{"id":4567,"date":"2026-08-21T21:26:31","date_gmt":"2026-08-22T00:26:31","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4567"},"modified":"2026-08-21T21:32:33","modified_gmt":"2026-08-22T00:32:33","slug":"por-ser-tao-grande-o-amor-nao-morre-sequer-no-deserto-que-agora-sou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4567","title":{"rendered":"Por ser t\u00e3o grande, o amor n\u00e3o morre sequer no deserto que agora sou. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"isSelectedEnd\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013\u00a0<\/strong>Naquele instante em que a areia escaldante do sol do meio-dia confunde a linha do horizonte com um espelho l\u00edquido e dan\u00e7arino, e o vento, que deveria trazer al\u00edvio, parece antes um sopro de fornalha a lamber a pele e a secar a palavra na garganta, \u00e9 que a mem\u00f3ria do que fomos e do que tivemos se torna mais aguda do que a ponta de um punhal de obsidiana, pois \u00e9 precisamente no deserto que agora sou, nessa extens\u00e3o infind\u00e1vel de dunas que se parecem com as ondas petrificadas de um oceano de solid\u00e3o, que o amor, esse visitante inoportuno e glorioso, resolve fincar suas ra\u00edzes mais profundas, n\u00e3o como uma planta que busca a \u00e1gua furtiva do subsolo, mas como a pr\u00f3pria miragem que insiste em se materializar a cada passo, a cada respira\u00e7\u00e3o ofegante do peito que procura o ar raro e quente.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E assim caminho, e assim me perco, porque o amor que eu carrego n\u00e3o \u00e9 um fardo que se dep\u00f5e \u00e0 sombra do primeiro rochedo, nem uma lembran\u00e7a que se dissipa com a noite que avan\u00e7a sobre os montes de sal, mas uma for\u00e7a tel\u00farica que pulsa no centro do meu esqueleto, uma respira\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 minha, que vem de um lugar anterior ao meu primeiro grito, e que agora, neste ex\u00edlio de areia e cinza, se faz mais presente do que a pr\u00f3pria sede que me corr\u00f3i, pois a sede do corpo \u00e9 passageira e se aplaca com uma gota de \u00e1gua, mas a sede da alma, essa que o amor despertou, \u00e9 um oceano inteiro a pedir passagem num copo de vidro quebrado, e \u00e9 por isso que eu ando, e ando, e ando, arrastando os p\u00e9s nus sobre a crosta quente do ch\u00e3o, enquanto o sol desce lentamente, como um olho que se fecha para n\u00e3o ver o espet\u00e1culo da minha desola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Quando a noite enfim despenca sobre o deserto, e as estrelas aparecem como as migalhas de um banquete celestial que os deuses esqueceram de recolher, o amor se transforma, ganha uma textura de seda fria e uma claridade que n\u00e3o vem de nenhuma lua, porque o amor, nesse territ\u00f3rio de areia movedi\u00e7a e de solid\u00e3o absoluta, n\u00e3o \u00e9 mais a chama que arde e consome, mas a pr\u00f3pria brasa que guarda no seu interior o calor de todas as fogueiras que jamais acendemos, e \u00e9 nesse momento, quando o sil\u00eancio \u00e9 t\u00e3o denso que se pode ouvir o pr\u00f3prio sangue a circular nas veias como um rio subterr\u00e2neo, que compreendo a verdade mais simples e mais devastadora de todas, a de que o amor, por ser t\u00e3o vasto, por ser t\u00e3o imenso que transborda as margens de qualquer cora\u00e7\u00e3o humano, n\u00e3o pode morrer, n\u00e3o tem a menor condi\u00e7\u00e3o de morrer, mesmo que o corpo que o abriga seja agora este deserto de ossos e de poeira, mesmo que a voz que o pronuncia se desfa\u00e7a em sussurros que o vento leva para n\u00e3o sei onde, mesmo que a m\u00e3o que o escreve na areia seja apagada pelo primeiro vendaval da madrugada.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 uma certeza que me atravessa como um raio que n\u00e3o fere, mas ilumina, e que me faz parar no meio da imensid\u00e3o escura para olhar para tr\u00e1s, para as pegadas que v\u00e3o se apagando lentamente, uma a uma, como as s\u00edlabas de um poema que se desfaz antes de ser lido, e nesse olhar para o passado, que \u00e9 o \u00fanico movimento poss\u00edvel quando o futuro \u00e9 uma plan\u00edcie sem marcos e sem dire\u00e7\u00e3o, o amor se revela em cada gr\u00e3o de areia que escorre entre os meus dedos, em cada sopro de ar que ainda consigo roubar do peito da noite, em cada batida do cora\u00e7\u00e3o que teima em n\u00e3o se render ao cansa\u00e7o e \u00e0 desist\u00eancia, porque o amor, esse velho conhecido que habita os subterr\u00e2neos da minha alma, n\u00e3o depende da paisagem, n\u00e3o depende do tempo, n\u00e3o depende da presen\u00e7a ou da aus\u00eancia, depende apenas de uma decis\u00e3o que foi tomada muito antes de eu saber o que era uma decis\u00e3o, e essa decis\u00e3o \u00e9 a de que, mesmo que o mundo se desfa\u00e7a em p\u00f3, mesmo que o c\u00e9u desabe sobre a minha cabe\u00e7a e me transforme em cinza, mesmo que o deserto se estenda para sempre e eu me perca nele como um \u00faltimo vest\u00edgio de \u00e1gua tragado pela areia, o amor permanecer\u00e1, n\u00e3o como uma lembran\u00e7a, n\u00e3o como uma esperan\u00e7a, mas como um fato, um fato incontorn\u00e1vel, uma rocha que resiste ao vento, uma montanha que n\u00e3o se move, uma verdade que n\u00e3o se nega.<\/p>\n<p>E assim, no centro deste deserto que agora sou, com a boca seca e os olhos ardendo de cansa\u00e7o e de l\u00e1grimas que n\u00e3o ousam cair, descubro que o amor \u00e9 exatamente essa teimosia, essa recusa obstinada em aceitar o fim, essa mania de plantar roseiras em terra de sal e de reg\u00e1-las com o suor do pr\u00f3prio rosto, e por isso, quando o primeiro clar\u00e3o do amanhecer come\u00e7a a tingir as dunas de um ouro p\u00e1lido e frio, eu me levanto, sacudo a areia do corpo e continuo a andar, n\u00e3o porque acredite encontrar um o\u00e1sis no fim da estrada, n\u00e3o porque espere um milagre ou uma salva\u00e7\u00e3o qualquer, mas porque o amor que carrego dentro de mim, esse amor que \u00e9 maior do que eu, maior do que o deserto, maior do que a pr\u00f3pria vida, exige de mim esse movimento, essa caminhada, esse gesto de quem, mesmo sabendo que pode morrer de sede, insiste ainda assim em avan\u00e7ar sobre a areia, e \u00e9 nesse gesto, nessa respira\u00e7\u00e3o ofegante e profunda, nesse andar sem destino e sem retorno, que o amor encontra a sua morada mais verdadeira, aquela que nenhum vento, nenhuma tempestade, nenhum tempo pode destruir, porque o amor, meu amigo, \u00e9 justamente isso, a for\u00e7a que nos faz continuar mesmo quando tudo nos diz que \u00e9 hora de parar, e por ser t\u00e3o grande, t\u00e3o desmedido, t\u00e3o absurdo, ele n\u00e3o morre, n\u00e3o pode morrer, n\u00e3o morrer\u00e1 jamais, nem mesmo no deserto que agora sou, nem mesmo na solid\u00e3o que me cerca, nem mesmo no fim de tudo que se anuncia a cada passo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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