{"id":4498,"date":"2026-08-17T23:32:35","date_gmt":"2026-08-18T02:32:35","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4498"},"modified":"2026-08-17T23:32:35","modified_gmt":"2026-08-18T02:32:35","slug":"enquanto-o-transporte-publico-e-turistico-do-rio-capibaribe-segue-parado-a-justica-eleitoral-suspendeu-a-barqueata-de-joao-campos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4498","title":{"rendered":"Enquanto o transporte p\u00fablico e tur\u00edstico do rio Capibaribe segue parado, a Justi\u00e7a Eleitoral suspendeu a barqueata de Jo\u00e3o Campos"},"content":{"rendered":"<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">H\u00e1 uma ironia que Pernambuco carrega h\u00e1 catorze anos e que a pol\u00edtica soube transformar, nesta segunda-feira, em epis\u00f3dio de rodap\u00e9 eleitoral. No primeiro dia oficial de campanha, domingo, 16 de agosto, Jo\u00e3o Campos participou de uma barqueata no Rio Capibaribe, com embarca\u00e7\u00f5es particulares enfeitadas de bandeiras de propaganda, e publicou as imagens em seu perfil oficial no Instagram. Na segunda-feira, o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco determinou a retirada da publica\u00e7\u00e3o em vinte e quatro horas, sob multa di\u00e1ria de cinco mil reais, com base na Resolu\u00e7\u00e3o TRE-PE n\u00ba 535\/2026, que classifica os rios como bens de uso comum sujeitos a restri\u00e7\u00f5es quanto a suporte de propaganda eleitoral. A decis\u00e3o, proferida pelo desembargador eleitoral auxiliar Paulo Augusto de Freitas Oliveira no processo n\u00ba 0601614-03.2026.6.17.0000, atendeu a representa\u00e7\u00e3o da Coliga\u00e7\u00e3o Pernambuco de Cora\u00e7\u00e3o. O fundamento \u00e9 estritamente jur\u00eddico e n\u00e3o cabe aqui contest\u00e1-lo. Mas a cena merece ser olhada com mais cuidado do que um simples epis\u00f3dio de calend\u00e1rio eleitoral, porque o candidato que subiu naquele barco n\u00e3o \u00e9 estranho \u00e0 hist\u00f3ria do rio que pisava. \u00c9 filho do governador que lan\u00e7ou a promessa de tornar o Capibaribe naveg\u00e1vel, e foi ele pr\u00f3prio, anos depois, ocupante do gabinete do governador sob o qual essa mesma promessa foi definitivamente abandonada.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\"><strong>O sonho anunciado em 2012<\/strong><\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">O projeto de navegabilidade do Rio Capibaribe nasceu formalmente em julho de 2012, quando o ent\u00e3o governador Eduardo Campos assinou o edital de licita\u00e7\u00e3o para a dragagem do rio, batizando a iniciativa de Rios da Gente e integrando-a ao PAC da Mobilidade do governo federal. O an\u00fancio foi grandioso. O investimento total previsto era de duzentos e oitenta e nove milh\u00f5es de reais, com a promessa de treze quil\u00f4metros e nove de canal naveg\u00e1vel, doze embarca\u00e7\u00f5es climatizadas e acess\u00edveis, sete esta\u00e7\u00f5es fluviais distribu\u00eddas entre os bairros de Santana, Torre, Derby, a \u00e1rea central do Recife e Tacaruna, e capacidade para transportar trezentos e trinta e cinco mil passageiros por m\u00eas, integrados a uma \u00fanica passagem com o sistema de \u00f4nibus, al\u00e9m do potencial tur\u00edstico de um corredor fluvial no cora\u00e7\u00e3o da cidade. Eduardo Campos discursou como quem inaugurava uma era, afirmando que o sonho de tornar o rio naveg\u00e1vel era antigo, alimentado por muitas gest\u00f5es, mas que finalmente seria concretizado sob a sua. A obra deveria ficar pronta at\u00e9 2014, ano da Copa do Mundo sediada tamb\u00e9m no Recife, o que tornava o cronograma tanto uma meta t\u00e9cnica quanto uma vitrine pol\u00edtica.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">Nada disso aconteceu. E o nome que assinou aquele edital n\u00e3o \u00e9 indiferente ao candidato de hoje. \u00c9 o pai de Jo\u00e3o Campos, cujo legado pol\u00edtico o pr\u00f3prio filho declara publicamente querer resgatar e atualizar.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\"><strong>Os n\u00fameros que sobraram do sonho<\/strong><\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">Segundo apura\u00e7\u00e3o do projeto de fact-checking Truco nos Estados, da Ag\u00eancia P\u00fablica, em parceria com o Marco Zero Conte\u00fado, e com base em dados da pr\u00f3pria Secretaria Estadual das Cidades e do Tribunal de Contas do Estado, foram efetivamente liberados para o projeto, at\u00e9 2018, aproximadamente setenta e sete milh\u00f5es e meio de reais. Desse total, cinquenta e um milh\u00f5es e novecentos e oitenta mil vieram da Uni\u00e3o, e vinte e cinco milh\u00f5es e seiscentos e dez mil do estado, dos quais dois milh\u00f5es e oitocentos e vinte mil como contrapartida direta do tesouro estadual. Havia ainda um valor liberado pela Caixa Econ\u00f4mica Federal, agente repassador dos recursos do Or\u00e7amento Geral da Uni\u00e3o, mas n\u00e3o pago, de cerca de oitocentos e cinquenta e cinco mil reais, retido por pend\u00eancias jur\u00eddicas e t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">O contrato original se desdobrava em seis frentes, a obra de dragagem propriamente dita, a constru\u00e7\u00e3o das esta\u00e7\u00f5es fluviais, o gerenciamento da dragagem, o plano de controle ambiental, a sinaliza\u00e7\u00e3o n\u00e1utica e os estudos ambientais preliminares. O cons\u00f3rcio respons\u00e1vel pela execu\u00e7\u00e3o, formado pelas empresas ETC e Bras\u00edlia Gua\u00edba, desistiu do contrato em 2016, obrigando a Secretaria das Cidades a rescindi-lo. A dragagem havia avan\u00e7ado apenas parcialmente, no trecho entre o ponto onde seria implantada a esta\u00e7\u00e3o da BR-101 e as imedia\u00e7\u00f5es do F\u00f3rum Joana Bezerra, e mesmo esse trecho, segundo registros de tentativas posteriores de retomada, nunca chegou a se converter em esta\u00e7\u00e3o operante nem em linha de transporte em funcionamento.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">Foi exatamente nesse ano de 2016 que Jo\u00e3o Campos ocupou o gabinete do ent\u00e3o governador Paulo C\u00e2mara, no n\u00facleo administrativo do mesmo governo que assistiu ao colapso do projeto sem produzir explica\u00e7\u00e3o p\u00fablica nem plano de recupera\u00e7\u00e3o \u00e0 altura da promessa original.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\"><strong>O regime da promessa renovada<\/strong><\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">O que se seguiu, ao longo dos dois mandatos de Paulo C\u00e2mara, foi um ciclo de an\u00fancios de retomada que nunca se converteram em obra conclu\u00edda. Em 2015 j\u00e1 se falava em retomar os trabalhos no segundo semestre daquele ano, com conclus\u00e3o prevista para o in\u00edcio de 2017. Em 2018, nova tentativa de resgate anunciava a divis\u00e3o do projeto em duas fases menores, a primeira limitada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de apenas duas esta\u00e7\u00f5es, Derby e Santana, com transporte hidrovi\u00e1rio restrito entre esses dois pontos, empurrando a promessa para o primeiro semestre de 2019. Nenhuma dessas datas se cumpriu. Uma audi\u00eancia p\u00fablica convocada na C\u00e2mara Municipal do Recife, por iniciativa da ent\u00e3o vereadora Vera Lopes, j\u00e1 registrava, naquele per\u00edodo, que o projeto estava paralisado e que a Casa precisava cobrar da gest\u00e3o estadual a continuidade de uma obra cuja ordem de servi\u00e7o havia sido assinada ainda por Eduardo Campos, evidenciando que a paralisa\u00e7\u00e3o j\u00e1 era, \u00e0 \u00e9poca, um fato consolidado, n\u00e3o um acidente de percurso.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">N\u00e3o houve, em nenhum momento desse intervalo, uma explica\u00e7\u00e3o p\u00fablica detalhada e definitiva sobre o destino final dos recursos j\u00e1 empenhados, nem uma presta\u00e7\u00e3o de contas que reconciliasse o valor total desembolsado com o que foi fisicamente entregue \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o houve, tamb\u00e9m, qualquer manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica de Jo\u00e3o Campos, \u00e0 \u00e9poca funcion\u00e1rio de confian\u00e7a do Pal\u00e1cio do Campo das Princesas, cobrando essa presta\u00e7\u00e3o de contas.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\"><strong>O retrato de hoje, treze anos depois<\/strong><\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">O levantamento mais recente do Tribunal de Contas do Estado, divulgado em dezembro de 2025, \u00e9 a confiss\u00e3o institucional de que nada mudou em subst\u00e2ncia. Pernambuco contabiliza mil, quinhentas e cinquenta e uma obras paralisadas ou com ind\u00edcios de paralisa\u00e7\u00e3o, sendo duzentas e sessenta e duas de responsabilidade estadual. Entre as obras estaduais de maior impacto financeiro que seguem sem entrega, ao lado do sistema de BRT da BR-101, dos corredores Norte-Sul e Leste-Oeste, da barragem de Igarapeba e da adutora do Oeste, o pr\u00f3prio TCE-PE nomeia, textualmente, os servi\u00e7os de implanta\u00e7\u00e3o da hidrovia dos rios Capibaribe e Beberibe. O relat\u00f3rio aponta que j\u00e1 foram pagos um bilh\u00e3o e quatrocentos milh\u00f5es de reais em contratos estaduais e municipais sem previs\u00e3o de conclus\u00e3o, o equivalente a dezoito por cento do valor total inicialmente contratado para o conjunto dessas obras.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">Sob a governadora Raquel Lyra, a hidrovia do Capibaribe continua oficialmente classificada como obra parada, treze anos depois do edital assinado no Centro de Conven\u00e7\u00f5es de Pernambuco. Mas a atual gest\u00e3o n\u00e3o inventou esse abandono, apenas o herdou de uma sequ\u00eancia de governos do mesmo campo pol\u00edtico ao qual Jo\u00e3o Campos pertence e no qual construiu carreira, primeiro como filho do fundador do projeto, depois como quadro de confian\u00e7a do governo que o deixou morrer.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\"><strong>A pergunta que a barqueata reacende<\/strong><\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">A pergunta que fica \u00e9 simples e inc\u00f4moda ao mesmo tempo. Onde est\u00e3o, hoje, exatamente, os setenta e sete milh\u00f5es de reais j\u00e1 gastos, e por que o Minist\u00e9rio P\u00fablico de Contas do Estado, ou o pr\u00f3prio Tribunal de Contas, n\u00e3o converteu esse dossi\u00ea em responsabiliza\u00e7\u00e3o efetiva de gestores, contratados e cons\u00f3rcios que abandonaram a obra no meio do caminho. H\u00e1 uma coincid\u00eancia que a Justi\u00e7a Eleitoral, sem inten\u00e7\u00e3o nenhuma de ironia, acabou por sublinhar nesta segunda-feira, o mesmo Capibaribe que a Resolu\u00e7\u00e3o TRE-PE n\u00ba 535\/2026 define como bem de uso comum, e por isso impr\u00f3prio para servir de cen\u00e1rio a bandeiras de campanha, \u00e9 o rio que o pai de um candidato prometeu devolver ao uso comum de fato, como linha de transporte p\u00fablico e atrativo tur\u00edstico, e que o pr\u00f3prio candidato, quando teve poder de gabinete para cobrar essa entrega, preferiu o sil\u00eancio.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal\" dir=\"ltr\">Jo\u00e3o Campos n\u00e3o \u00e9 v\u00edtima dessa hist\u00f3ria. \u00c9 herdeiro dela, e foi, por um tempo, seu funcion\u00e1rio. Enquanto essa d\u00edvida com o rio n\u00e3o for paga, nem explicada, o Capibaribe seguir\u00e1 naveg\u00e1vel apenas para as barca\u00e7as de campanha, sob a vigil\u00e2ncia protocolar da Justi\u00e7a Eleitoral, e intranspon\u00edvel para o passageiro comum que continua preso no mesmo tr\u00e2nsito que a promessa de 2012 jurou resolver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma ironia que Pernambuco carrega h\u00e1 catorze anos e que a pol\u00edtica soube transformar, nesta segunda-feira, em epis\u00f3dio de rodap\u00e9 eleitoral. 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