{"id":4433,"date":"2026-08-12T22:14:43","date_gmt":"2026-08-13T01:14:43","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4433"},"modified":"2026-08-12T22:14:43","modified_gmt":"2026-08-13T01:14:43","slug":"dima-diab-a-escritora-que-a-guerra-matou-mas-nao-conseguiu-calar-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4433","title":{"rendered":"Dima Diab: a escritora que a guerra matou, mas n\u00e3o conseguiu calar. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"PDq2pG_selectionAnchorContainer\" data-start=\"325\" data-end=\"399\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013\u00a0 <\/strong>Quando uma bomba mata uma escritora, o mundo inteiro perde uma biblioteca<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Um ano cabe inteiro numa folha de calend\u00e1rio, mas certas mortes recusam a disciplina dos dias e permanecem conosco como uma janela que o tempo n\u00e3o consegue fechar. Neste 12 de agosto, o nome de Dima Diab volta \u00e0 minha mem\u00f3ria com a mesma inquieta\u00e7\u00e3o de quando soube de sua morte, embora agora a dor tenha adquirido outra espessura. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas o choque da not\u00edcia que chega coberta pela poeira dos escombros, mas uma tristeza amadurecida pela consci\u00eancia de que, durante todos esses meses, o mundo continuou girando enquanto aquela mulher, aquela escritora e tudo o que ainda poderia ter escrito ficaram interrompidos numa tarde que nunca terminou para os que se lembram dela.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Dima Diab morreu com sua fam\u00edlia no sul de Gaza, depois de atravessar a experi\u00eancia brutal do deslocamento, essa forma contempor\u00e2nea de ex\u00edlio em que uma pessoa \u00e9 obrigada a abandonar a pr\u00f3pria casa sem saber se um dia tornar\u00e1 a v\u00ea-la. Fugir de uma guerra n\u00e3o significa apenas mudar de endere\u00e7o. Significa arrancar a vida de suas ra\u00edzes, fechar uma porta sem saber se ela ainda estar\u00e1 de p\u00e9 no retorno, escolher \u00e0s pressas aquilo que as m\u00e3os podem carregar enquanto uma exist\u00eancia inteira permanece para tr\u00e1s. Numa mala cabem roupas, documentos, talvez algumas fotografias. N\u00e3o cabem o cheiro da casa, a luz que atravessava determinada janela ao fim da tarde, o lugar de cada livro na estante, as vozes que ficaram impregnadas nos c\u00f4modos, a intimidade silenciosa dos objetos que durante anos aprenderam a reconhecer seus moradores.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Pouco antes de morrer, Dima havia mostrado em v\u00eddeo a casa que deixara para tr\u00e1s. Sempre que penso nessas imagens, encontro nelas algo muito maior do que um simples registro dom\u00e9stico. Vejo uma mulher tentando salvar pela mem\u00f3ria aquilo que a realidade come\u00e7ava a lhe roubar. A c\u00e2mera percorria os espa\u00e7os como se acariciasse paredes, portas e janelas, transformando cada detalhe numa esp\u00e9cie de invent\u00e1rio afetivo contra o desaparecimento. Talvez Dima n\u00e3o soubesse, naquele momento, que estava construindo com imagens a \u00faltima ponte entre si mesma e o lugar a que desejava voltar. Talvez acreditasse, como tantos deslocados precisam acreditar para continuar andando, que tudo aquilo era provis\u00f3rio e que um dia colocaria novamente a chave na fechadura, abriria a porta e reencontraria a vida esperando por ela.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A guerra, por\u00e9m, possui uma gram\u00e1tica cruel e quase sempre escreve seus verbos no passado. A casa deixa de ser casa e passa a ser ru\u00edna. A rua deixa de conduzir a algum lugar e termina numa cratera. O quarto de uma crian\u00e7a passa a existir somente na lembran\u00e7a de quem conhecia a posi\u00e7\u00e3o da cama. Aquilo que para os mapas militares pode ser reduzido a coordenadas, para quem viveu ali \u00e9 uma geografia sentimental constru\u00edda ao longo de anos. Nenhuma fotografia a\u00e9rea \u00e9 capaz de registrar o peso de uma mesa onde uma fam\u00edlia se reunia, nem existe sat\u00e9lite que consiga localizar o ponto exato em que uma m\u00e3e beijava o filho antes de dormir.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Talvez por isso a morte de uma escritora carregue uma viol\u00eancia ainda mais profunda. Todo escritor \u00e9 uma casa povoada. Dentro dele convivem lembran\u00e7as, personagens, paisagens, vozes, medos e hist\u00f3rias ainda sem forma, esperando o momento de encontrar linguagem. Quando um escritor morre antes do tempo, n\u00e3o desaparece somente aquilo que ele escreveu. Perde-se tamb\u00e9m aquilo que estava a caminho da escrita, a biblioteca invis\u00edvel que ainda n\u00e3o havia chegado \u00e0s estantes do mundo. Em Dima, penso sobretudo nessa literatura que n\u00e3o conheceremos, nessas p\u00e1ginas que permaneceram suspensas antes mesmo de receberem a primeira palavra.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Quantos relatos teriam nascido de sua experi\u00eancia em Gaza? Quantas personagens poderiam ter surgido das mulheres que encontrou durante a fuga, das crian\u00e7as que atravessaram estradas sem compreender por que precisavam abandonar suas casas, dos idosos que carregavam na mem\u00f3ria uma Palestina anterior a tantas perdas? Talvez Dima transformasse um dia aquele v\u00eddeo de sua casa num conto, numa cr\u00f4nica ou numa narrativa sobre o desejo de retorno. Talvez descrevesse a luz entrando pela janela e dissesse que nenhuma guerra fora capaz de alterar a dire\u00e7\u00e3o do sol. Tudo isso pertence agora ao territ\u00f3rio das possibilidades interrompidas, e poucas coisas s\u00e3o t\u00e3o dolorosas quanto aquilo que poderia ter existido e n\u00e3o existir\u00e1.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A morte retira o corpo do mundo, mas o esquecimento tenta realizar um trabalho ainda mais completo, apagando tamb\u00e9m os rastros da passagem de algu\u00e9m pela vida. \u00c9 justamente nesse ponto que a literatura se levanta como uma forma de resist\u00eancia. N\u00e3o possui tanques, ex\u00e9rcitos ou fronteiras, mas conserva nomes. Quando escreve sobre quem partiu, ela impede que a aus\u00eancia seja transformada em vazio absoluto. A palavra n\u00e3o devolve a vida, n\u00e3o recomp\u00f5e os corpos nem reconstr\u00f3i fisicamente as casas destru\u00eddas, mas realiza um gesto que talvez seja uma das mais antigas formas humanas de enfrentar a morte: lembrar.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Um ano depois, compreendo melhor por que a hist\u00f3ria de Dima continua me perseguindo. Vivemos cercados por n\u00fameros que cresceram de tal maneira que corremos o risco de perder a capacidade de enxergar aquilo que existe dentro deles. Mortos, feridos, deslocados, \u00f3rf\u00e3os e casas destru\u00eddas aparecem diariamente em estat\u00edsticas cuja dimens\u00e3o deveria nos despertar, mas que muitas vezes termina produzindo o efeito contr\u00e1rio. Quando o sofrimento se torna grande demais, o n\u00famero come\u00e7a a funcionar como uma cortina. Por tr\u00e1s dele, desaparecem os rostos.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Dima tinha um rosto, uma casa, uma hist\u00f3ria e uma voz. Antes de ser v\u00edtima de uma guerra, foi mulher, escritora, algu\u00e9m que amou, que leu, que observou o mundo e procurou transform\u00e1-lo em palavras. Reduzi-la ao instante de sua morte seria permitir que a pr\u00f3pria viol\u00eancia definisse sua biografia. Prefiro lembr\u00e1-la diante daquela casa filmada, reconhecendo cada espa\u00e7o, guardando dentro de si os detalhes que uma bomba jamais conseguiria compreender. Nesse gesto existe algo que pertence profundamente \u00e0 literatura, porque escrever tamb\u00e9m \u00e9 recolher do mundo aquilo que parece pequeno e torn\u00e1-lo indestrut\u00edvel pela mem\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Toda casa possui uma arquitetura vis\u00edvel e outra secreta. A primeira \u00e9 feita de cimento, madeira, portas e telhados. A segunda se constr\u00f3i com lembran\u00e7as, vozes, afetos, aus\u00eancias e hist\u00f3rias. A primeira pode ser demolida em segundos. A outra, quando encontra quem a conte, atravessa gera\u00e7\u00f5es. Talvez seja essa a casa que Dima habita agora, n\u00e3o como uma imagem consoladora, mas como a consequ\u00eancia natural de toda vida que deixou palavras suficientes para n\u00e3o desaparecer completamente.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Por isso escrevo seu nome novamente neste 12 de agosto. N\u00e3o como quem grava uma inscri\u00e7\u00e3o sobre uma pedra funer\u00e1ria, mas como quem abre uma janela numa casa que ainda precisa de luz. Dima Diab. O nome retorna \u00e0 p\u00e1gina e, ao retornar, recupera por alguns instantes tudo aquilo que a estat\u00edstica n\u00e3o consegue dizer. A mulher, a escritora, a fam\u00edlia, a casa, o medo, o desejo de voltar, os livros escritos e aqueles que permaneceram para sempre dentro dela.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Existe uma dimens\u00e3o da guerra que acontece depois das explos\u00f5es, quando come\u00e7a a disputa entre aquilo que ser\u00e1 lembrado e aquilo que poder\u00e1 ser esquecido. \u00c9 nesse territ\u00f3rio que a palavra encontra sua responsabilidade. Quem escreve recolhe os fragmentos que a viol\u00eancia espalhou, devolve rosto aos n\u00fameros e restitui aos mortos a condi\u00e7\u00e3o de seres humanos que tiveram sonhos, casas e futuros. Talvez nenhuma literatura seja capaz de impedir uma bomba de cair, mas pode impedir que, depois dela, caia tamb\u00e9m o sil\u00eancio.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Um ano passou desde a morte de Dima Diab, mas seu nome continua atravessando o calend\u00e1rio como uma pequena chama protegida pelas m\u00e3os da mem\u00f3ria. A casa para a qual ela desejava voltar talvez j\u00e1 n\u00e3o exista como existia em seus olhos, por\u00e9m outra foi sendo erguida desde ent\u00e3o, lentamente, por todos os que ainda contam sua hist\u00f3ria. N\u00e3o possui endere\u00e7o em Gaza nem pode ser localizada por qualquer mapa. Suas paredes s\u00e3o feitas daquilo que lembramos, seu teto \u00e9 sustentado pelas palavras que se recusaram a morrer, e suas janelas permanecem abertas para que o mundo n\u00e3o possa dizer, amanh\u00e3, que n\u00e3o viu.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 nessa casa que Dima permanece.<\/p>\n<p>E nenhuma guerra disp\u00f5e de explosivos suficientes para demolir completamente aquilo que a mem\u00f3ria aprendeu a construir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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