{"id":4624,"date":"2026-08-25T16:50:58","date_gmt":"2026-08-25T19:50:58","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4624"},"modified":"2026-08-25T16:50:58","modified_gmt":"2026-08-25T19:50:58","slug":"dolar-estavel-a-regua-do-pregao-ou-a-regua-da-vida-por-flavio-cha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4624","title":{"rendered":"D\u00f3lar est\u00e1vel: a r\u00e9gua do preg\u00e3o ou a r\u00e9gua da vida? Por Fl\u00e1vio Cha"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC\u00a0 \u00a0 \u00a0\u2013\u00a0 \u00a0 \u00a0A frase cabe numa manchete. A vida de quem recebe sal\u00e1rio n\u00e3o cabe em lugar nenhum t\u00e3o pequeno.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">No vocabul\u00e1rio financeiro, dizer que o d\u00f3lar est\u00e1 est\u00e1vel significa apenas que ele variou pouco em rela\u00e7\u00e3o ao preg\u00e3o anterior, uma informa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, objetiva, envolta numa apar\u00eancia de neutralidade que a linguagem econ\u00f4mica cultiva como se fosse uma virtude. Mas nenhuma palavra que atravessa a porta das casas chega inteiramente neutra at\u00e9 a mesa da cozinha. Estabilidade, para quem vive contando moedas e adiando necessidades, n\u00e3o \u00e9 uma cota\u00e7\u00e3o que oscilou alguns centavos. \u00c9 conseguir respirar sem o medo do fim do m\u00eas instalado no peito desde o in\u00edcio dele. \u00c9 abrir a geladeira sem descobrir, antes da hora, que a comida vai faltar. \u00c9 comprar um rem\u00e9dio sem precisar sacrificar em troca alguma outra urg\u00eancia da casa. \u00c9 viver sem a sensa\u00e7\u00e3o permanente de que o dinheiro se esvai mais depressa do que o suor gasto para ganh\u00e1-lo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A quest\u00e3o, por isso, n\u00e3o est\u00e1 apenas no valor do d\u00f3lar. Est\u00e1 na dist\u00e2ncia entre a palavra que o mercado usa e a realidade que carrega quem nunca foi convidado para dentro desse mercado.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Existe uma diferen\u00e7a profunda entre a r\u00e9gua do preg\u00e3o e a r\u00e9gua da vida. A primeira mede centavos, volatilidade, expectativa, fluxo de capitais, e pode registrar estabilidade em poucas horas. A segunda mede comida, aluguel, transporte, sa\u00fade, dignidade, medo e esperan\u00e7a, e revela quase sempre uma instabilidade que vem sendo constru\u00edda, silenciosa e lenta, ao longo de anos. \u00c9 poss\u00edvel que o d\u00f3lar esteja est\u00e1vel \u00e0s onze da manh\u00e3 e que uma fam\u00edlia inteira j\u00e1 esteja em desequil\u00edbrio desde o primeiro dia do m\u00eas. \u00c9 poss\u00edvel que os mercados atravessem uma manh\u00e3 tranquila enquanto, na mesma hora, algu\u00e9m retira produtos do carrinho porque o dinheiro n\u00e3o vai chegar ao fim da lista. \u00c9 poss\u00edvel que a infla\u00e7\u00e3o desacelere no papel e que o peso da vida continue exatamente onde estava, sobre os ombros de quem menos tem como sustent\u00e1-lo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Nada disso \u00e9 impress\u00e3o. \u00c9 a textura concreta do cotidiano de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Existe uma esp\u00e9cie de viol\u00eancia silenciosa quando a linguagem da economia se distancia demais daquilo que se prop\u00f5e a explicar. N\u00e3o porque os n\u00fameros sejam falsos, mas porque n\u00fameros sem rosto humano produzem uma verdade incompleta, e uma verdade incompleta, repetida muitas vezes at\u00e9 virar h\u00e1bito de manchete, acaba criando uma apar\u00eancia de normalidade exatamente ali onde existe sofrimento. O problema n\u00e3o \u00e9 dizer que o d\u00f3lar est\u00e1 est\u00e1vel. O problema \u00e9 calar o essencial: est\u00e1vel para quem, e em rela\u00e7\u00e3o a qu\u00ea.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Para o mercado, a estabilidade pode nascer e morrer entre o fechamento de ontem e a abertura de hoje. Para uma m\u00e3e que compra alimentos, estabilidade seria poder levar para casa, com o mesmo sal\u00e1rio, aquilo que levava meses atr\u00e1s. Para um aposentado, seria n\u00e3o sentir o rem\u00e9dio avan\u00e7ando devagar sobre a renda inteira. Para um trabalhador, seria n\u00e3o ver o pagamento desaparecer em poucos dias, como \u00e1gua que escorre por entre os dedos fechados. Essa r\u00e9gua da vida, feita de m\u00e3es, aposentados e trabalhadores, nunca aparece no painel eletr\u00f4nico, porque n\u00e3o foi feita para ser cotada, e sim para ser vivida.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A dor econ\u00f4mica raramente chega com o nome que recebe nos relat\u00f3rios. Ela entra em casa disfar\u00e7ada de pequenas ren\u00fancias, uma marca mais cara que se corta, um produto que se troca por outro mais simples, uma quantidade que diminui no prato sem que ningu\u00e9m precise dizer em voz alta o motivo, uma consulta que se adia, uma conta que se empurra para o m\u00eas seguinte, um empr\u00e9stimo pequeno que se pede por vergonha, o m\u00ednimo do cart\u00e3o que se paga s\u00f3 para n\u00e3o afundar mais fundo, at\u00e9 que a pessoa se acostume, aos poucos, a viver sem aquilo que antes lhe parecia simplesmente b\u00e1sico. \u00c9 assim, nesse gotejar quase invis\u00edvel, que a perda de poder de compra se transforma em perda de liberdade. A pobreza n\u00e3o come\u00e7a apenas quando falta comida. Muitas vezes come\u00e7a antes, no instante exato em que desaparece a capacidade de escolher, e a pessoa passa a decidir n\u00e3o mais o que comprar, mas apenas o que excluir.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Quando algu\u00e9m trabalha o m\u00eas inteiro e precisa escolher entre alimenta\u00e7\u00e3o e medicamento, n\u00e3o h\u00e1 estabilidade. Quando uma fam\u00edlia n\u00e3o consegue planejar a semana seguinte porque um gasto imprevisto pode derrubar todo o or\u00e7amento, n\u00e3o h\u00e1 estabilidade. Quando um jovem trabalha sem conseguir imaginar como pagar\u00e1 algum dia uma moradia pr\u00f3pria, n\u00e3o h\u00e1 estabilidade. Quando um idoso olha primeiro para o pre\u00e7o do rem\u00e9dio e s\u00f3 depois para a receita m\u00e9dica, n\u00e3o h\u00e1 estabilidade. Quando uma m\u00e3e reduz a pr\u00f3pria alimenta\u00e7\u00e3o para preservar a dos filhos, n\u00e3o h\u00e1 estabilidade alguma, por mais tranquila que esteja a cota\u00e7\u00e3o do dia. Nenhum preg\u00e3o sereno tem poder de apagar isso.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9 por isso que a economia n\u00e3o deveria ser tratada apenas como ci\u00eancia de mercados. Economia \u00e9, antes de qualquer f\u00f3rmula, a administra\u00e7\u00e3o da sobreviv\u00eancia humana em sociedade. Ela come\u00e7a onde algu\u00e9m planta, produz, trabalha, vende, compra, paga, cuida, cria filhos, envelhece e tenta, com o pouco que tem, construir algum futuro. O mercado \u00e9 parte da economia. As pessoas n\u00e3o s\u00e3o parte do mercado. Essa diferen\u00e7a precisa ser lembrada sempre que a palavra estabilidade for pronunciada como se fosse suficiente.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Quando o risco de um pa\u00eds aumenta aos olhos de quem movimenta capital, esse risco n\u00e3o fica preso ali, entre planilhas e telas. Ele desce at\u00e9 o cidad\u00e3o comum na forma de cr\u00e9dito mais caro, financiamento inacess\u00edvel, empresa que deixa de contratar, pre\u00e7o que sobe na prateleira, imposto que aumenta, servi\u00e7o p\u00fablico que piora. O mercado calcula o risco. A popula\u00e7\u00e3o vive a consequ\u00eancia. E talvez esteja a\u00ed uma das desigualdades mais profundas da economia moderna: quem possui patrim\u00f4nio pode diversificar diante da tempestade, pode se proteger, pode esperar. Quem vive apenas de sal\u00e1rio s\u00f3 pode apertar o cinto e suportar. A diferen\u00e7a entre uns e outros n\u00e3o est\u00e1 apenas na quantidade de dinheiro que possuem, mas na quantidade de escolhas que a vida ainda lhes permite fazer.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Por isso, quando se fala em estabilidade, \u00e9 preciso ter a coragem de perguntar qual estabilidade interessa de fato a uma sociedade. Aquela que tranquiliza os mercados por algumas horas, ou aquela que permite ao cidad\u00e3o comum atravessar a vida sem o medo permanente de perder o pouco que conquistou. O c\u00e2mbio, a infla\u00e7\u00e3o, os juros, o investimento, nenhum desses n\u00fameros vale nada sozinho, e nenhum deveria ser apresentado como um fim em si mesmo. Eles s\u00f3 merecem ser ditos porque aliviam ou agravam a vida concreta das pessoas. Uma pol\u00edtica que reduz a infla\u00e7\u00e3o importa porque protege o poder de compra de quem ganha pouco. Uma moeda que se fortalece importa porque pode aliviar a press\u00e3o sobre os pre\u00e7os da feira e do armaz\u00e9m. Juros que caem importam porque fam\u00edlias inteiras podem, finalmente, respirar melhor \u00e0 noite.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Talvez a linguagem econ\u00f4mica precise recuperar uma palavra que anda esquecida nos relat\u00f3rios: consequ\u00eancia. Toda decis\u00e3o econ\u00f4mica carrega uma consequ\u00eancia. Toda alta de juros, toda desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial, toda pol\u00edtica fiscal, toda crise de confian\u00e7a, tudo isso produz efeitos que raramente se distribuem de forma igual. H\u00e1 quem perca rentabilidade. H\u00e1 quem perca patrim\u00f4nio. E h\u00e1 quem perca comida. Essas perdas n\u00e3o s\u00e3o equivalentes, e uma sociedade que se pretenda moralmente consciente precisa aprender, com urg\u00eancia, a distingui-las. N\u00e3o se pode tratar com a mesma frieza uma oscila\u00e7\u00e3o de mercado e a inseguran\u00e7a alimentar de uma fam\u00edlia. N\u00e3o se pode transformar o sofrimento humano em nota de rodap\u00e9 de relat\u00f3rio. N\u00e3o se pode falar em estabilidade econ\u00f4mica fingindo n\u00e3o ver quem vive, dia ap\u00f3s dia, em estado permanente de incerteza.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Talvez a grande quest\u00e3o n\u00e3o seja saber se cinco reais e catorze centavos representam um valor alto ou baixo para o d\u00f3lar. Talvez a quest\u00e3o verdadeira seja saber que tipo de pa\u00eds aceita chamar de estabilidade uma situa\u00e7\u00e3o em que a moeda quase n\u00e3o se move por algumas horas, enquanto a vida de milh\u00f5es de pessoas continua sem ch\u00e3o. O problema da manchete n\u00e3o est\u00e1 exatamente no dado. Est\u00e1 na escala humana que desaparece dentro dele, engolida pela frieza dos n\u00fameros.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Quando se diz que o d\u00f3lar est\u00e1 est\u00e1vel, seria preciso lembrar que a estabilidade verdadeira n\u00e3o se mede apenas pela aus\u00eancia de movimento de uma moeda. Mede-se pela possibilidade de uma fam\u00edlia conservar aquilo que possui. Mede-se pela capacidade de uma pessoa trabalhar sem empobrecer. Mede-se pela seguran\u00e7a de quem envelhece e pelo futuro que um jovem ainda consegue imaginar para si. Mede-se, sobretudo, pela comida que permanece na mesa e pela dignidade que n\u00e3o precisa ser negociada a cada m\u00eas que passa.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A r\u00e9gua do preg\u00e3o pode dizer que est\u00e1 tudo tranquilo. A r\u00e9gua da vida, essa que ningu\u00e9m cota em painel nenhum, pode estar dizendo, ao mesmo tempo e na mesma cidade, exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC\u00a0 \u00a0 \u00a0\u2013\u00a0 \u00a0 \u00a0A frase cabe numa manchete. A vida de quem recebe sal\u00e1rio n\u00e3o cabe em lugar nenhum t\u00e3o pequeno. 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