{"id":4626,"date":"2026-08-25T17:16:45","date_gmt":"2026-08-25T20:16:45","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4626"},"modified":"2026-08-25T17:16:45","modified_gmt":"2026-08-25T20:16:45","slug":"a-cicatriz-que-ainda-pulsa-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4626","title":{"rendered":"A cicatriz que ainda pulsa. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013 <\/strong>Um cansa\u00e7o que n\u00e3o nasce do corpo tem um jeito de anunciar-se sem hora marcada: n\u00e3o vem das pernas que atravessaram o dia, dos olhos que enfrentaram telas, estradas, not\u00edcias e despedidas, mas de um lugar mais fundo, quase clandestino, onde a esperan\u00e7a insiste em trabalhar quando todo o resto j\u00e1 pediu demiss\u00e3o, e talvez seja exatamente ali que more a dor de sonhar o mesmo sonho todos os dias, porque sonhar uma vez pode ser encantamento, sonhar duas vezes pode ser pressentimento, mas carregar durante anos a mesma imagem dentro do peito, acordar com ela sentada \u00e0 beira da cama como uma visita que nunca vai embora, \u00e9 aprender que at\u00e9 a esperan\u00e7a, quando n\u00e3o encontra porta aberta, come\u00e7a a pesar como uma mala cheia de pedras.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O mesmo sonho pode ser uma pessoa, uma casa, uma cidade, um abra\u00e7o que ainda n\u00e3o aconteceu, uma vida que parecia t\u00e3o poss\u00edvel quando foi imaginada e que, com o passar dos anos, foi se afastando como aquelas luzes que vemos do outro lado do rio e que parecem pr\u00f3ximas enquanto estamos parados, mas se tornam impossivelmente distantes quando finalmente tentamos alcan\u00e7\u00e1-las, e o mais cruel n\u00e3o \u00e9 exatamente a dist\u00e2ncia, mas o fato de continuarmos reconhecendo cada detalhe daquilo que desejamos, como quem guarda na mem\u00f3ria a planta de uma casa onde jamais conseguiu morar.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">D\u00f3i porque o sonho envelhece conosco, e enquanto n\u00f3s mudamos de endere\u00e7o, de certezas, de amigos, de roupas, de opini\u00e3o e at\u00e9 de maneira de olhar para o mundo, ele permanece com o mesmo rosto, esperando no mesmo lugar, preservado por alguma teimosia da alma que se recusa a aceitar que certas coisas tamb\u00e9m conhecem o tempo da partida, e ent\u00e3o come\u00e7amos a viver uma esp\u00e9cie de fidelidade silenciosa a algo que talvez nunca tenha prometido ficar, mas que n\u00f3s, por necessidade ou amor, transformamos em destino.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Nas manh\u00e3s em que esse sonho parece perto, t\u00e3o perto que quase podemos tocar sua superf\u00edcie, ele costuma se sentar na mesma cadeira da varanda, naquele canto onde a luz chega primeiro, e caminhamos ent\u00e3o com uma alegria secreta, acreditando que talvez o universo finalmente tenha encontrado nosso endere\u00e7o, que alguma engrenagem invis\u00edvel tenha girado durante a madrugada e colocado as coisas no lugar; mas existem tamb\u00e9m as manh\u00e3s em que ele se apresenta como aus\u00eancia, a cadeira vazia, o caf\u00e9 esfriando sozinho na mesa, e \u00e9 justamente a\u00ed que percebemos o tamanho do espa\u00e7o que reservamos dentro de n\u00f3s para aquilo que ainda n\u00e3o chegou.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Talvez seja essa a parte mais dolorosa, porque enquanto esperamos o sonho acontecer, a vida continua acontecendo ao redor: as pessoas passam, as esta\u00e7\u00f5es trocam de roupa, os anivers\u00e1rios acumulam n\u00fameros, algumas amizades desaparecem pelas frestas do cotidiano, novas rugas chegam sem pedir licen\u00e7a, a casa muda de arruma\u00e7\u00e3o sem que ningu\u00e9m perceba exatamente quando, e n\u00f3s permanecemos negociando com o futuro como quem escreve cartas para um endere\u00e7o que nunca respondeu, alimentando a esperan\u00e7a de que alguma delas tenha sido lida.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Mas existe tamb\u00e9m uma grandeza nessa insist\u00eancia, porque somente quem ainda sonha \u00e9 capaz de sentir esse tipo de dor, somente quem guarda dentro de si uma imagem de futuro consegue perceber a dist\u00e2ncia entre aquilo que vive e aquilo que deseja viver, e talvez por isso os sonhos sejam t\u00e3o parecidos com estrelas, n\u00e3o porque sejam inalcan\u00e7\u00e1veis, como repetem os pessimistas, mas porque mesmo quando est\u00e3o longe continuam iluminando o caminho de quem decidiu caminhar em sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O perigo est\u00e1 em transformar o sonho numa pris\u00e3o, em acreditar que a vida somente come\u00e7ar\u00e1 quando aquilo acontecer, quando aquela pessoa chegar, quando aquela porta abrir, quando aquele reconhecimento vier, quando aquele amor finalmente compreender, porque a espera pode ser uma casa confort\u00e1vel demais, e h\u00e1 quem passe d\u00e9cadas olhando pela janela aguardando uma paisagem que talvez estivesse atr\u00e1s da pr\u00f3pria cadeira.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Sonhar o mesmo sonho todos os dias d\u00f3i porque, no fundo, cada manh\u00e3 nos obriga a admitir que ainda n\u00e3o chegamos l\u00e1, mas talvez amadurecer seja compreender que a vida n\u00e3o \u00e9 apenas o lugar onde os sonhos se realizam, \u00e9 tamb\u00e9m o caminho onde aprendemos quem somos enquanto eles n\u00e3o acontecem.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">E talvez um dia, quando menos esperarmos, descubramos que o sonho que perseguimos durante tanto tempo n\u00e3o era exatamente um destino, mas uma esp\u00e9cie de farol, colocado na dist\u00e2ncia apenas para impedir que naveg\u00e1ssemos sem dire\u00e7\u00e3o, porque algumas coisas que desejamos existem para serem alcan\u00e7adas, enquanto outras existem simplesmente para nos fazer continuar.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">No fim, talvez a maior coragem n\u00e3o seja abandonar o sonho nem insistir cegamente nele, mas aprender a carreg\u00e1-lo sem deixar que seu peso destrua a beleza dos dias que ainda temos, porque h\u00e1 sonhos que chegam, h\u00e1 sonhos que mudam, h\u00e1 sonhos que desaparecem, e existem aqueles que permanecem conosco para sempre, n\u00e3o como feridas abertas nem como mem\u00f3rias adormecidas, mas como cicatrizes que ainda pulsam de leve quando tocadas, lembrando-nos, sem nos ferir de novo, de tudo aquilo que um dia fomos capazes de desejar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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