eleitoral, j\u00e1 que o epis\u00f3dio ocorre durante o per\u00edodo de campanha.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Especialistas em direito eleitoral ouvidos pela reportagem afirmam que, se os respons\u00e1veis forem identificados, poder\u00e3o responder por propaganda negativa il\u00edcita e por atentado \u00e0 honra, com penas que podem chegar a anos de reclus\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">\u201cA lei \u00e9 clara: a liberdade de express\u00e3o n\u00e3o protege ofensas an\u00f4nimas e caluniosas. A Justi\u00e7a Eleitoral tem instrumentos para coibir esse tipo de pr\u00e1tica, que fere a dignidade do processo democr\u00e1tico\u201d, explicou um jurista, sob condi\u00e7\u00e3o de anonimato.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">O que fica de domingo no Recife, o lado mais sombrio e cruel\u00a0 da disputa pol\u00edtica. Viu a dor de uma mulher ser exposta como espet\u00e1culo. Viu filhos serem obrigados a reviver a perda do pai. Viu a mem\u00f3ria de um homem ser manchada por uma mentira.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Mas viu tamb\u00e9m a rea\u00e7\u00e3o daqueles que, mesmo an\u00f4nimos, disseram \u201cbasta\u201d. A como\u00e7\u00e3o popular, o abra\u00e7o virtual, as mensagens de apoio \u2014 tudo isso mostrou que, apesar de tudo, ainda h\u00e1 humanidade em Pernambuco.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">A Gazeta Pernambucana acompanhar\u00e1 as investiga\u00e7\u00f5es de perto, com o compromisso de informar a verdade, sem jamais reproduzir a mentira. E registrar\u00e1, sempre, a dor e a indigna\u00e7\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o aceita que a pol\u00edtica seja feita \u00e0 custa do sofrimento alheio.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Que os respons\u00e1veis por esse ato perverso sejam encontrados.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Recife amanheceu, neste domingo (30), com uma cena que poucos conseguir\u00e3o esquecer. 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