{"id":4470,"date":"2026-08-15T23:52:43","date_gmt":"2026-08-16T02:52:43","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4470"},"modified":"2026-08-15T23:52:43","modified_gmt":"2026-08-16T02:52:43","slug":"sheikha-moza-hamlet-e-o-exilio-a-historia-que-comeca-onde-a-biografia-oficial-termina-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4470","title":{"rendered":"Sheikha Moza, Hamlet e o Ex\u00edlio: a hist\u00f3ria que come\u00e7a onde a biografia oficial termina. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"isSelectedEnd\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013 <\/strong>Agosto devolve ao calend\u00e1rio o nome de Sheikha Moza Nasser, e seria f\u00e1cil transformar essa passagem em mais uma homenagem protocolar, dessas que se limitam a recordar realiza\u00e7\u00f5es, repetir t\u00edtulos, enumerar projetos e celebrar a personagem p\u00fablica que o mundo aprendeu a reconhecer. Mas algumas vidas resistem ao resumo e recusam a moldura estreita da cronologia. Elas pedem outro olhar, mais demorado, mais inquieto, capaz de perceber que por tr\u00e1s da figura p\u00fablica existe sempre uma geografia invis\u00edvel, feita de perdas, deslocamentos, sil\u00eancios, mem\u00f3rias e experi\u00eancias que n\u00e3o aparecem nas fotografias oficiais, embora muitas vezes expliquem mais de uma exist\u00eancia do que todos os discursos proferidos depois.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Foi justamente essa outra Sheikha Moza que come\u00e7ou a me interessar: n\u00e3o apenas a mulher cercada pelo prest\u00edgio, pela diplomacia, pela educa\u00e7\u00e3o e pela cultura, mas a menina anterior \u00e0 personagem p\u00fablica, o tempo em que ainda n\u00e3o existiam pal\u00e1cios, f\u00f3runs internacionais ou institui\u00e7\u00f5es capazes de anunciar aquilo que ela viria a representar. Antes da proje\u00e7\u00e3o internacional, antes da influ\u00eancia, antes mesmo de qualquer ideia de destino, existiu o ex\u00edlio. E essa palavra, quando entra cedo na vida de uma fam\u00edlia, n\u00e3o se limita a mudar endere\u00e7os. Ela altera o significado de casa, de terra, de pertencimento e de retorno; instala-se nas conversas entre adultos, infiltra-se nos sil\u00eancios e, muitas vezes, chega \u00e0s crian\u00e7as sem explica\u00e7\u00e3o suficiente, mas com for\u00e7a bastante para deixar marcas.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Uma crian\u00e7a pode n\u00e3o compreender as circunst\u00e2ncias pol\u00edticas que obrigaram uma fam\u00edlia a partir, mas compreende a aus\u00eancia. Percebe quando existe alguma coisa que deveria estar perto e n\u00e3o est\u00e1. Sente, mesmo sem saber nomear, a diferen\u00e7a entre estar em um lugar e pertencer a ele. O ex\u00edlio possui essa crueldade particular: pode afastar algu\u00e9m de sua terra, mas n\u00e3o disp\u00f5e de for\u00e7a suficiente para arrancar a terra de dentro de algu\u00e9m. O corpo parte, a mem\u00f3ria permanece; a fronteira muda, mas o pertencimento continua trabalhando em sil\u00eancio, subterr\u00e2neo, resistente, \u00e0s vezes at\u00e9 mais vivo justamente porque foi privado da presen\u00e7a f\u00edsica.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Foi essa imagem que come\u00e7ou a me perseguir e que, pouco a pouco, abriu um caminho inesperado em dire\u00e7\u00e3o a Hamlet. N\u00e3o o Hamlet reduzido \u00e0 caricatura escolar do pr\u00edncipe da d\u00favida, mas o homem assombrado pelo passado, pela mem\u00f3ria e pela presen\u00e7a de algo que deveria ter permanecido enterrado e que, no entanto, retorna para exigir uma resposta. Shakespeare compreendeu como poucos que o passado n\u00e3o permanece pacificamente atr\u00e1s de n\u00f3s; ele reaparece, interroga, cobra, reorganiza o presente. Hamlet caminha por Elsinore acompanhado por um fantasma, mas o exilado tamb\u00e9m conhece os seus fantasmas, ainda que eles n\u00e3o atravessem muralhas numa madrugada fria. Podem surgir no cheiro de uma rua, numa fotografia guardada durante d\u00e9cadas, num nome de cidade, numa lembran\u00e7a de inf\u00e2ncia ou numa conversa perdida no tempo. Algumas pessoas deixam um pa\u00eds; outras passam a vida inteira carregando dentro de si o pa\u00eds que deixaram.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Foi nesse territ\u00f3rio quase invis\u00edvel entre hist\u00f3ria e mem\u00f3ria que Sheikha Moza e Hamlet come\u00e7aram a se aproximar para mim. N\u00e3o porque suas hist\u00f3rias sejam semelhantes, nem porque literatura e biografia possam ser misturadas de maneira artificial, mas porque ambas conduzem a uma mesma pergunta: o que acontece quando uma experi\u00eancia de perda n\u00e3o desaparece, mas continua participando silenciosamente da constru\u00e7\u00e3o do futuro? Essa pergunta me pareceu muito mais rica do que qualquer compara\u00e7\u00e3o literal. Ela permite pensar n\u00e3o apenas o ex\u00edlio como acontecimento pol\u00edtico, mas como experi\u00eancia humana, capaz de atravessar uma inf\u00e2ncia e permanecer presente muito depois de a geografia ter sido recomposta.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Quando observamos Sheikha Moza d\u00e9cadas depois, vemos uma mulher associada \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 cultura, \u00e0 ci\u00eancia, \u00e0 juventude e ao desenvolvimento humano, uma figura que se tornou parte importante da proje\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do Catar. Seria irrespons\u00e1vel afirmar que uma experi\u00eancia da inf\u00e2ncia explica uma trajet\u00f3ria inteira, como se uma vida pudesse ser resolvida por uma \u00fanica chave. Mas seria igualmente pobre ignorar que certos acontecimentos se transformam em subterr\u00e2neos: n\u00e3o aparecem na fachada, mas sustentam aquilo que vemos. A pergunta que me acompanhou, portanto, n\u00e3o foi se o ex\u00edlio explica Sheikha Moza, mas at\u00e9 que ponto uma experi\u00eancia de deslocamento, mem\u00f3ria e retorno pode dialogar com as escolhas, os valores e as formas de imaginar o futuro.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Foi nessa escava\u00e7\u00e3o que a biografia deixou de ser, para mim, uma sucess\u00e3o de acontecimentos e passou a se transformar numa paisagem. Comecei a perceber que toda trajet\u00f3ria possui suas nascentes e que, muitas vezes, elas est\u00e3o muito distantes do ponto em que o rio finalmente se torna vis\u00edvel. Olhar apenas para a Sheikha Moza j\u00e1 consagrada seria como observar um grande curso d\u2019\u00e1gua no instante em que ele atravessa a cidade e ignorar todas as pedras, desvios, afluentes e territ\u00f3rios percorridos antes de chegar ali. O ex\u00edlio pertence a essa zona remota da biografia, mas justamente por isso pode conter uma for\u00e7a explicativa que a superf\u00edcie, sozinha, n\u00e3o revela.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Talvez por isso o tema do ex\u00edlio tenha atravessado tantos s\u00e9culos de literatura e hist\u00f3ria. Poucas experi\u00eancias humanas colocam de maneira t\u00e3o intensa a pergunta sobre aquilo que realmente nos pertence quando algo essencial nos \u00e9 retirado. Perdemos a casa, mas preservamos a lembran\u00e7a; deixamos a terra, mas continuamos habitados por ela; retornamos ao lugar de onde partimos e, ainda assim, descobrimos que o verdadeiro retorno nunca \u00e9 completo, porque quem volta j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 exatamente aquele que saiu. O tempo altera as cidades, mas altera tamb\u00e9m aqueles que regressam. E, muitas vezes, o lugar permanece enquanto o homem j\u00e1 se tornou outro.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Foi nesse ponto que compreendi que <em>Sheikha Moza Nasser, Hamlet e o Ex\u00edlio<\/em> n\u00e3o poderia ser apenas um livro sobre uma personalidade. Precisava ser tamb\u00e9m uma investiga\u00e7\u00e3o sobre mem\u00f3ria, identidade, deslocamento e destino; sobre aquilo que a hist\u00f3ria faz com os indiv\u00edduos e sobre aquilo que os indiv\u00edduos fazem com a hist\u00f3ria que recebem. Precisava caminhar por esse territ\u00f3rio em que uma menina marcada pelo deslocamento encontra, s\u00e9culos depois, um pr\u00edncipe criado por Shakespeare, n\u00e3o para que um explique o outro, mas para que ambos iluminem uma quest\u00e3o que ultrapassa qualquer personagem: o que fazemos com aquilo que perdemos, e quanto daquilo que perdemos continua determinando o lugar para onde seguimos?<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Enquanto escrevia, percebi que a parte p\u00fablica da hist\u00f3ria era apenas a entrada. Atr\u00e1s dela existiam outras salas, algumas iluminadas, outras quase em penumbra. Em algumas encontrei pol\u00edtica; em outras, fam\u00edlia, mem\u00f3ria e forma\u00e7\u00e3o; em outras, Shakespeare. E em quase todas havia uma mesma presen\u00e7a silenciosa, como uma sombra que se deslocava pelos corredores sem jamais desaparecer por completo: o ex\u00edlio. Foi quando percebi que o verdadeiro interesse dessa hist\u00f3ria n\u00e3o estava apenas no que Sheikha Moza se tornou, mas no caminho invis\u00edvel entre aquilo que lhe foi retirado e aquilo que, mais tarde, ajudou a construir.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Neste m\u00eas em que se celebra o nascimento de Sheikha Moza, eu poderia simplesmente oferecer uma homenagem. Prefiro deixar uma inquieta\u00e7\u00e3o. Quem era aquela menina antes de o mundo conhecer a mulher? O que permaneceu depois que o ex\u00edlio terminou? O que retorna conosco quando finalmente retornamos? E por que, tantos anos depois, um pr\u00edncipe concebido por Shakespeare parece surgir no meio dessa hist\u00f3ria, como se a literatura soubesse reconhecer, antes mesmo de n\u00f3s, certas verdades que atravessam \u00e9pocas, povos e geografias?<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Foi tentando responder a essas perguntas que escrevi <em>Sheikha Moza Nasser, Hamlet e o Ex\u00edlio<\/em>. N\u00e3o para entregar uma personagem pronta, mas para procurar aquilo que se esconde atr\u00e1s dela; n\u00e3o para repetir o que j\u00e1 foi dito, mas para caminhar em dire\u00e7\u00e3o ao que ainda precisa ser perguntado. O leitor encontrar\u00e1 no livro n\u00e3o apenas uma trajet\u00f3ria p\u00fablica, mas uma investiga\u00e7\u00e3o sobre mem\u00f3ria, perda, poder, pertencimento, retorno e destino. E descobrir\u00e1 tamb\u00e9m por que Hamlet surgiu justamente quando comecei a olhar para a hist\u00f3ria de Sheikha Moza al\u00e9m da superf\u00edcie.<\/p>\n<p>O restante eu n\u00e3o deveria contar aqui. Toda boa hist\u00f3ria precisa preservar uma porta fechada, n\u00e3o para negar a resposta ao leitor, mas para despert\u00e1-lo para a necessidade de atravess\u00e1-la. A minha est\u00e1 no livro. E, atr\u00e1s dela, n\u00e3o est\u00e1 apenas a hist\u00f3ria de Sheikha Moza, nem apenas a sombra de Hamlet, mas algo mais profundo e universal: a tentativa de compreender de que maneira aquilo que nos foi arrancado continua, silenciosamente, participando daquilo que nos tornamos.<\/p>\n<p>VIDEO do YOUTUBE:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Por dentro da vida da Rainha mais RICA do Catar\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BBtwg0hJzR0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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